Quem tem amigas tem ataques de riso

· novembro 4, 2016

Quem tem amigas tem ataques de riso inesperados e explosivos, desses que chamam a atenção, que coram as bochechas e nos arrancam lágrimas enquanto cauterizam de imediato as incômodas tristezas cotidianas do coração.

A amizade costuma ter muitíssimos efeitos colaterais, mas um deles, o mais expressivo, é sem dúvida o prazer de rir em companhia. De fato, é curioso saber que na escala do desabafo emocional, assim como o pranto sempre é melhor que o choro silencioso, a gargalhada também é mais benéfica do que um simples risada.

Gosto dessas amigas com as quais compartilhar loucuras, tardes de café e ataques de riso. Gosto delas porque chegaram por acaso, quase sem saber como, para se tornarem minha autêntica família.

Na verdade, não existe dor mais prazerosa do que aquela que se instala no estômago provocada por ataques de gargalhadas compartilhados. Porque essa sensação é o reflexo da coesão social e do bem-estar, e porque a amizade é também uma forma de reciclar lágrimas e decepções para permitir que o riso se levante como o autêntico arquiteto da sabedoria.

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Os ataques de riso entre amigas que suavizam a adversidade

O humor mais admirável é o que surge da adversidade e que, por sua vez, temos o prazer de compartilhar com pessoas que são significativas para nós. No caso das mulheres, a amizade é sem dúvida o melhor apoio cotidiano através do qual favorecer o desabafo e a expressão emocional.

De fato, segundo uma pesquisa publicada na revista “Psychology Today”, sabe-se que a amizade entre os homens é mais instrumental e menos emocional, e embora o vínculo possa ser igualmente forte e significativo, não alcança a profundidade tão cúmplice, tão íntima e intuitiva a ponto de promover um autêntico apoio moral.

Em momentos difíceis, é comum que entre o grupo de amigas acabe aparecendo um comentário repentino como uma faísca na penumbra, que além disso faça o pensamento voar para tirar a tensão. Dali a pouco, alguém dá um passo além, um salto à ironia, ao absurdo, para provocar que imediatamente apareçam eles, os verdadeiros restauradores da alma, as autênticas pílulas para as penas cotidianas: os ataques de riso.

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O riso, cola para o cérebro

O riso pode parecer uma coisa trivial, às vezes efêmera, logo caótica, explosiva ou sem muito sentido, contudo, age como uma verdadeira “cola” para cérebro. Sempre esconde algum significado e poucas vezes uma emoção tem um impacto e uma transcendência social tão elevada quanto o riso.

Greg Bryant, professor da Universidade da Califórnia (UCLA) desenvolveu uma pesquisa curiosa onde pôde demonstrar que basta ouvir por alguns segundos o tipo de riso que duas pessoas compartilham para deduzir se são um casal, amigos e qual é a qualidade dessa amizade. Este trabalho realizado em diversos países e culturas demonstrou por sua vez uma coisa que os antropólogos já sabiam.

O riso faz parte do nosso desenvolvimento evolutivo e é, além disso, um mecanismo instintivo que favorece a cooperação entre o ser humano. O cérebro nos lembra que as alianças sociais são boas, que são necessárias para sobreviver, e por isso o riso age como um ímã emocional prodigioso. Se formos capazes além disso de atender sua intensidade, sua musicalidade ou cadência, deduziremos em que fase está essa relação.

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As gargalhadas e os ataques de riso temperados pela cumplicidade mais íntima de dois olhares que se leem e se sentem a partir do coração temperam a autêntica poção para construir as amizades mais duradouras. São os laços que nos levantam do chão, o açúcar para digerir as amarguras do dia e a fórmula magistral para nos convencer de que o mundo sempre continuará valendo a pena enquanto existirem pessoas excepcionais.

Os ataques de riso, portanto, nos ajudam a sobreviver e nos unem entre nós, e isso é uma coisa que agrada ao cérebro. Por isso, mais uma vez, nos recompensa com endorfinas para nos ajudar a aplacar o estresse e aliviar o labirinto de nossas tensões e o abismo de nossos medos.

Mas, assim como apontamos no inicio, os simples sorrisos não curam, como também não curam as lágrimas que são contidas ou disfarçadas. O que cura é o pranto e o que alegra o coração é a gargalhada mais sonora.

Somente a título de curiosidade, e para finalizar, compartilhamos um pequeno texto que Richard Wiseman, psicólogo e pesquisador britânico do “Projeto Laughlab” (o laboratório do riso), costumava usar nas suas provas para analisar o senso de humor dos seus participantes. Enquanto lhes dava essas palavras, lembrava os seus participantes de uma coisa fundamental que nunca deveríamos esquecer: O melhor momento para rir sempre é agora.

“Sherlock Holmes e o doutor Watson vão acampar. Montam a sua barraca sob as estrelas e vão se deitar. No meio da noite, Holmes acorda seu amigo Watson e diz:

Watson, olhe as estrelas e me diga o que você está enxergando.

Vejo milhares e milhares de estrelas – responde Watson.

Excelente. E o que você deduz disso? – pergunta Holmes.

Se existem milhares de estrelas e apenas poucas têm planetas, é muito provável que exista um planeta como a Terra por aí afora. E se existem alguns planetas como a Terra, também é possível que exista vida.

– Watson, não seja idiota – replica Holmes -. Quer dizer que nos roubaram a barraca”.