O ser humano e a mortalidade: a consciência da finitude

· maio 20, 2019
A morte é fonte de medo, inspiração, luto, amor e alimento para a ideia de finitude. Um conceito que molda nossa natureza de uma forma muito especial.

A filosofia, entre outros interesses, tem como objeto de estudo e condicionante a natureza finita do ser humano. O ser humano é o único animal que sabe que existe um fim chamado morte, refletindo sobre o fato para além do acontecimento. Assim, parece que é exatamente essa consciência da finitude que incentiva nossa reflexão mais transcendental, derivando na reflexão sobre as ações e decisões que tomamos nessa vida.

Borges, em seu conto O Imortal, narra a história de um homem eterno. Em um certo momento, esse homem se encontra com Homero que, por sua vez, também é imortal. Após esse encontro, ele se lembra: “Me despedi de Homero nas portas de Tanger. Acho que não dissemos “adeus”. Duas pessoas imortais não sentem essa necessidade de dizer “adeus”, pois não existirá um “fim” que seja um obstáculo para essa possibilidade”.

O ser humano, ao ser consciente de sua finitude, é um ser precioso porque cada instante que vive vale infinitamente. De alguma maneira, sua finitude outorga valor ao momento.

Há luz no fim do túnel?

Seres humanos lançados no mundo

Como já comentamos, cada instante da nossa vida é único: nosso caminho adiante é um caminho em direção à morte. O ser humano nasceu como se tivesse sido lançado em um mundo cuja situação histórica, social e familiar já é dada. Isso significa que estamos predeterminados?

Para Martin Heidegger, o filósofo existencialista mais importante do século XX, a consciência de finitude do homem faz com que o mais desejável seja que cada um de nós tenha um pensamento próprio e autêntico. O pensamento carente de autenticidade é irreflexivo e não nos leva a uma vida plena.

O ser humano e o pensamento inautêntico

Para entender o que significa o pensamento inautêntico, podemos pensar em uma situação comum. Vamos imaginar que entramos em um táxi, o rádio está ligado e o taxista começa a falar das notícias que estão sendo transmitidas. Ele nos explica sua opinião a respeito, opinião que certamente poderíamos inferir/antecipar pela estação de rádio que ele está escutando.

Para Heidegger, repetir as ideias e as opiniões dos outros sem uma reflexão prévia significa “estar sendo falado”. O taxista (pode ser só um exemplo, sem querer ofender ninguém) não reflete sobre o que diz, mas repete uma série de argumentos que não são seus.

Portanto, a vida inautêntica, para Heidegger, é aquela que é vivida de fora, que é irreflexiva e não está consciente de sua mortalidade. Quando o ser humano está consciente de sua mortalidade, o mais provável é que deseje viver com um pensamento próprio e tomando suas próprias decisões.

A vida inautêntica é aquela que não está consciente de sua mortalidade.

Mulher sorrindo de forma sincera

O pensamento autêntico diante da finitude

O homem seria um ser lançado no mundo. Teria origem do nada e caminharia em direção ao nada, fato ou ideia que lhe revelaria sua condição de finito. No entanto, ao mesmo tempo também é um ser projeto em direção ao futuro por essa mesma condição.

Nossa condição de seres humanos – seres profundamente presentes caminhando em direção ao futuro – nos obriga a pensar na possibilidade mais do que na realidade. Somos nossas possibilidades, sem esquecer que a possibilidade de todas as possibilidades é a morte (independentemente do que escolhermos, sempre podemos morrer, ou seja, a mortalidade está sempre presente).

O ser humano que opta por uma vida autêntica o faria graças à angústia produzida pela experiência do nada, que é a experiência da morte. Ele toma suas decisões sabendo que sua vida é única e que qualquer momento, além de ser efêmero, pode ser o último. Sabe que ninguém pode morrer por ele e, acima de tudo, está consciente de que a morte não é apenas um momento pelo qual os outros passam.

 “O homem é esse ser que se angustia e é mais profundamente homem quanto mais profundamente se angustia”.
-Sören Kierkegaard-

  • Saña, Heleno (2007). «la filosofía de la desesperanza». Historia de la filosofía española (1ª edición). Almuzara. pp. 202-3.
  • Homolka, Walter y Heidegger, Arnulft (editores) (2016). Heidegger und der Antisemitismus. Positionen im Widerstreit. Herder. 448p.