A fascinante história do DSM

Para muitos, a história do DSM é uma história de frustração. Apesar disso, em muitas partes do mundo este manual ainda é usado como a principal ferramenta para o diagnóstico de transtornos mentais.
A fascinante história do DSM

Última atualização: 07 Dezembro, 2021

A história do DSM -Manual diagnostico e estatístico de transtornos mentais- é a história de como uma parte da humanidade concebeu a mente humana. Embora continue sendo a principal ferramenta de diagnóstico em muitos países, não tem sido isenta de controvérsias e questionamentos ao longo do tempo.

Uma das primeiras críticas a esta que é considerada a Bíblia da psiquiatria é que, apesar do nome, ela não contém estatísticas. O método pelo qual a classificação dos transtornos mentais é desenhada também é questionado. Da mesma forma, a própria história do DSM apresenta episódios que desvirtuam seu caráter científico.

Muitas vezes, os distúrbios descritos neste manual são usados mais para rotular as pessoas do que como um princípio de tratamento. Este último, nessa perspectiva, costuma ser quase exclusivamente farmacológico, o que também gera críticas. Vamos examinar mais de perto a fascinante história do DSM.

“Estaremos no ponto de partida de algo novo ou a cura da ‘pílula mágica’ será imposta? A psiquiatria será refundada? Com base em quê? Tempos interessantes se avizinham. ”.

-Alejandro Garcia-

Mente com mecanismos

A história do DSM: as origens

A primeira vez que um manual sobre transtornos mentais foi feito nos Estados Unidos foi em 1917. Ele foi desenhado pela American Medical-Psychological Association, uma organização que mais tarde se tornaria a American Psychiatric Association (APA). No entanto, foi somente em 1952 que a primeira versão do DSM foi publicada: o DSM I.

Um dos aspectos problemáticos da história do DSM é que surgiu num momento em que havia um grande interesse em “pacificar” as sociedades, após a atroz Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, um grande número de psiquiatras militares foi chamado para projetar o manual.

Desde o início, a ideia de classificar os transtornos mentais de forma tão categórica foi questionada. Essas críticas vieram, sobretudo, da psicologia e da psicanálise, ambas com uma visão mais holística. Inicialmente, apenas alguns distúrbios foram classificados. As perguntas levaram a uma segunda versão que incluiu 36 patologias.

O ponto de inflexão

Existe um ponto de viragem na história do DSM. Aconteceu quando David Rosenhan fez o famoso experimento de Rosenhan, que provou que os critérios diagnósticos eram extremamente imprecisos e arriscados. A psiquiatria foi então posta em questão. Diante disso, o psiquiatra Robert Spitzer lançou uma ofensiva para evitar os questionamentos. O resultado disso foi o DSM III.

A ideia era fazer um manual que dispensasse totalmente a subjetividade. Até agora, as possíveis causas dos distúrbios e algumas notas sobre o tratamento foram incluídas, mas a terceira versão eliminou tudo isso. O que se buscava agora era fazer uma lista dos transtornos e colocar em primeiro plano o conjunto de sintomas que caracterizavam cada um.

Quem faria este trabalho? Um grupo de psiquiatras americanos. Como definiram cada transtorno e suas características? Através de um método muito “democrático”: o voto. Se a maioria ganhava, o transtorno era incluído. Se não, ele era excluído. Dentro do grupo, apenas psiquiatras da escola organicista foram admitidos.

O objetivo era que o Manual pudesse ser usado universalmente: em todas as culturas e para todos os indivíduos. No final, eles tinham uma lista de 265 entidades clínicas. A única que não foi aprovada foi a “síndrome da criança atípica”, cujo criador a definiu como “uma criança com sintomas indefiníveis mas atípicos” (sic).

Psicólogo fazendo um relatório

DSM hoje

Continuando com a história do DSM, em 1994 foi realizada a concepção da quarta versão do manual. O objetivo foi, como sempre, dar aos conceitos uma maior precisão e especificidade. Usando  cada vez mais uma linguagem mais técnica e menos ambígua. Desta vez, a lista acabou sendo composta por 404 entidades clínicas.

A quinta versão, lançada em 2013, foi a mais polêmica de todas na história do DSM. Recebeu críticas de todas as frentes. Eles gastaram muito dinheiro, trabalharam por 10 anos e o resultado foi decepcionante. Os próprios autores o admitiram.

Esta versão inclui entidades clínicas questionáveis como “síndrome do risco de psicose”, algo como certos indícios de que no futuro alguém pode se tornar psicótico. Os especialistas estimam que isso poderia gerar falsos positivos de até 75%.

Não é à toa que a Organização Mundial da Saúde não recomenda o uso deste instrumento, mas sim da CID-10 (Classificação Internacional de Doenças), que também não deixa de ser questionável. Também é curioso que o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIH) tenha decidido abandonar essa classificação. O capítulo final da história do DSM pode ter começado.

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  • Georgiopoulos, A. M., & Donovan, A. L. DSM-5: un sistema de diagnóstico psiquiátrico.