A psicologia é uma ciência?

A psicologia é uma ciência?
Alejandro Sanfeliciano

Escrito e verificado por o psicólogo Alejandro Sanfeliciano.

Última atualização: 29 dezembro, 2022

Será que a psicologia é uma ciência? Quem se dedica à disciplina da psicologia já ouviu muitas vezes frases que colocam em dúvida o caráter científico da mesma devido a sua subjetividade. Inclusive, já ouvimos coisas como: “Sou bom em psicologia, vejo as pessoas como elas são”. Afirmações como essas nos mostram que existe uma grande confusão em relação a essa matéria. Isso acontece porque a maioria da população nunca estudou e não sabe realmente do que se trata a psicologia.

Para compreender o porquê da psicologia ser uma ciência, antes de mais nada é necessário saber o que é uma ciência, já que também existem dúvidas sobre esse outro tema. Muitas pessoas acreditam que a ciência é a portadora da verdade, que ela observa a realidade e a descreve gerando afirmações indiscutíveis. Mas reduzir a ciência a essa definição pode nos levar a muitos erros. Vejamos o porquê a seguir.

O que é uma ciência?

Uma ciência é um ramo do saber que busca descrever, explicar, prever e modificar algum domínio da realidade. No caso da psicologia, estamos falando do comportamento e dos processos cognitivos humanos. A ciência tem um objetivo bastante pragmático, busca entender certos eventos para poder usá-los a seu favor. Para que tudo isso aconteça, ocorre o emprego de uma metodologia própria denominada método científico.

Dúvidas e interrogações

O método científico é uma estratégia hipotético-dedutiva para extrair conclusões e certezas sobre o objetivo do estudo. Ele é composto por uma série de passos que explicamos logo a seguir:

  • Delimitação do problema. Essa é a primeira parte do método. Consiste na busca de um problema do qual não se tem total conhecimento. Os motivos de ele ocorrer, por exemplo, são desconhecidos. Alguém poderia se perguntar: “por que as coisas caem no chão?” ou “como acontece a aprendizagem no ser humano?”. Essas duas perguntas são bastante genéricas, quando entramos de fato na ciência procuramos níveis bem mais específicos dessas questões, mas são bons exemplos para entender o que é a delimitação de um problema.
  • Elaboração de hipóteses. Por meio da observação, da dedução e de revisões bibliográficas, podemos elaborar uma série de hipóteses para responder à pergunta do problema. Isso diz respeito a teorizar sobre como ocorre o problema que escolhemos. As hipóteses não são certas nem falsas, são possibilidades que estamos dispostos a explorar.
  • Realização de experimentos. Quando já temos o problema e a hipóteses, o próximo passo é testá-las para verificar sua veracidade. Devemos então desenhar um experimento no qual tentaremos mostrar que nossas hipóteses são, na verdade, falsas. Esse experimento pode ser realizado de muitas formas, podemos utilizar questionários, observação direta, manipulação experimental, etc.
  • Análise dos dados. Depois de realizar o experimento, o próximo passo é analisar os dados estatisticamente. Se ela nos mostra que as hipóteses estão erradas, então elas são descartadas. Mas se, ao contrário, não conseguimos desmenti-las, aceitamos a hipótese como uma verdade. É importante entender que nunca conseguimos confirmar uma hipótese, já que não podemos coletar todos os dados imagináveis. Então, falamos sempre em probabilidade na ciência. O termo “aceitar uma hipótese” indica que no momento não conseguimos mostrar que essa hipótese é falsa, e só isso.
  • Comunicação dos resultados. É a parte mais importante do método científicos. Não haveria sentido em descobrir algo se não vamos compartilhar o conhecimento construído. Ao comunicar os resultados, estamos ampliando o saber da ciência e isso permite que outros cientistas surjam com novos problemas para resolver e, assim, avançar. Além disso, ao compartilhar um experimento permitimos que os demais pesquisadores possam replicá-lo e descubram mais evidências a favor ou contra a hipótese testada.

O aspecto-chave de todo esse processo é entender que a ciência funciona atacando a veracidade de suas próprias hipóteses. É uma forma de reduzir o erro e evitar a afirmação de dogmas incontestáveis. Ao deixar sempre em dúvida as hipóteses escolhidas, a ciência está em contínua provação. Graças a isso, temos um método muito dinâmico que vai se adaptando ao novos dados que surgem ao longo do tempo.

Outro tema importante é a distinção que algumas pessoas fazem entre as “ciências duras” e outros tipos de ciência que não poderiam ser encaixadas de fato nesse conceito original de ciência. As ciências duras, também chamada comumente no Brasil de ciências hard, são a biologia, a física e a química. Ou seja, são aquelas ciências que parecem mais objetivas e facilmente observáveis.

Mas essa divisão e nomenclatura é um erro. Por exemplo, ao mesmo tempo em que na física há a interferência da gravidade, que pode ser observada em fatos do dia a dia, na psicologia também podemos ter o mesmo tipo de experiência com a ansiedade, com as emoções ou com os processos de aprendizagem.

Inclusive, hoje em dia sabemos que a lei clássica da gravidade apresentava erros. A ciência não consiste em descrever o que ocorre, e sim o porquê disso. E para fazer isso, as ciências duras e as outras ciências usam exatamente o mesmo método.

A psicologia intuitiva e a psicologia científica

Todos nós geramos teorias intuitivas de como é o mundo que está a nossa volta. Isso é um processo cognitivo natural e nos ajuda a manter o controle e prever o que acontecerá a seguir. Por isso, temos uma psicologia intuitiva dentro de nós que nos indica como acreditamos que os outros se comportam e por que se comportam assim. Seria um grave erro, no entanto, pensar que essas nossas crenças correspondem à verdade.

Essa psicologia intuitiva é baseada em atalhos mentais formados por experiência anteriores. Segundo nossa educação, experiências e história de vida, teremos uma forma ou outra de perceber e entender o que está acontecendo ao nosso redor. Esses juízos são totalmente subjetivos e não seguem absolutamente nenhuma rigorosidade científica. Eles fazem parte da nossa vida, mas não têm nada a ver com a psicologia enquanto ciência.

A psicologia científica é totalmente oposta a essa psicologia intuitiva. Nela, não escutamos e acolhemos crenças ou juízos de valor na hora de explicar um comportamento humano. Utilizamos o método científico, fazendo uso da experimentação e da coleta de dados objetivos para interpretá-los e chegar a conclusões, mesmo que contrárias a nossa hipótese inicial.

Como resultado das diversas pesquisas feitas ao redor do mundo, nascem constructos sobre a psicologia que são respaldados por diversos dados empíricos. As pesquisas podem ser inclusive conjugadas em pesquisas maiores, que analisam conjuntamente os dados de diversas pesquisas sobre o tema. Esse tipo de psicologia chama-se metanálise e é o maior nível de evidência de qualquer ciência.

Um aspecto-chave para entender, e que facilita a compreensão do porquê da psicologia ser uma ciência, é saber a diferença entra uma opinião e uma interpretação racional. Quando falamos de opiniões nos referimos a crenças que temos sobre algum aspecto determinado da realidade devido a nossa própria experiência. Por exemplo, podemos opinar que o ser humano é bom, e que a sociedade o corrompe, porque as vivências moldam o homem que teria esse interior puro.

Agora, a interpretação é algo muito diferente disso: ela consiste em analisar, decifrar e explicar um evento através de dados obtidos cientificamente, de forma neutra. Se usarmos o mesmo exemplo anterior, se os dados nos mostrarem que o ser humano não é bom nem mau, teremos que interpretá-los a partir de uma perspectiva diferente da nossa crença, e que faça uso de toda a informação que temos.

A psicologia científica não é uma questão de opinião. Não se pode discutir ciência nos mesmos termos que discutimos nossas crenças da psicologia intuitiva. A primeira é baseada na interpretação da evidência obtida, e então o debate deve se dar em torno das distintas possibilidades de dar significados para essas informações que temos.

Ou seja, a única forma de rebater os resultados de uma pesquisa científica em psicologia é com outros dados objetivos que refutem a ideia. Não é com uma opinião que diga simplesmente “eu acho o contrário”. É por isso que a psicologia científica se encaixa nos moldes da ciência, sendo ela mesmo, portanto, uma delas.

Por que alguns não consideram que a psicologia é uma ciência?

Já vimos que a psicologia usa os mesmos métodos e tem a mesma validade e confiabilidade que o resto das ciências. Mas, então, por que existem tantas dúvidas sobre se a psicologia é mesmo uma ciência ou não? A seguir vamos examinar três motivos que acredito que são os principais para que isso aconteça.

O primeiro deles é a grande confusão que existe sobre o conceito de ciência. A maioria da população tem em mente uma definição um pouco nebulosa. Esse fato, junto ao desconhecimento dos instrumentos que são utilizados para a medição dos comportamentos e dos processos mentais, deriva em uma categorização da psicologia como muito subjetiva e pouco científica.

O segundo motivo são as práticas pseudocientíficas que se derivam da psicologia. Infelizmente existem muitas pessoas que estão à margem da psicologia, mas que usam o mesmo termo para se referir a práticas que não utilizam qualquer método científico. Isso faz com que a maioria da população, ainda que de forma equivocada, relacione a psicologia a essas pseudociências, embora na verdade uma não tenha nada a ver com a outra. Exemplos disso são práticas de coaching ou algumas partes da psicanálise.

Diferentes direções a seguir

Por último, uma razão para explicar essa resistência que existe na hora de assumir as evidências da psicologia é que ela implica diretamente o ser humano. Quando falamos de física, de química ou de outras ciências, os resultados só dizem respeito e só incomodam as pessoas muito envolvidas no assunto, e eles aceitam as evidências sem problemas.

Mas quando falamos de como é o ser humano, a situação é muito diferente, já que os resultados podem ir totalmente contra a psicologia intuitiva da pessoa, e ela rapidamente vai tentar resolver esse conflito cognitivo simplesmente ignorando a evidência exposta. Essa é uma opção que demanda menos de si mesmo do que reestruturar suas crenças pessoais.

A confusão sobre o conceito de ciência junto a práticas pseudocientíficas que são derivadas da psicologia, além do fato do ser humano estar diretamente envolvido como objeto de estudo, são alguns dos motivos mais importantes para que ainda exista o debate sobre a psicologia ser ou não uma ciência.

Portanto, diante da dúvida de classificar a psicologia como uma ciência ou não, você já sabe que a resposta é um confiante sim. Não podemos cair no erro de negar as evidências e tentar frear o avanço científico nessa disciplina, que é tão importante para entendermos a nós mesmos tanto a nível individual quanto a nível de sociedade.


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