Afastar-se para ter perspectiva, a arte de refletir com distanciamento

agosto 29, 2019
Uma forma de aliviar a ansiedade e de ter um contato mais autêntico com o seu eu e as suas necessidades é se distanciar. Para fazer isso, você não precisa pegar um avião. Muitas vezes basta um longo passeio em solidão para acalmar a mente e poder ver melhor.

Às vezes vale a pena afastar-se para ter perspectiva e se distanciar temporariamente do que está a nossa volta para decidir melhor, para clarear os pensamentos, ideias, desejos e emoções.

Conseguir fazer isso nem sempre é fácil, já que a maioria de nós está muito apegado a nossa realidade imediata tão cheia de estímulos e pressões. No entanto, realizar esse exercício pode ser muito benéfico.

Há um fato que, sem dúvida, é muito curioso. As pessoas são muito habilidosas para se distanciar quase a todo instante, mas isso é feito através de uma mente hiperativa e errante.

A mesma mente que se perde muito frequentemente em seu próprio labirinto de preocupações, pensamentos ruminantes e memórias. Esse tipo de processo mental não ajuda, não é útil e frequentemente nos coloca em um estado de esgotamento.

Por mais estranho que pareça, um modo de conseguir fazer isso é aplicar outro tipo de distância. Estamos nos referindo àquela na qual o cérebro é capaz de abaixar a alavanca que desliga o ruído mental inútil, e imediatamente se situa em um local de silêncio no qual pode focar no que realmente é importante.

Vejamos como conseguir fazer isso.

“O controle da vida emocional e sua subordinação a um objetivo é essencial para explorar e manter a atenção, a motivação e a criatividade”.
-Daniel Goleman-

Mulher na floresta

Afastar-se para poder ver melhor, a chave para tomar boas decisões

Um novo termo que vale a pena conhecer está surgindo no campo da psicologia: estamos nos referindo ao autodistanciamento.

É um conceito interessante que nos permite ter, por exemplo, um melhor gerenciamento do estresse e da ansiedade, uma tomada de decisões mais eficiente, e inclusive uma forma excepcional de potencializar o processo criativo.

Essa técnica já conta com vários estudos, como o realizado pelo Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia no ano de 2018.

Os doutores Michael Duckworth e Al Kross afirmam que o simples fato de descansar o olhar em um cenário relaxante e bonito já nos ajuda a conseguir criar uma distância psíquica da realidade imediata para se conectar com o interior. É uma estratégia de autossugestão.

Por isso, afastar-se para ter perspectiva não implica, obrigatoriamente, ter que fazer as malas. Não é necessário percorrer vários quilômetros para estabelecer uma separação física do nosso cotidiano ou do nosso ambiente.

Às vezes, treinar o distanciamento mental nos oferecerá, sem dúvida, um grande número de benefícios até mesmo inesperados.

A arte de ver o mundo em segunda pessoa

Se há algo que costumamos discutir dentro do campo da psicologia, é a necessidade de aprender a estar presente. Também é importante nos sintonizarmos com nossos pensamentos e necessidades.

Agora, em algumas ocasiões, é necessário se afastar para ganhar perspectiva. E um modo de fazer isso é olhando para nós mesmos e para o mundo em segunda pessoa.

Qual é o sentido disso? É um mecanismo perfeito para reduzir o ruído das emoções. É poder falar consigo mesmo com amabilidade, mas de um modo direto. Por sua vez, também permite analisar nosso mundo interno com objetividade, calma e consciência plena.

Para conseguir isso, nada melhor do que procurar um lugar tranquilo e ter um diálogo interno que pode seguir essas pautas:

  • O que te preocupa?
  • O que mais te convém agora?
  • O que você pode fazer para solucionar essa questão?
  • Lembre-se de que você merece ser feliz, e precisa ser corajoso. Vai dar tudo certo.

O autodistanciamento é um modo de desativar, por um instante, a fala egocêntrica e avaliar a nossa realidade em um estado emocional mais sossegado e distanciado do eu central.

Mulher segurando nuvem

A distância psicológica como ferramenta de bem-estar

Quem escolhe afastar-se para ter perspectiva não precisa andar tantos quilômetros assim. Às vezes, mesmo se formos até a outra ponta do continente, não conseguiremos fugir das nossas preocupações e dos nossos problemas. Isso é bem claro.

Agora, o que poderá ser de grande ajuda é exercitar a distância psicológica.

Esse termo, o da distancia psicológica, conta com vários estudos que avaliam seu benefícios no que diz respeito à saúde mental. O doutor Yaacov Thope, professor de psicologia da Universidade de Nova York, conduziu um interessante trabalho no qual explica o seguinte:

  • Em algumas ocasiões, é necessário transcender o nosso eu para além do aqui e agora. Trata-se de levar nossa mente para um estado de calma que nos permita relativizar instantes de estresse e pressão elevada. Também é importante para que determinadas circunstâncias, comportamentos ou estímulos não nos afetem demasiadamente.
  • Essa distancia psicológica nos permite, por sua vez, ter um diálogo mais saudável com nós mesmos. É poder nos dizer frases como “não deixe que isso o afete”, “pense que é melhor para você”, “decida algo que favoreça o seu bem-estar”…

Para concluir, em algumas ocasiões afastar-se para ter perspectiva é uma maneira de influenciar diretamente o nosso equilíbrio psicológico. Podemos fazer isso mentalmente e, de fato, se treinarmos e ganharmos prática, conseguiremos manejar muito melhor as situações estressantes do dia a dia.

Não obstante, e como bem sabemos, de vez em quando a distância física, como a que pode ser alcançada com uma viagem, também pode ser muito terapêutica e enriquecedora.

  • Trope, Yaacov, Liberman, Nira (2010) Construal-level theory of psychological distance. Psychological Review, Vol 117(2), Apr 2010, 440-463 https://psycnet.apa.org/doiLanding?doi=10.1037%2Fa0018963
  • White, R. E., Kuehn, M. M., Duckworth, A. L., Kross, E., & Ayduk, Ö. (2018). Focusing on the future from afar: Self-distancing from future stressors facilitates adaptive coping. Emotion. Advance online publication.