As explicações são os nossos ansiolíticos naturais

Não gostamos de viver com incertezas. Portanto, buscar explicações faz parte do nosso dia a dia. Agora, todas elas são válidas ou algumas são mais eficazes do que outras?
As explicações são os nossos ansiolíticos naturais

Última atualização: 08 Maio, 2021

Em um mundo regido pela lógica racional, o tipo de linguagem verbal utilizada, como forma básica de comunicação, cai na categoria de linguagem indicativa, ou seja, a linguagem verbal de descrições, interpretações e explicações. É a linguagem da causalidade linear, cujo processo de raciocínio consiste na busca da origem (causa-efeito).

Nos diálogos, é comum que as pessoas, diante de um determinado fenômeno, ativem um automatismo da busca pela origem, pelas primeiras causas e pelas explicações. Essa tendência de encontrar as razões de um fato é traduzida para a linguagem verbal por meio do porquê. Agora, por que fazemos isso?

A busca pelo porquê, as explicações, o conhecimento, e depois a calma

O ser humano se preocupa em responder às questões que surgem na vida na tentativa de ter certeza sobre as coisas. Ele não tolera a dúvida, ficar “sem resposta”, algo que o submerge no “não poder ter controle” sobre as situações, as pessoas, as coisas.

O princípio explicativo foi o início das ciências clássicas, que conceberam um universo puramente determinístico. Um universo em que a certeza, a verdade e uma realidade real convocavam uma ordem que mantinha um mundo bastante equilibrado.

Edgard Morin destaca que o princípio da explicação da ciência clássica via na contradição o sinal de um erro de pensamento. Esse princípio não foi aplicado apenas à pesquisa científica, mas veio a se instalar como um estilo cognitivo sociocultural, como uma forma de processamento do conhecimento. Ao contrário de tudo isso, a pós-modernidade reconhece e enfrenta contradições, e entende que pode haver múltiplos pontos de vista sobre a mesma coisa.

Mulher pensativa

A lógica do porquê causal-linear

Ora, a lógica do porquê causal-linear faz parte do discurso usual na interação dos seres humanos, em maior ou menor grau, dependendo da cultura.

Certamente o uso do porquê, tanto na pergunta quanto na resposta, é usado para explicar e entender desde coisas pequenas até as mais complexas situações. Por exemplo: se nosso estômago dói, pensamos imediatamente no que comemos, no que pode nos ter feito mal. E se um amigo teve uma atitude desconcertante, ficamos nos perguntando qual foi o motivo que o levou a tê-la. É automático pensarmos no porquê das coisas.

Muitas vezes nos surpreendemos nos fazendo perguntas com a secreta expectativa de que, se encontrarmos a causa, essa consciência nos libertará do problema.

Na terapia, os pacientes são ouvidos perguntando-se: “ mas…. por que isso está acontecendo comigo…?; Por que comigo?; O que estou fazendo?; Por que eu faço isso? Por que, por que e por que”, como se esta fosse a fórmula para conseguir – encontrando a causa – chegar na resolução do conflito.

O exercício do porquê é desenvolvido a partir da educação. Na infância, nossas dúvidas sobre o porquê das coisas fazem nossos pais nos responderem de forma básica, e de forma linear, causa e efeito. Repetidamente, enfrentando nosso “e… por quê?”, nossos pais respondem, com mais ou menos tolerância, e nos questionam com respostas lineares e seguras.

O termo ‘por quê’ é um dos mais usados ​​no dia a dia. É uma palavra poderosa e constitui uma ponte que permite acumular mais informações a partir das respostas. É um termo que abre o jogo para novos conhecimentos, que nos faz pensar, refletir, pesquisar em contextos, personagens, no nosso passado.

Essas explicações causais podem se referir a uma multiplicidade de motivos:

  • Pode ser devido ao contexto relacional (um porquê interacional). Exemplo: “Reagi assim porque o outro gritou comigo.”
  • Frequentemente, o caminho recursivo não é continuado: “o outro reagiu assim porque eu disse a ele para não me incomodar”. Portanto, apenas uma seção de um circuito relacional é lida.

Outras explicações mais frequentes resultam na busca das origens no passado, na infância ou na adolescência, fazendo uma psicanálise selvagem. Seguindo essa linha de pensamento, talvez a ênfase não esteja na circularidade ou linearidade, mas na necessidade de busca dos motivos das coisas, que se insere como estrutura ou padrão de funcionamento mental do ser humano.

As pessoas, diante da desordem e da entropia da experiência, tentam colocar uma cota de ordem para funcionar. Dessa forma, constituem-se as normas sociais, religiosas, culturais e familiares, que imprimem a correção e retificação dos erros diante da aprendizagem.

Por sua vez, a linguagem verbal, isomorficamente, mantém a comunicação por meio da sua própria codificação e, em certa medida, orienta a interação por meio de uma sintaxe de discurso e de articulações semânticas.

Rivotril explicativo: o antídoto para a ansiedade?

Diante de um fato que gera incerteza e consequente angústia, a tendência de querer encontrar a origem da sua determinação produz efeitos sedativos momentâneos ou duradouros. Portanto, o desejo de encontrar um porquê é algo como um Rivotril explicativo.

Esse aporte de novas informações, como uma construção linguística que gera a compreensão do acontecimento, leva a pessoa a sentir uma certa segurança que lhe dá estabilidade no sistema em que está imersa.

Em suma, o sistema em que se está envolvido permanece estável. Porém, diante da irrupção de um evento ou de um acontecimento crítico (que pode ser uma morte, uma mudança, uma demissão do emprego, etc.), o equilíbrio se rompe (crise) e imediatamente a pergunta “por que isso aconteceu comigo?” surge.

Assima explicação do fato possibilita, por meio da compreensão e da ação, o restabelecimento da segurança, como primeiro passo para a aquisição de um novo equilíbrio.

Alguns tipos de explicações e seus efeitos

Alguns tipos de explicações e seus efeitos

Existem explicações que servem para fugir rapidamente de um momento de tensão, mas não mudam a situação. São aquelas em que as informações fornecidas sobre o porquê são superficiais. Seu objetivo é manter o equilíbrio momentaneamente antes do aparecimento de um problema. Nesse sentido, são paliativas e não levam ao redimensionamento da perspectiva de construção do problema.

Por exemplo, racionalizações e intelectualizações são mecanismos de defesa que podem ser considerados explicações desse tipo, na medida em que a pessoa endossa com justificativas o que acontece com ela, como atitudes conflitantes ou algum traço sintomático. Essas são explicações ansiolíticas, elas resolvem a ansiedade momentaneamente e explicam o fenômeno pela categoria em que ele está localizado.

Vamos lembrar que costumamos colocar todas as coisas em nosso mundo em categorias. Diante do surgimento de um problema, tenta-se explicar a categoria em que se insere, por exemplo: “É um mau aluno porque é preguiçoso; Ele bebe muito porque é alcoólatra”.

No entanto, também são frequentes as explicações ansiolíticas nas quais a pessoa pergunta por que surgiu um determinado estado de espírito, como tristeza ou angústia, sem motivação aparente e indiferenciada, e imediatamente surge a necessidade de encontrar a sua origem.

Em geral, isso pode fazer com que um elemento externo ingênuo ou superficial seja colocado como resposta: “Me sinto triste porque está chovendo … o dia está cinzento” (atribuindo à chuva o significado da tristeza). Também é comum envolver uma pessoa emocionalmente próxima (amigo, familiar, etc.), cujas reações são utilizadas como causa de uma perturbação ou alteração: isso aconteceu comigo porque você me deixa nervoso.

As explicações, as ações e o crescimento

A explicação ansiolítica ou Rivotril explicativo é amplamente utilizada, mas é confundida com outros tipos de explicações que causam uma modificação nas ações e promovem o crescimento. Parece que quando categorizamos o que nos acontece, nos sentimos mais calmos, mesmo que isso não leve a uma mudança nas ações. Ou seja, dar um nome ao que nos acontece, evitando navegar no mar da incerteza que nasce do ‘não saber’, nos acalma.

Mas a certeza da explicação não garante uma mudança na interação. O problema continuará presente se nada for feito para mudar. Seria interessante considerar como o mecanismo continua a partir do conhecimento da causa, ou seja, como posso realizar uma nova ação e resolver o problema. Os rivotris explicativos são pseudomotivos que não adicionam conteúdo ou causam uma mudança no pensamento.

As verdadeiras explicações consistem em recategorizar, isto é, colocar o que me acontece em outra categoria para reformulá-lo. São as explicações de reestruturação que promovem a mudança, aquelas que sabiamente provocam uma modificação de categoria e, com ela, novas ações.

Enquanto isso, parece que as respostas ansiolíticas nos ajudam a sobreviver em um mundo que nos enche de incertezas…

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