A arte de não perder a calma durante uma discussão

· fevereiro 25, 2019
Manter a calma, o controle das emoções e do discurso pode nos colocar em uma posição muito vantajosa em uma discussão. Neste artigo compartilhamos algumas estratégias para conseguir fazer isso.

Dizer o que pensam ou sentem é uma habilidade que algumas pessoas, por impulsividade ou desconhecimento, não têm suficientemente treinada. De fato, todos já perdemos a linha alguma vez no meio de uma discussão, enterrando com ela a mensagem que queríamos transmitir. Sabemos que não é fácil não perder a calma.

Na verdade, manter o controle em certas situações é uma arte. Não se trata de uma tarefa simples, mas também não é impossível, já que os psicólogos especialistas em comunicação e gestão de conflitos – do ramo da psicologia social – dedicaram anos de estudo e pesquisa para identificar quais recursos poderiam nos ajudar nesta tarefa.

Discutir sem perder a calma: o que os estudos científicos dizem?

Nelda Sheldon e Shoron Burton (2014) explicam que a interpretação da situação é o fator que mais influencia na hora de manter o controle. Ou seja, além da situação, o que nos altera e nos faz perder a calma é nossa construção do que está acontecendo. Por exemplo, quando entendemos que, em uma discussão, houve um ataque pessoal, a tarefa de manter a calma se torna mais complicada.

Por isso, diferentes pesquisas científicas se concentraram em conhecer o papel da autoestima na maneira como as pessoas discutem. Assim, foi observado que quem tem uma autoestima baixa e um autoconceito pior tende a perder os nervos com mais facilidade (Karagözoğlu, Kahve, Koç & Adamişoğlu, 2008).

Relacionando este ponto com o que mencionamos antes, neste contexto interno será mais fácil que as discussões sejam vistas como um ataque pessoal ao seu ego, que já se encontra fraco. Assim, em diversas ocasiões podemos encontrar uma resposta desproporcional diante de um pequeno comentário ou crítica.

Casal tendo discussão

Outros estudos concluíram que é mais fácil manter a calma em uma discussão se melhorarmos alguns dos fatores que enumeramos e que nos predispõem a isso. Pensemos que a personalidade, os hábitos de enfrentamento e a aprendizagem marcam a forma como enfrentamos as discussões (López-Torrecillas, Martín, de la Fuente, & Godoy, 2014).

Desta maneira, tendo em conta o que os estudos sobre o tema explicam, compartilharemos uma série de estratégias práticas para não perder a calma em uma discussão.

“A interpretação da situação é o que dá o ponto de partida para perder os nervos”.

O passado, passado está

O Dr. Mark Beyebach (2010), psicólogo especialista em terapia breve e terapia centrada em soluções, explica que trazer ao presente as situações do passado aumenta a probabilidade de que as pessoas tomem a discussão como um ataque pessoal. A raiva e a impotência surgem porque o passado não pode ser alterado.

Assim, estes sentimentos negativos cegam e fazem com que possamos chegar a esquecer o motivo da discussão. Por sua vez, dão lugar a uma sensação de perda de tempo que, por frustração, aumenta nossa raiva.

A auto-observação e o autoconhecimento: seus melhores aliados

Saber quais são seus pontos fracos e seus pontos fortes também vai ajudá-lo a não perder a calma nas discussões. Se você prestar atenção à evolução da troca de palavras e não apenas à sua postura, será mais fácil saber em que momento é melhor fazer uma concessão, centrar a atenção nos argumentos da outra parte ou se retirar.

Por outro lado, não é a mesma coisa discutir com pessoas cara a cara ou na intimidade, e também não é igual discutir no final do dia, quando já estamos cansados, e durante o final de semana ou em um momento em que estamos tranquilos. Escolher um ou outro momento para começar uma discussão também é inteligência social.

“Se você se conhece o suficiente, será mais fácil saber em que momento discutir, com quais pessoas e sob quais condições”.

A antecipação nos ajuda a manter o controle

Se você vai enfrentar um debate, uma discussão aberta, prepare-se. Organize sua exposição e identifique os argumentos que podem sustentá-la melhor, assim como a ordem na qual eles vão ser apresentados. Trata-se de ter um roteiro que possa ser resgatado em um dado momento.

Por outro lado, se se trata de uma discussão que você pode prever, é melhor ter o discurso preparado, seus argumentos de defesa e as ideias claras. Informe-se sobre suas possibilidades, a força dos seus argumentos e, se possível, antecipe as réplicas da outra parte.

Discussão saudável

Três estratégias práticas para não perder a calma em uma discussão

  • Evite subir o tom de voz e falar de maneira acelerada. Pense que suas constantes fisiológicas tendem a seguir a velocidade da sua locução.
  • Mantenha uma linguagem corporal pacífica e não agressiva. Vigie a maneira como se move e os gestos que realiza. Se você se mostrar agressivo (ainda que não seja sua intenção), vai gerar uma resposta defensiva na outra pessoa.
  • Se você começar a sentir que os nervos estão aflorando, pode tentar levar o debate para questões secundárias enquanto recupera a autoconfiança. Trata-se de colocar em prática a técnica do tempo fora e evitar cometer erros que o invalidem diretamente como interlocutor.

Finalmente, lembre-se de que os efeitos das estratégias que enumeramos chegam com o tempo e o treinamento. Você pode começar por um exercício de auto-observação e autocrítica que lhe permita saber o que pode fazer melhor quando tiver uma próxima discussão.

  • Francisca López Torrecillas, F., Martín, I., de la Fuente, I., & y Godoy, J. F. (2000). Estilo atribucional, autocontrol y asertividad como predictores de la severidad del consumo de drogas. Psicothema, 12(2), 331-334.
  • Shelton, N. & Burton, S. (2014). Haga oír su voz sin gritar. Madrid: Fc Editoria.