A síndrome do saldo no vermelho

julho 31, 2019
Na síndrome do saldo no vermelho há um desejo constante de comprar até usar todo o dinheiro disponível que temos e, inclusive, continuar gastando e fazendo dívidas. Talvez seja uma forma de fugir da ausência de um verdadeiro projeto de vida.

A síndrome do saldo no vermelho tem a ver com a incapacidade de guardar dinheiro para gastos futuros.

É como se as notas voassem das mãos. Quando a pessoa tem um pouco de dinheiro, já começa a pensar em como vai gastar. É como se precisasse se livrar dos seus ganhos o quanto antes para ficar no zero.

Esse comportamento recebe o nome de saldo no vermelho exatamente porque, observando de fora, pode transmitir a sensação de que o propósito é viver sempre no limite.

Nesse caso, falamos de uma incapacidade crônica de poupar. Quem sofre dessa síndrome não suporta a ideia de ter dinheiro guardado e, por isso, gasta em coisas desnecessárias ou irrelevantes.

Por outro lado, especialistas afirmam que poupar é um fator crítico para melhorar a qualidade de vida, sobretudo para quem não possui uma renda elevada. Em outras palavras, quando se ganha pouco, o costume de poupar faz diferença em termos de qualidade de vida.

Parece contraditório, mas é verdade. Poupar, pelo seu significado, é uma forma de controle sobre nossas vidas, sobretudo em relação ao futuro. A síndrome do saldo no vermelho vai de encontro a essa ideia.

“Preste atenção nos pequenos gastos. Um furo pequeno pode afundar um barco”.
-Benjamin Franklin-

O dinheiro e a síndrome do saldo no vermelho

Uma relação saudável com o dinheiro é aquela na qual existe um equilíbrio entre o que se ganha, se investe e se gasta. Isso também inclui consciência em relação às prioridades de gasto e uma visão do estado financeiro a médio e longo prazo.

Quando todas essas variáveis são combinadas de forma racional, pode-se falar de uma consciência saudável em relação ao dinheiro.

Na síndrome do saldo no vermelho, em contrapartida, há uma perspectiva confusa. As características ou os sintomas que definem essa condição são, entre outros, os seguintes:

  • Compra frequente de presentes. Presentes para si mesmo como recompensa por alguma coisa ou presentes para outras pessoas sem um motivo específico.
  • Sensação de ter muitas dívidas, mas opta-se por não pensar no assunto para não se preocupar.
  • Frequentemente, a pessoa pensa que talvez seria melhor não gastar tanto dinheiro, mas não faz nada para mudar isso.
  • Ao receber qualquer renda extra, a primeira ideia que vem à mente é como gastar.
  • A pessoa tem a sensação de que sua renda nunca é suficiente para todos os gastos que deseja ter. Ela tem a sensação de que nunca vai parar de acumular dívidas.
  • Antes de comprar, há uma certa preocupação, e depois de fazer, uma certa culpa. Mas evita-se pensar sobre isso.

Quando estão presentes mais de duas dessas características, pode-se falar da síndrome do saldo no vermelho. Nesse caso, há uma relação um tanto neurótica com o dinheiro. Talvez seja algo que tenha se transformado em um tipo de véu que encobre outros problemas.

O uso disseminado do cartão de crédito

A perspectiva de futuro

O dilema que existe é: consumir hoje ou poupar para o futuro? A consciência de poupar só existe em quem estabelece para si uma perspectiva de futuro.

A acumulação de dinheiro através da economia busca reunir recursos para projetos futuros ou contar com um respaldo frente a possíveis eventualidades que coloquem as finanças em risco.

Implica causar uma frustração no hoje (não gastar o dinheiro) em função de um bem futuro (a realização de projetos maiores ou a minimização do risco).

Para aqueles que têm a síndrome do saldo no vermelho, o futuro é um assunto impreciso sobre o qual não acreditam que podem ter controle. Ou não querem ter.

Pensar no futuro também é pensar em um projeto de vida, e nem todo mundo deseja ou pode fazer isso. Por fim, isso leva a uma questão importante cuja resposta tem consequências significativas.

Homem tirando moedas de cofrinho

Guardar dinheiro através do ato de poupar também é uma forma de “se estabelecer”. Significar fincar raízes, optar por um ponto de referência para crescer e evoluir. Representa um desejo de construir que nem todo mundo tem ou quer ter.

O problema é que, querendo ou não, nossas ações financeiras condicionam os recursos com os quais contaremos no futuro. Embora não queiramos ver esse futuro, ele existe.

A síndrome do saldo no vermelho, ou a administração das finanças sem foco ou perspectiva, também é uma forma de fuga. Talvez estejamos vivendo um presente no qual nos sentimos privados de momentos de felicidadee compensamos isso com os pequenos e fugazes prazeres proporcionados pelas compras.

Ou é possível que simplesmente não tenhamos a menor ideia do rumo de nossas vidas, e gastar dinheiro nos ajude a mascarar essa preocupação. Seja como for, esse tipo de comportamento tem consequências que costumam ser pagas com ansiedade, dívidas e, portanto, um menor controle sobre a própria vida.

  • Verdugo, V. C. (2010). Psicología de la sustentabilidad. Editorial Trillas Sa De C.