Amor platônico: o desejo permanente pelo que nos falta

· junho 22, 2017

Platão dizia que só amamos o que desejamos e só desejamos aquilo que nos falta. Parece que já na época desse filósofo conhecido existia um sentimento tão devastador que perdura até hoje e está enraizado fortemente em cada um de nós: a constante insatisfação com a vida.

É como se sempre nos faltasse alguma coisa. Aos olhos dos outros, a nossa vida pode parecer invejável ou que não temos do que reclamar. Mas existe dentro de nós um vazio que não sabemos como preencher.

Encontramos esse sentimento com mais frequência nos relacionamentos de casal. Existem muitas pessoas que precisam de um amor idealizado, perfeito … Esta visão nostálgica e romântica das relações, esse amor do “estar sempre apaixonado”, não por uma pessoa concreta, é o que os torna sempre insatisfeitos. Dessa forma, a sua ideia de amor não se baseia na realidade, mas na fantasia do que poderia ser ou poderia ter sido. Trata-se de um amor platônico.

Poucas vezes esse desejado amor platônico se torna realidade. É nesse momento que a pessoa entra em um estado de exaltação onde se sente embriagada e acredita ter preenchido esse vazio que a fazia sofrer tanto.

O problema é que depois de um tempo, elas começam a perder o interesse e retornam para a mesma dinâmica com a qual estão acostumadas: desejar algo inatingível e se afundar no seu sofrimento com um novo amor platônico.

Desejo e prazer

Há muitas pessoas que só encontram prazer ou satisfação no desejo. Parece que desejar, sonhar, ter ilusões e idealizar é o motor que faz a sua vida seguir em frente. No entanto, quando elas alcançam tudo o que sonharam, ficam entediadas. Assim que conseguem tudo o que supostamente as completa, já não há mais espaço para o desejo e a projeção.

Dois corações juntos

Mas, o que realmente acontece?  A pessoa platônica escapa, sai em busca novamente dessa dose de carência, desse desejo que é o que realmente a faz sentir viva. Mesmo que sofra, é um sofrimento com uma nuance doce e viciante. Acredita que deve haver algo melhor, algo que mantenha a sua ilusão dia após dia como se fosse o primeiro e, se não for assim, é por que não encontrou o que procurava: a sua missão é continuar buscando.

Muitas vezes pensamos que a felicidade está em outro lugar e que, se pudéssemos acessar esse local onde supostamente ela está nos esperando, toda a nossa insatisfação acabaria. Mas finalmente descobrimos que não é assim; que realmente não temos tudo para nos sentirmos completos e se soubéssemos modificar certos aspectos da vida cotidiana que raramente custam dinheiro, não teríamos que procurar a felicidade em outro lugar.

O problema é que, na maioria das vezes, fazer essas mudanças nos aterroriza, nos deixa ansiosos, inseguros, e ficamos ancorados no que poderia ter sido.

Aprender a amar o que não nos falta

O desejo pelo o que ainda não conseguimos é sempre legítimo e, em muitos casos, não deixa de ser uma motivação positiva. Mas quando esse desejo se transforma em uma necessidade e, portanto, em um doloroso sofrimento, nos bloqueamos e nos sentimos vazios, permanentemente insatisfeitos e ansiosos.

Esta maneira viver, paradoxalmente, não nos permite viver. Nós não somos livres, mas escravos de uma ideia que nos diz como a nossa vida deveria ser.

É preciso acabar  com o amor platônico e aprender a amar o que não nos falta, o que temos nas nossas vidas: seja o companheiro, o trabalho, os amigos, a nossa cidade. Tudo isso contém muitos aspectos positivos que muitas outras pessoas gostariam de ter. É uma visão particular de si mesmo, de limpar os vidros embaçados da rotina e da decepção, e de mudar voluntariamente os aspectos que não se encaixam na nossa vida. Viva com entusiasmo e motivação.

Menina dormindo em coração

Se formos capazes de apreciar e ser gratos a cada dia pelo que temos na nossa vida, o sentimento de “sentir falta” deixará de nos ancorar em uma ilusão permanente. Viveremos o presente, nos alegraremos com o que nos acontece, aceitaremos as adversidades e sempre extrairemos uma lição ou uma parte positiva de qualquer situação.

É preciso abandonar as viagens mentais para o futuro, bem como as queixas repetidas e constantes que afastam até mesmo as pessoas mais tranquilas. Fique onde está, arrisque e mude o que você não gosta na sua vida, mas não deseje a perfeição e nem o impossível que nunca chegará. O que você tem já é o perfeito, é o que deve ser. Por que você não começa a aproveitar tudo isso?