Aos que nos deixaram sem a chance de dizer adeus

· junho 7, 2016

Os que já não estão aqui dormem nas profundezas de nosso coração. Mas muitas dessas ausências seguem sendo abismos de dor em nossa memória: porque nos deixaram sem que pudéssemos dar o adeus, se foram sem um “te amo”, ou sem que tenha havido tempo para pedir desculpas. Essa angústia vital dificulta, em muitos casos, o adequado processo de luto.

A morte deveria ser como uma despedida em uma plataforma de trem. Lá onde as pessoas têm um breve intervalo de tempo em que podem ter uma última palavra, onde podem dar abraços apertados e deixar ir de modo calmo, ainda que com peso no coração, tendo plena confiança de que tudo vai ficar bem. Nada disso é possível, no entanto.

Os que nos deixaram estão ausentes, os mantemos em cada batida de nosso coração, repousam em nossa mente e nos dão força cada dia enquanto os honramos com nossos sorrisos…

Anne Morrow Lindberg, célebre escritora e aviadora do princípio do século XX, explica em sua biografia que a dor, ao contrário do que muitos pensam, não é universal. O sofrimento é algo muito pessoal, profundo e único que só a própria pessoa pode entender para assim iniciar, pouco a pouco, um lento processo de reconstrução interior.
Porque a morte não sabe de despedidas, e isso é algo que descobrimos e assumimos cedo ou tarde.

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Os que nos deixaram sem pedir permissão nem dizer adeus

Frequentemente costumam dizer que o único aspecto positivo das doenças terminais é que, de alguma maneira, permitem à pessoa ir assumindo ou inclusive preparando um processo de despedida. Não obstante, por mais preparada que esteja a família para esse momento, ou para esse desprendimento, há ocasiões em que longe de se sentirem aliviadas, vivem tudo como algo traumático.

Agora, os que nos deixaram sem pedir permissão nem dizer adeus são sem dúvidas as ausências que mais dificuldade nos provocam na hora de iniciar nosso processo de superação ao longo das 5 etapas que Kübler-Ross teorizou. O habitual é ficar preso em sentimentos de incredulidade e negação, até chegar, no pior de todos os cenários, em um estado de desorganização vital marcado por uma raiva crônica ou uma depressão.

A morte inesperada de um ser querido supõe algo mais que um impacto emocional intenso. A perda deixa muitas coisas em aberto, assuntos pendentes, palavras não ditas, arrependimentos sem desculpas, e a desesperada necessidade de ter podido dar um adeus. As respostas a tudo isso estarão em nosso interior, e é aí que temos que nos refugiar durante um tempo determinado para encontrar, de algum modo, a calma, o alívio e a aceitação.

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Como enfrentar a morte de um ente querido quando não houve a oportunidade de dizer adeus

Já dizia Jim Morrison que as pessoas costumam ter mais medo da dor do que da morte, quando na realidade é a própria morte que finalmente alivia a dor. Não obstante, o famoso cantor da banda “The Doors” se esqueceu de algo essencial, posto que após o falecimento se inicia outro tipo de sofrimento: o dos familiares, dos amigos, dos cônjuges…

A morte nunca é de toda real, nunca é de toda autêntica… Porque a única forma de perder para sempre uma pessoa é mediante o esquecimento, mediante o vazio da não recordação.

Algo que devemos ter muito claro desde o início é que cada pessoa vai viver sua dor de um modo pessoal e particular. Não há um tempo nem uma estratégia certa que sirva para todos igualmente. Além disso, essa dor que tanto paralisa no início, que faz faltar o ar e que nos derruba até mesmo a alma nos primeiros dias, semanas, ou meses, acaba se suavizando. Porque ainda que pareça ser quase impossível… sobrevivemos.

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Aprender a dizer adeus a aqueles de quem não nos despedimos

Os que nos deixaram com tantos vazios, perguntas não respondidas, palavras não ditas e sem esse adeus tanto desejado não vão voltar. É algo que devemos assumir, aceitar e enfrentar. Agora, algo que pode nos dar algum alívio é lembrar que essa pessoa gostava muito de nós, e que o amor era recíproco.

  • Evite concentrar seus pensamentos no dia da perda, volte um pouco mais em sua máquina do tempo mental para os instantes de carinho compartilhado, esses momentos de felicidade e paz. É aí que se encontram as respostas para suas perguntas: essa pessoa sabia que era querida.
  • Sinta-se querido, reconfortado. Escreva uma carta com tudo o que desejaria ter dito para a pessoa, se assim você preferir. Você pode também falar mentalmente ou em voz alta, facilitando assim o desapego. Depois, visualize um momento de harmonia compartilhado com essa pessoa, um momento de paz e felicidade em que o veja sorrindo e feliz.
  • Se preferir, pode repetir esse exercício vários dias, quantos precisar. Não obstante, também é adequado ficar um tempo com outros familiares e amigos, os quais sem dúvidas também o ajudarão sempre que precisar. Eles o convencerão de que apesar de não ter havido essa desejada despedida, a outra pessoa sabia muito bem o quanto você a amava.

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A ferida da perda, dessa ausência tão dolorosa e inesperada, irá cicatrizar com o tempo. Apesar de criar vazios que por vezes nunca chegam a serem preenchidos, acreditemos ou não, nosso cérebro está programado para superar todas as adversidades, devido a esse instinto quase inato de seguir sempre em frente. De sobreviver.

Para isso, basta que cuidemos de nós e atentemos para nossas necessidades como quem recompõe uma delicada peça de porcelana fragmentada. Uniremos de novo todos os pedaços com as boas memórias que honram o ser querido e com essa matéria de que são feitos os amores que nunca são esquecidos, o carinho mais sincero e inesquecível e esse legado emocional que nos servirá como base para sermos muito mais fortes e valentes no dia de amanhã.