A adversidade nem sempre nos torna mais resilientes

Nem todo mundo que passa por um momento difícil sai mais forte, mais sábio ou mais habilidoso. Muitos ficam presos na tempestade por bastante tempo. Como a resiliência não é algo que aparece automaticamente, é necessário saber como desenvolvê-la.
A adversidade nem sempre nos torna mais resilientes

Última atualização: 08 Dezembro, 2020

A adversidade nem sempre nos torna mais resilientes. Chegamos a um ponto em que o conceito de resiliência foi revestido com um embrulho excessivamente luminoso e até distante da realidade. Nem todo mundo que passa por uma época de adversidades e dificuldades consegue ativar essa capacidade maravilhosa. Às vezes, os dias difíceis nos afundam, e esse acontecimento também cai na normalidade.

Estamos vivendo um momento de transformação em todos os níveis. Talvez por esse motivo abordagens como o positivismo mais otimista não nos sirvam mais da mesma forma que nos anos anteriores. Assim, o clássico Always look on the bright side of life (olhe sempre para o lado bom da vida), cantado em A Vida de Brian, não é mais tão eficaz nas circunstâncias atuais.

Neste momento, somos obrigados a vislumbrar as dificuldades e os riscos que temos diante de nós. Não podemos virar o rosto, não basta apenas dizer a nós mesmos que “vai ficar tudo bem e sairemos mais fortes disso”. É hora de abrir espaço para outras possibilidades, aprender a processar a adversidade, as emoções negativas e esse lado menos gentil da vida.

A resiliência existe, mas não funciona no piloto automático. Ele não se ativa por si só e nem sempre o faz quando mais precisamos. É por isso que devemos entender como essa valiosa competência psicológica realmente funciona.

Mulher triste na natureza

A adversidade nem sempre nos torna mais resilientes, mas podemos aprender

Nós nos acostumamos a rotular as experiências – e também as emoções – como “boas” ou “ruins”. Uma coisa dessas faz com que muitas pessoas se tornem intolerantes a tudo o que ficar nesse último extremo. E, por si só, isso é compreensível.

Preferimos a estabilidade, a complacência, a harmonia daquele dia a dia em que nos satisfazemos, gozamos daquela normalidade em que nada sai de sintonia e tudo está em equilíbrio.

Porém, quando chega o imprevisto, a ponta dos problemas e o barulho da dificuldade em qualquer uma de suas formas, é comum que apareça o bloqueio. Ficamos sem fôlego e sem recursos psicológicos para atravessar a tempestade.

A adversidade nem sempre nos torna mais resilientes, porque nem todos sabemos como ativá-la. Aliás, há situações em que o que temos pela frente é um momento de muita dificuldade que nem todos conseguem superar. Vamos nos aprofundar um pouco mais nesse tema.

Resiliência não é enfrentar a adversidade, é “navegar” com ela

Frequentemente, quando falamos sobre resiliência, é comum usar a metáfora do farol. Visualizamos um mar agitado com ondas violentas investindo contra essa construção, cuja resistência é infinita. Independentemente dos ventos, das tempestades e da força de mil oceanos, o farol consegue resistir a qualquer coisa.

Bem, essa metáfora sobre a resiliência é incorreta. Em seu lugar, devemos usar uma visão um pouco menos heroica, um pouco menos brilhante e inspiradora. O mais adequado seria a lição da “boia sinalizadora”, que consiste no seguinte:

  • Em vez de lutar contra as ondas (a adversidade), é necessário mover-se com elas, como as boias sinalizadoras fazem.
  • É preciso manter a flutuabilidade, ou seja, a clareza mental e a temperança, para se mover entre os dias de tempestade.
  • O verdadeiro segredo é ter algo em que se apegar (ter uma âncora).
  • Essa âncora interna também é composta por nossos pensamentos, atitudes e comportamentos. São esses elementos que nos sustentam e nos ajudam a passar por dias complicados.

A adversidade nem sempre nos torna mais resilientes (existem processos que levam tempo)

A adversidade nem sempre nos torna mais resilientes. Às vezes, dias difíceis são apenas isso, dias complicados que nos fazem cair por um momento e depois passam sem nos ensinar nenhuma lição. Outras vezes, não é possível ativar a resiliência porque carecemos dessas âncoras, de recursos de enfrentamento:

  • Há momentos em que, em meio à adversidade, afundamos. Esse acontecimento é mais normal do que pensamos.
  • Se não fosse assim, não existiriam psicólogos, psiquiatras e todos os especialistas em saúde mental. Porque não somos heróis, não somos faróis que resistem a tudo. Somos humanos, pessoas falíveis que às vezes caem.
  • Precisar de especialistas que nos fornecer ferramentas para lidar com o que machuca é algo perfeitamente normal.
Homem diante de mar revolto

Existem pessoas que lidam com tudo e veem oportunidades, outras apenas desejam sobreviver (e tudo é igualmente aceitável)

A adversidade nem sempre nos torna mais resilientes, isso é verdade. Além disso, existem pessoas que são extremamente habilidosas nessas circunstâncias. Elas não apenas lidam com qualquer dificuldade, como também tiram proveito dela. Outros, em contrapartida, se limitam a estar em modo de sobrevivência. Ou seja, suportar o que acontecer, aguentar firme para não ser levado pela correnteza.

Vamos ser claros, ambas as situações são igualmente aceitáveis ​​e admiráveis. O objetivo, quando os dias sombrios chegam, é conseguir sair deles com saúde física e mental. Esse é o verdadeiro sucesso e nosso verdadeiro objetivo.

Haverá aqueles que cruzarão esse limiar com melhores recursos e novos ganhos. Outros sentirão apenas alívio por terem saído daquele nevoeiro para iniciar uma nova etapa. 

Qualquer uma dessas duas circunstâncias é adequada. O importante é continuar navegando, seguir avançando rumo a um horizonte de esperança.

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