Adaptação autodestrutiva: quando normalizamos o que nos causa sofrimento

19 Outubro, 2020
Às vezes normalizamos o sofrimento, convencendo-nos de que não há saída. No entanto, aceitar o que nos machuca quando há saída nos prejudica e nos fragmenta. Sabendo disso, por que o fazemos?

Quando nos espetamos com o espinho de uma flor, sentimos desconforto. No entanto, às vezes, esse mesmo espinho se fixa em nós por um tempo e não conseguimos tirá-lo. Sabemos que ele está lá, mas a dor é diferente agora. Podemos até aguentar um pouco até conseguirmos extraí-lo. Nas relações humanas, às vezes acontece o mesmo, surgindo o que conhecemos como adaptação autodestrutiva.

As pessoas podem normalizar o sofrimento de maneiras surpreendentes e inesperadas. Além disso, a maioria de nós não sabe até que ponto chega a nossa capacidade inata de adaptação. Muitas vezes vemos isso nos ambientes de trabalho: algumas pessoas passam décadas em uma posição onde seus direitos são desrespeitados ou onde sofrem assédio ou mobbing.

Aguentamos tudo para ter um salário no final do mês? Às vezes, é muito mais do que a questão monetária. Podemos continuar naquele emprego constrangedor porque “é o que temos” e “está difícil conseguir outro”. Assim, por meio dessas verbalizações e justificativas, a pessoa se adapta sem sentir o peso da fratura psicológica que algo assim acarreta.

A adaptação autodestrutiva vai além do mero masoquismo e contém uma série de realidades que vale a pena conhecer.

Mulher triste segurando flor

Adaptação autodestrutiva: quando normalizamos o que causa sofrimento

O fenômeno da adaptação autodestrutiva foi estudado durante anos no campo psicológico. Não deixa de ser algo impressionante e inexplicável visto de fora. Os comportamentos autodestrutivos e desregulados só podem ser entendidos a partir de um único ponto de vista: naquele em que alguém recebe algo em troca.

Por exemplo, todo comportamento viciante, como o consumo de álcool ou drogas, é prejudicial. No entanto, a pessoa obtém um prazer em troca; daí aparece o vício e autodestruição. O mesmo acontece com práticas como o cutting ou automutilação. Nesse caso, a dor física atua como uma válvula de escape para a dor emocional.

Agora, qual explicação podemos dar ao fato de alguém estar em um relacionamento infeliz há anos? Por que uma pessoa que é constantemente traída continua a manter esse vínculo? Quais benefícios pode obter alguém que continua em um emprego degradante?

Vamos nos aprofundar nas possíveis causas.

A personalidade autodestrutiva

Para entender as causas que às vezes mediam a adaptação autodestrutiva, podemos ir ao básico: a personalidade humana. Embora possamos nos surpreender, há um perfil que se orienta para essas práticas nocivas a ponto de normalizá-las. Foi Theodore Millon, um psicólogo americano pioneiro na pesquisa da personalidade, quem primeiro falou sobre ele:

  • A personalidade autodestrutiva entra continuamente nos mesmos tipos de relacionamentos prejudiciais.
  • Movem-se voluntariamente entre pessoas que as enganam e as desapontam.
  • Normalizam o abuso porque orientam os seus relacionamentos na dependência absoluta.

Para Theodore Millon, a adaptação autodestrutiva costumava ser um traço do transtorno de personalidade limítrofe.

Personalidade masoquista

Além da personalidade autodestrutiva, existe outro tipo de padrão de comportamento. Estamos falando da personalidade masoquista, que se encaixaria em uma categoria clínica muito específica: o transtorno de personalidade autodestrutivo ou masoquista.

Um estudo realizado pelo Dr. Otto Kernberg define as suas características:

  • Eles se desvalorizam constantemente.
  • Não consideram as suas necessidades.
  • Não procuram se envolver em atividades prazerosas.
  • Eles se autossacrificam ao extremo para ajudar os outros.
  • Tendência a normalizar (e até buscar) experiências de dor e sofrimento.
  • Recusam ajuda e tendem a se afastar de qualquer pessoa que os trate com respeito.

Quando a única coisa que conhecemos é o sofrimento

Ver como alguém tolera o sofrimento até limites incabíveis não deixa de nos incomodar. Porém, antes de julgar, é preciso entender.

Imagine alguém que já sofreu abusos físicos e psicológicos na infância, que desde cedo compreendeu que o amor às vezes vem acompanhado de humilhação, e que quem te ama também pode fazê-lo chorar e sofrer.

Sem dúvida, algo assim explica por que muitas pessoas toleram a dor e não reagem.

Homem nervoso e preocupado

A adaptação autodestrutiva e o medo da mudança

O que será de mim se eu deixar esse relacionamento, para onde irei? Se eu decidir deixar este trabalho… para onde vou, que oportunidades terei? A resistência à mudança nos humanos é um fator ao qual não prestamos atenção suficiente. Às vezes, está tão arraigado e coloca tantos obstáculos em nosso potencial e bem-estar que se torna patológico.

São situações em que o medo da mudança é mais assustador do que a experiência que está sendo vivida. A adaptação autodestrutiva tende a normalizar tanto a dor e a humilhação que nenhum outro modo de vida é vislumbrado. Nessas situações, é fundamental ter sempre uma boa rede de apoio.

Romper a teia de aranha que a adaptação autodestrutiva tece ao nosso redor requer nutrir a autoestima e estabelecer uma distância para perceber o que está acontecendo. Ter alguém para nos ajudar é fundamental, mas tudo depende de nós mesmos, da nossa decisão e convicção de que não merecemos continuar a tolerar o intolerável.

  • Millon, T. (1995) Disorders of personality: DSM-IV and beyond. Nueva York: Wiley.
  • Ghent, E. (1990) Masochism, submission, surrender – Masochism as a perversion of surrender. Contemporary Psychoanalysis; 26: 108-136