A jornada da heroína

· outubro 20, 2018

A jornada da heroína, como qualquer jornada arquetípica de heróis, é um processo de individualização. O viajante empreende uma aventura fora do seu mundo normal para enfrentar inimigos e dragões. O herói vai superando testes com a ajuda de um mentor, real ou sobrenatural, que o prepara para enfrentar os desafios.

No caminho, encontrará provas decisivas, alguma de vida ou morte. Também há recompensas e um caminho de volta, que também não é livre de dificuldades. Os heróis vão se deparar com suas próprias sereias que tentarão por todos os meios que abandonem o caminho.

É uma jornada da psique humana com algumas etapas, reais e simbólicas, que não são comuns a todos e que passam pela separação da mãe e a aceitação do pai, entre outras.

Essa jornada arquetípica consiste em nos tornarmos quem realmente somos, transformando a visão que temos do mundo e de nós mesmos. É uma busca por um sentido mais transcendente na vida e um desejo de manifestar nossa própria natureza. Foi o historiador Joseph Campbell que, em meados do século XX, popularizou o termo em seu livro O Herói de Mil Faces.

A jornada da heroína e suas diferenças em relação à jornada do herói

A jornada do herói, também conhecida como monomito, contém padrões válidos tanto para homens quanto para mulheres. É um caminho difícil e as mulheres têm um desafio extra: empreendê-lo no contexto de “um mundo de homens”. Nós, mulheres, nos vemos empurradas à busca de nossa própria identidade em um ambiente onde o feminino é definido/tratado muitas vezes como uma construção dependente, inferior e um objeto de tentação.

Estes são alguns dos dragões que devemos enfrentar se partirmos nessa viagem. Em muitos casos, a heroína inconscientemente comete o erro de encarar essa aventura tomando como referência o masculino. É assim que começamos quase tudo.

Uma grande heroína

Há uma primeira ruptura com o mundo comum, por meio da qual a mulher busca sua identidade através do sucesso profissional, do poder e da “perfeição” física. Esses valores são fundamentalmente masculinos, arquetipicamente vinculados à jornada ascendente do mundo do sol, do intelecto e do poder. Em suma, ao mundo do pai.

Esta é uma etapa significativamente destrutiva para a mulher e muitas vezes é o prelúdio de um evento dramático em sua vida, como uma doença, uma grande perda ou o rompimento de uma relação. Este fato supõe um declínio da insondável psique feminina. É uma fase crítica onde a heroína se sente perdida, na qual sente que não controla nada. Ela não encontra referências que possam guiá-la, mas sim uma sensação que provoca confusão e, às vezes, muito sofrimento.

Integrando o feminino

A fase seguinte é de reencontro com sua própria natureza feminina e melhora das relações com outras mulheres. Nesta etapa, muitas vezes há encontros com mulheres sábias pelas quais a heroína sentirá uma grande admiração. Novas referências, novas maneiras que, até esse momento, estavam escondidas.

O racional já não explica os fatos e as circunstâncias em que nossa heroína se vê envolvida. Assim, começa uma etapa de encontro com o irracional e com o mundo subjetivo. A viajante assume a importância dos ciclos da natureza e dos seus próprios, do seu corpo. Integra fortemente uma inter-relação intuitiva com os elementos que a rodeiam.

felicidade e o amor são dois dos conceitos que começam a ser vistos a partir de perspectivas muito diferentes. É um período tremendamente criativo, com uma imaginação fértil. Pode haver um reencontro e uma melhora na relação com a mãe ou com outras mulheres que a simbolizam. Mesmo quando a cura de sua relação com a mãe não é possível, ocorre um reencontro harmonioso com sua própria mãe interior, com sua própria natureza materna.

Integrando o masculino

O objetivo desta etapa da jornada é a integração do masculino. A integração de tudo aprendido na dolorosa primeira parte da aventura. Às vezes se manifesta através de uma mudança na relação difícil com o pai ou com quem o simboliza.

Abre-se uma fase de relações afetivas em que nossa heroína não renuncia a sua própria liberdade, e aparecem figuras masculinas em sua vida pelas quais ela desenvolve uma profunda admiração. Em suma, falamos de uma integração harmoniosa dos aspectos femininos e masculinos que, quando ocorre, geralmente também dá origem a alguma produção artística.

Características da jornada da heroína

O regresso

Para as mulheres, retornar também significa uma reconciliação com seu próprio corpo e sua sexualidade. Há um reconhecimento do aspecto sagrado da parte feminina de todo ser humano. A heroína traz consigo toda essa sabedoria para o retorno de sua própria odisseia.

A voz interior de julgamento foi deixada na estrada. Valores importantes como sucesso ou amor romântico foram transformados. A heroína retorna com uma visão simbiótica do mundo em que vivemos e com uma intuição reforçada.

É uma jornada de declínio, escura e cheia de dificuldades para as profundezas da nossa própria psique. Uma jornada que nem sempre queremos percorrer e para a qual nunca estaremos preparadas. E você? Já sentiu o chamado?