Abstração seletiva: aumentar o negativo e diminuir o positivo

Abstração seletiva: aumentar o negativo e diminuir o positivo

4, novembro 2016 em Psicologia 0 Compartilhados
A abstração seletiva: aumentar o negativo e diminuir o positivo

A abstração seletiva é uma distorção do pensamento que leva a pessoa a sentir que tudo que é negativo é mais relevante e está mais presente nas situações do que o que é positivo. Não é uma coisa intencional, simplesmente se transforma em um jeito automático de processar a realidade. É muito provável que a pessoa tenha adotado esse jeito de pensar por “herança educacional” e nunca tenha parado para questioná-lo.

Quando a pessoa vive em entornos onde o tempo todo se dá destaque para as coisas negativas de cada pessoa ou situação, ela se acostuma a pensar que esse tipo de análise é o correto. Além disso, esta perspectiva vai ficando fixa no cérebro paulatinamente, e por isso não consegue detectar as fissuras que na verdade existem no seu pensamento.

Pode até ser que tenha incorporado certas justificativas para pensar deste jeito. Talvez pense que ficando somente no negativo irá correr menos riscos de se sentir frustrado por não alcançar um objetivo, ou descobrir os erros ou vazios das outras pessoas. Também pode acontecer de pensar que enxergar o lado negativo é uma atitude mais analítica e crítica, porque não é preciso mexer nas coisas boas.

A abstração seletiva na vida cotidiana

As pessoas que têm esta distorção de pensamento estão frequentemente chateadas. É comum que tenham um catálogo do que não toleram ou das coisas que lhes provocam indignação. Não aguentam a falta de pontualidade, toleram tudo menos a mentira, ficam muito chateadas com o fato de que as pessoas sejam conformistas e coisas do gênero. Por sua vez, sentem-se indignadas e até agredidas pelos erros dos outros. Isso, além do mais, pode ser um jeito de pensar que os orgulha.

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A abstração seletiva não apenas tem a ver com o mundo exterior, mas também acaba se aplicando a si mesmo. Isto resulta naquelas pessoas para as quais dizemos que “estão vendo outro filme”. Dito de outro jeito, são aquelas que costumam imaginar o desfecho de todas as situações como uma coisa terrível ou, em todo caso, negativo para elas.

Este pode ser um exemplo: o namorado demora um pouco para chegar ao encontro da namorada. Ela começa a se desesperar e imagina que talvez seja um jeito que ele tem para transmitir que já não está tão interessado na relação como antes.

Acaba pensando que se trata de um homem sem consideração, egoísta e que, além disso, não gosta dela, como na sua mente ela disse para si mesma muitas vezes. Quando ele chega, o que faz é justamente lançar todas essas acusações, sem considerar que a sua demora foi por causa de um acidente de trânsito, uma coisa que escapa totalmente da vontade do namorado.

Outro exemplo, aplicado ao trabalho, é quando alguém preparou cuidadosamente uma apresentação e ela resulta em um sucesso. Contudo, algum dos participantes faz alguma crítica a respeito de um detalhe da apresentação. Sendo assim, o apresentador elimina a sensação de triunfo e na sua memória fica apenas armazenada essa crítica, a qual irá reviver vez após vez nos próximos dias.

Ele sai pensando que talvez as outras pessoas também tivessem críticas, mas que o único que o expressou em voz alta foi aquele que formulou a crítica. Chega a pensar que talvez todo o seu esforço tenha sido em vão, porque a apresentação não atendeu as suas expectativas, que a todo momento estavam condicionadas ao cumprimento das expectativas dos outros.

Lutando contra a abstração seletiva

Manter a mente no registro da abstração seletiva invariavelmente conduz a estados de frustração e chateação. Não é uma coisa que enriqueça a vida de alguma forma, nem mesmo um tipo de pensamento que deva ser cultivado. Pelo contrário: o aconselhado é erradicar esse mecanismo da própria mente para ter uma vida mais plena. Mas, como conseguir fazer isso?

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Como todo comportamento mecânico, a primeira coisa a fazer é ganhar consciência de que se está preso a ele. É bom se fazer a seguinte pergunta: que peso dou aos aspectos negativos das pessoas ou das situações? De alguma forma penso que o negativo seja uma coisa que mereça mais atenção do que o positivo?

Uma vez que se reconhece a existência dessa abstração seletiva no pensamento, o próximo passo é realizar um processo de auto-observação para detectar se isso acontece com tudo e com todos ou se aparece somente em determinadas circunstâncias. Essa atitude vigilante permitirá perceber o que desencadeia a distorção. O mais provável é descobrir que o mecanismo surge em circunstâncias que provocam insegurança.

Quando chegar esse momento em que for possível dizer para si mesmo: “Escuta, você está enxergando só o lado ruim”, então estaremos prontos para dar o passo seguinte. Por que não tentar enxergar o lado bom, o lado positivo?

Procure transformá-lo em um exercício permanente, quase como sendo outro mecanismo: a cada avaliação negativa que você fizer de alguma coisa ou de alguém, imediatamente precisa contrapor com uma avaliação positiva. “Encontrei este defeito, agora a tarefa é encontrar uma virtude”. Assim você estará a caminho de superar o terrível peso de um pensamento com abstração seletiva.

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