As irmãs Papin: um caso que se tornou objeto de estudo

março 3, 2020
O caso das irmãs Papin foi estudado sob vários pontos de vista. É considerado um caso de psicose paranóica, com algumas características semelhantes ao caso Aymee. É também um exemplo dramático do retorno do que havia sido reprimido por pessoas sistematicamente segregadas.

O caso das irmãs Papin impactou profundamente a sociedade em sua época. Elas foram duas empregadas domésticas que assassinaram as pessoas para quem trabalhavam. No começo, o escândalo foi enorme, a cobertura da mídia foi total, com a imprensa pronunciando aqui e ali frases de indignação e adjetivos de horror e desprezo pelas duas mulheres.

Desde o início, muitos criminologistas, psicanalistas, psicólogos e psiquiatras voltaram sua atenção para o caso das irmãs Papin. O incidente chamou atenção pelos detalhes dramáticos que o caracterizaram. No final, elas foram julgadas e condenadas. A imprensa eventualmente se esqueceu delas, mas estudiosos de conduta criminal não.

O próprio Jacques Lacan e o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir fizeram muitas reflexões sobre esse caso de psicose, assim como vários criminologistas e juristas.

O escritor Jean Genet escreveu uma peça de teatro intitulada As Criadas para registrar o acontecido. É considerada uma das grandes obras dramáticos do século XX. Vejamos como ocorreu a história das irmãs Papin.

“Ficou tudo limpo”.
-Primeiro testemunho das irmãs Papin-

A história das irmãs Papin
Lacan

A história das irmãs Papin

Apesar dos detalhes escandalosos do caso, a história das irmãs Papin é, sobretudo, uma história de sofrimento. Elas eram em três: Emilia, Christine e Léa. Da mais velha, Emilia, pouco se sabe: apenas que ela foi abandonada em um orfanato.

Christine e Léa foram as protagonistas do crime. Seu pai, Gustave Papin, era alcoólatra e agressivo. Sua mãe, Clèmence Derèe, uma mulher que não tinha vocação para a maternidade.

Clèmence entregou Christine a uma cunhada para que ela a criasse. Sete anos depois, ela a tirou de lá e a internou no mesmo orfanato onde estava a irmã mais velha, Emilia. Mais tarde, teve Lèa, com quem repetiu o mesmo padrão.

Quando Christine completou 15 anos, sua mãe a tirou da instituição e a colocou para trabalhar como servente em casas da elite. Fez o mesmo com Lèa quando ela completou 13 anos.

Os Lancelin, uma família rica composta por pai, mãe e filha única, contrataram as duas irmãs, Christine e Lèa. As duas meninas se comportaram de maneira exemplar durante os anos seguintes. Eram submissas, atenciosas e trabalhadoras. Tanto que os vizinhos as apelidaram de “As pérolas dos Lancelin”.

O crime

As irmãs Papin não saíam para se divertir e praticamente não tinham vida social. Christine protegia Lèa e esta sempre a seguia. A certa altura, ambas começam a chamar a sra. Lancelin de “mãe”.

Como Léa ainda era menor de idade, as duas foram à cidade pedir sua emancipação total da mãe biológica, Clèmence. No entanto, para sua surpresa, quando chegaram lá não conseguiam se lembrar do nome da mãe.

Em 2 de fevereiro de 1933, as irmãs Papin assassinaram a Sra. Lancelin e a sua filha. Arrancaram seus olhos ainda vivas. Então, as espancaram com tudo o que encontraram: martelos, vasos, etc. Depois, se livraram dos cadáveres, limparam todos os instrumentos e se lavaram. Feito isso, subiram para o quarto, deitaram-se e se abraçaram. Foi assim que a polícia as encontrou.

Elas disseram que, devido a um defeito no ferro de passar, a energia elétrica havia caído na casa. Aparentemente, a Sra. Lancelin ficou furiosa, quis atacar Christine, e isso desencadeou o crime. Segundo Lacan, quando mataram a Sra. Lancelin, na verdade elas estavam matando sua mãe, que sempre as viu como objetos.

O caso das irmãs Papin impactou profundamente a sociedade.

O desenlace

Durante o julgamento que se seguiu, as irmãs Papin relataram maus-tratos e surras por parte do Sr. Lancelin. Christine foi condenada à morte, pena que mais tarde foi revisada e transformada em reclusão em um manicômio.

Lèa foi condenada a 10 anos de prisão. Clèmence, a mãe, foi visitá-las na prisão, mas elas não a reconheceram e a chamaram de “senhora”.

O momento da separação foi bem dramático. Ambas se agarraram à mãe e foi preciso usar a força para separá-las. Christine se recusou a comer e morreu de fome algum tempo depois. Lèa deixou a prisão em 1943 e depois foi morar com a mãe. Morreu aos 70 anos.

Muitos acreditam que a exclusão social, moral e psicológica à qual as irmãs Papin foram submetidas ressurgiu na forma daquele crime hediondo que, para Lacan, se tratava de um caso de psicose paranóica.

Mais tarde, descobriram que na França daquela época, onde os eventos ocorreram, as trabalhadoras domésticas representavam a categoria com a maior taxa de hospitalização em estabelecimentos psiquiátricos. Uma vez hospitalizadas, os números continuavam alarmantes: representavam 80% dos casos de suicídio.

Smith, M. C. (2010). Las hermanas Papin: la locura de lazos en permanente ruptura. In II Congreso Internacional de Investigación y Práctica Profesional en Psicología XVII Jornadas de Investigación Sexto Encuentro de Investigadores en Psicología del MERCOSUR. Facultad de Psicología-Universidad de Buenos Aires.