Acinetopsia ou cegueira de movimento

junho 15, 2020
Acinetopsia é a incapacidade de perceber o movimento. Alguém com essa patologia teria grandes dificuldades para algo tão simples quanto atravessar a rua. Descubra suas características e como é a vida desses pacientes.

Imagine que, em um dia qualquer, você acorda pela manhã, abre a geladeira, pega o leite para tomar com café e o despeja no copo. Quando você despeja a quantidade que quer, para de servir. Até aqui, tudo normal. Agora, imagine outra situação: você começa a servir o leite, mas não cai nada. Você continua a encher o copo, mas continua sem ver o leite cair. De repente, o copo está transbordando e há leite esparramado por todo lado. Como isso é possível? O que aconteceu? Bem-vindo à acinetopsia.

A acinetopsia é a incapacidade de perceber objetos em movimento. Trata-se de uma agnosia visual. Como Arnedo, Bembibre e Triviño (2012) descrevem, uma agnosia visual é “uma alteração no reconhecimento visual dos objetos (ou de características específicas do estímulo, como cor e movimento), com preservação de outras capacidades visuais, como a acuidade, o rastreamento ou diferenciação entre figura-fundo e demais funções superiores”.

Pessoas com acinetopsia veem o mundo em quadros. Por esse motivo, possuem grandes dificuldades para realizar atividades tão simples quanto atravessar uma rua. Ao ver o mundo em quadros, são incapazes de ver um carro em movimento. Elas o veem aqui e depois ali; isso significa que, na melhor das hipóteses, podem sentir a transição (velocidade). Portanto, sem percepção de movimento e sem saber onde um carro está em um dado momento, podem ser facilmente atropeladas.

No exemplo do copo, o truque é inserir um dedo na borda e, dessa maneira, perceber através do toque quando o copo estiver cheio. No entanto, em outras tarefas, a solução não é tão fácil. Dirigir, por exemplo, é uma atividade proibida para pessoas com acinetopsia. Também é preciso mencionar que, se conhecermos alguém com esse tipo de agnosia, é aconselhável não jogar nada para que elas peguem no ar, pois é mais provável que o objeto atinja seu rosto ou corpo.

Pessoas com acinetopsia não têm a capacidade de unir imagens de forma fluida.

Sintomas da acinetopsia

Tipos de acinetopsia

Fina ou discreta

É o tipo mais difundido de acinetopsia. O movimento é percebido como uma exibição de fotografias contínuas (com muita frequência de atualização, permitindo reconstruir o movimento com bastante precisão). No exemplo do copo, em vez de vê-lo vazio e cheio, elas veriam como ele é preenchido através de imagens estáticas. Portanto, esse tipo de acinetopsia não é tão incapacitante, embora seja incômoda.

Macroscópica

É o tipo de acinetopsia com menor incidência, mas a mais grave. A cegueira ao movimento é total. Os pacientes afetados por essa patologia passam de ver a imagem de um carro à distância para vê-la perto deles. Perdem a informação do movimento entre uma imagem e outra. Portanto, são incapazes de prever o movimento de um objeto externo a eles. Inclusive, podem até testemunhar “aparições estranhas”.

Vamos imaginar que uma pessoa com acinetopsia macroscópica esteja em sua sala de estar e alguém entre nela discretamente. É muito possível que o sujeito com essa patologia encontre, de repente, alguém à sua frente. Devido a isso, suas vidas são muito limitadas.

Onde está o problema?

A informação visual circula para a frente (feedforward) ou seja, da retina para o tálamo e deste para o córtex occipital). À medida que se afasta do receptor, essas informações se tornam mais complexas em termos computacionais. No entanto, essas informações também são processadas para trás (feedback).

Esse processo atrasado, como destaca Javier Cudeiro (2008), da Universidade da Corunha, “é estabelecido por meio das conexões de retorno através das quais uma determinada área pode influenciar (ou modular) a atividade de áreas anteriores do sistema visual“.

“Nosso senso de visão é como uma câmera de vídeo: captura um grande número de imagens que, quando reproduzidas em uma velocidade contínua, geram uma sensação de continuidade e movimento. Nos pacientes com acinetopsia, essa sensação não existe e eles veem as imagens separadamente”.

Cudeiro afirma que se trata de uma descoberta de grande importância, e destaca como exemplo o córtex temporal medial. Esta área parece ser a chave para a percepção do movimento e da sua direção. Assim, as lesões do córtex temporal medial e a microestimulação elétrica têm permitido comprovar o aparecimento de déficits graves como a acinetopsia.

Álvarez e Masjuan (2015) afirmam que “a acinetopsia ocorre após lesões occipitoparietais bilaterais (há casos relatados de lesão unilateral), geralmente de causa isquêmica ou traumática”.

Cérebro humano

Notas finais sobre a acinetopsia

Sem dúvida, estamos falando de uma agnosia na fase de investigação: ainda temos muitos dados para conhecer sobre ela. Mesmo assim, cada avanço é altamente relevante devido à valiosa contribuição que pode fornecer para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Álvarez e Masjuan destacam que esses pacientes têm a sensação de que os objetos saltam em vez de ter um movimento contínuo e fluido, aparecendo e desaparecendo em diferentes posições”. Como deve ser passar um dia na pele de alguém com essa agnosia?

Esses autores também apontam que o fato de perceber seu ambiente dessa forma lhes causa grandes dificuldades para saber se um objeto está se afastando ou se aproximando. Então, como é possível saber se um carro está perto ou longe? Como se mover em um mundo em constante movimento?