As mentiras nas redes sociais 

· julho 25, 2018

As mentiras nas redes sociais nos invadem constantemente, e atingem diversos âmbitos de nossas vidas. De fato, há várias áreas da ciência que explicam o efeito das mentiras na comunicação cotidiana.

Sociólogos, antropólogos, psicólogos, físicos e matemáticos analisaram, a partir de suas perspectivas, qual é a função das mentiras na mídia e como elas nos afetam, além de estudar as partes do cérebro que estão envolvidas com a mentira. Vamos nos aprofundar nisso.

Os números e as mentiras nas redes sociais

Um estudo dirigido por Rafael A. Barrio, do Instituto de Física da INAM, revelou que as mentiras são comumente produzidas nas redes sociais, assim como em qualquer tipo de comunicação humana. 

Trata-se de uma pesquisa internacional realizada através da aplicação de um modelo dinâmico de opinião de uma extensa rede telefônica que abrange a União Europeia, com a finalidade de examinar o papel das mentiras nas redes sociais.

As mentiras nas redes sociais são algo quase cotidiano. A novidade é que, através de uma fórmula matemática, é possível determinar por que mentimos.

A análise das interações de casais se desenvolveu através do uso de um sistema organizado de ligações em 7 milhões de telefones. Assim, de acordo com o que indicam os autores: “Nesta pesquisa, focamos o impacto que a mentira tem na coerência e estrutura das redes sociais”. 

O estudo destaca que as mentiras são um elemento substancial para manter a virtualidade das relações entre pessoas. “Embora sejamos ensinados quando crianças que mentir é ruim e que devemos agir com honestidade, aprendemos a mentir, às vezes de forma sofisticada. Isso é algo que não deixamos de fazer em nenhum tipo de sociedade humana, e é algo que outros primatas também fazem, como os chimpanzés”, afirmou Barrio.

Tipos de mentiras que contamos nas redes

No artigo Effects of Deception in Social Networks, os autores ressaltam a existência de dois tipos de mentiras nas redes sociais:

  • As mentiras brancas ou pró-sociais;
  • As mentiras pretas ou antissociais.

Estudos realizados nos Estados Unidos revelam que, em uma conversa de meia hora, pode-se chegar a mentir até nove vezes.

Como são compreendidas atualmente na sociedade, as mentiras brancas têm uma conotação positiva e inocente, ao contrário das mentiras pretas, entendidas como um recurso com uma conotação prejudicial e ofensiva.

As primeiras costumam ser emitidas por um bom motivo e não afetam desfavoravelmente o indivíduo, diferentemente das segundas, que são produzidas com uma intenção perversa para beneficiar o emissor e prejudicar o receptor.

Entre as conclusões publicadas na revista Proceedings of the Royal Society B., os cientistas descobriram que:

  • As mentiras nas redes sociais chamadas de brancas ou pró-sociais – na qual o benefício de faltar com a verdade é para o receptor – equilibram, unem a sociedade, oferecem diversidade de opiniões ao coletivo virtual e ajudam a manter relações sociais amplas.
  • Em contraste, as mentiras negras ou antissociais – egoístas e úteis unicamente para o emissor – quebram os vínculos, pois causam desconfiança, são prejudiciais, interrompem a rede, quebrando as ligações existentes por fazerem as pessoas se sentirem enganadas.

“Uma mentira, por mais que se repita, não deixa de ser uma mentira”.
-Alfredo Vela-

O que nos leva a praticar a mentira nas redes sociais?

A grande invenção dos primatas é a sociabilidade e, junto dela, a capacidade de enganar. Nosso cérebro pode lidar com mais relacionamentos entre os pares com mentiras. Se uma pessoa fosse honesta o tempo todo, seus vínculos seriam menores. É como se fosse uma técnica que usamos para nos relacionar com mais pessoas ao mesmo tempo.

Conforme passa o tempo e as redes sociais vão sendo construídas em estruturas de comunidades em equilíbrio, as pessoas não passam a mentir menos… na verdade, elas começam a mentir mais. O número de mentiras antissociais é prejudicial ou tende a desaparecer, enquanto as mentiras pró-sociais aumentam em grande quantidade.

Este efeito concorda quantitativamente com estudos realizados em escolas, onde percebe-se que, conforme as crianças vão crescendo, vão se tornando mais mentirosas. Entre as crianças pequenas existem muitas mentiras antissociais que desaparecem conforme seu crescimento, mas por outro lado, as mentiras pró-sociais aumentam.

“Uma mentira ruim não cai nada mal quando defendemos com ela uma boa verdade.”
-Jacinto Benavente-

Mulher usando redes sociais

Minto, logo não me isolo

As pessoas totalmente honestas correm o risco de ficar isoladas, pois quem diz só a verdade pode ferir os outros. Estas pessoas se caracterizam por serem retraídas e não terem muitos amigos, já que costumam dizer o que pensam sem medo do que os demais possam pensar sobre seus comentários que, no geral, são incômodos ou inapropriados para muitos.

Portanto, ser honesto nem sempre é o melhor a ser feito de acordo com o ponto de vista social, porém, as pessoas honestas recebem o respeito e a confiança dos demais, o que também se torna uma virtude. 

Não podemos afirmar que os seres humanos são mentirosos, mas utilizamos a mentira em algum momento e quando é conveniente. A razão pela qual mentimos é porque estamos imersos em uma sociedade, com muitos grupos de pessoas com as quais interagimos constantemente e da qual queremos tirar o máximo de vantagem possível a nível social e emocional.

Há muitas coisas boas por trás desta nova comunicação humana, e há outras que não são tão boas assim. O pior das redes sociais pode ser que nos desconectamos de nós mesmos, que a nossa história seja contada por falsos instantes e não por experiências verdadeiras, que são as que dão o verdadeiro valor as nossas lembranças.