Aspásia de Mileto: a biografia da bela hetera

maio 3, 2019
Aspásia de Mileto foi professora de retórica e tradição, parece ter sido a única mulher da Grécia clássica que se destacou na esfera pública. Ser uma mulher livre e independente, ao contrário de uma esposa ateniense, também significa que ela foi atacada, ridicularizada e humilhada.

Aspásia de Mileto era uma mulher grega que viveu no século V a.C. O nome Aspásia significa “a bem-vinda”. Ela nasceu em Mileto, bem como alguns dos primeiros filósofos gregos, como Tales, Anaximandro e Anaxímenes. Com 20 anos, ela deixou a sua cidade natal e se mudou para Atenas.

Sabemos que era uma mulher bonita e inteligente. Dizem que foi seu pai quem a iniciou na prostituição, mas diferentemente das ‘pornai’ (prostitutas destinadas aos homens vulgares e sem riquezas), Aspásia de Mileto possuía uma grande formação intelectual. Por isso, passou a fazer parte das ‘heteras‘ (mulheres de muita cultura, muito respeitadas pela sua sabedoria).

Os dados sobre a vida de Aspásia são um tanto incertos, ainda que o seu nome apareça em trabalhos de autores como Platão e Aristófanes. Aspásia teve uma forte influência na vida política e cultural de Atenas, especialmente como consequência de sua relação com Péricles.

O nome de Aspásia não aparece apenas em textos da Antiguidade, mas também em obras dos tempos modernos, especialmente como inspiração para alguns autores românticos do século XIX. É difícil rastrear a sua biografia, porque a maioria das coisas que sabemos são baseadas na suposição. Mesmo assim, convidamos você a descobrir a importância desta mulher da Grécia Antiga.

A vida de Aspásia de Mileto

Quando Aspásia se mudou para Atenas, começou a dirigir um bordel visitado por homens dos círculos mais importantes da cidade. Entre os seus visitantes estavam Sócrates, Anaxágoras e o governador Péricles. Deste último, diz-se que ele se apaixonou por ela e a transformou em sua amante, abandonando a sua esposa legítima.

Este ato causou muitos comentários e ridicularizações por parte da sociedade da época. Consequentemente, Aspásia de Mileto foi vítima de muita humilhação. O poeta Hemipo a forçou a comparecer perante a justiça sob dupla acusação: impiedade e devassidão, mas Péricles a ajudou para que não fosse condenada, obtendo o perdão dos seus juízes.

Da união de Aspásia e Péricles nasceu Péricles II, de quem se diz que Aspásia, além de ser mãe, era professora. Quando enviuvou, ela se casou com Lisicles, e deste casamento nasceu Poristes.

Aspásia de Mileto e Sócrates

“Conserve zelosamente o seu direito de refletir, porque até mesmo pensar erroneamente é melhor do que não pensar de forma nenhuma”.
– Hipatia de Alexandria –

Ser mulher na Grécia antiga

Vários autores contemporâneos a citaram em seus textos. Alguns a julgaram pela sua profissão e outros a lembraram pela sua beleza, sua inteligência e sua habilidade nas artes da palavra. Aspásia de Mileto foi uma mulher muito importante na antiguidade, mas em que condições conseguiu esse reconhecimento?

A primeira coisa a responder é como era a vida para as mulheres gregas naquela época. A verdade é que havia muitos obstáculos para as mulheres, que encontravam inúmeras restrições e proibições. As mulheres não tinham direitos civis, as suas tarefas se limitavam ao cuidado do lar e à educação das crianças. Elas eram excluídas da vida pública e saíam de casa somente para assistir as grandes festas. É possível que, em Mileto, a situação fosse um pouco diferente e elas desfrutassem de mais liberdade do que em Atenas.

Ser mulher significava ser parte ou propriedade de alguém. Quanto mais coragem o homem possuía, mais mulheres tinha o direito de ter. Isto é, elas eram vistas como uma espécie de “recompensa” ou reconhecimento ao homem.

“O amor tem sido o ópio das mulheres, assim como a religião para as massas. Enquanto amávamos, os homens governavam”.
– Kate Millet –

Os rótulos de Aspásia de Mileto

Além de ser mulher, Aspásia teve que conviver com outro rótulo: ser estrangeira. Para os atenienses, os estrangeiros não podiam, assim como as mulheres, participar das decisões da cidade. A nossa protagonista reúne as duas condições em uma sociedade baseada na predominância do homem. No entanto, no caso de Aspásia, graças a sua condição de estrangeira, tinha uma formação educacional diferente das mulheres atenienses; ela cresceu com maior liberdade e cultura.

Aspásia de Mileto, apesar de ser mulher e estrangeira, não se restringiu às tarefas que lhe eram atribuídas, mas também desenvolveu algumas das tarefas associadas aos homens. A historiadora Eva Cantarella ressalta que, na Grécia da época, os homens podiam ter três tipos de mulheres: esposa (para descendência), concubina (relação sexual) e hetera (prazer).

Dessa forma, Aspásia de Mileto carregou mais um rótulo: a hetera. Apesar do que possamos pensar, esse rótulo não era negativo. As heteras eram as únicas mulheres realmente livres. Elas poderiam sair, participavam dos banquetes ao lado dos homens, até os recebiam em sua casa se tivessem a sorte de serem mantidas por um homem poderoso. Eram uma exceção das condições para as mulheres em Atenas e tinham uma diferença muito marcante em relação às esposas legítimas.

As heteras, em termos de formação, estavam bem acima das mulheres casadas, portanto, políticos e filósofos as consideravam como boas interlocutoras. Aspásia de Mileto era especial entre as cortesãs, porque tinha a confiança de muitos intelectuais e homens importantes.

Este trabalho lhe custou muitas críticas, mas graças a ele conheceu os homens mais importantes da época. Por exemplo, Sócrates utilizava os seus serviços e recomendava que os seus discípulos estudassem com ela.

“Quem sabe pensar, mas não sabe expressar o que pensa, está no mesmo nível daquele que não sabe pensar”.
– Péricles –

Uma grande oradora

As heteras eram treinadas em retórica ou oratória e Aspásia não era exceção. Dizem que Sócrates era fascinado pela sua inteligência. A sua figura foi capaz de chamar a atenção de Platão para a capacidade das mulheres, quando elas eram educadas fora dos estreitos limites que a instrução ateniense lhes havia providenciado.

Graças a essa capacidade, ganhou algum reconhecimento e conquistou o governador Péricles, que sentia por ela não apenas atração, mas também amor. Dizem que ele deixou a sua esposa legítima e fez de Aspásia a sua esposa ilegítima ou concubina pela sua condição de estrangeira.

Os escritores da época, como Aristófanes, diziam de forma crítica que era Aspásia quem escrevia os discursos de Péricles e influenciava a política do marido. Por exemplo, foi acusada de ter sido responsável pela Revolta de Samos (440 a. C.) contra Atenas e pela Guerra do Peloponeso (431-404 a. C.).

Após a morte de Péricles, ela tomou como amante o comerciante Lisicles, um homem vulgar que, graças a ela, conseguiu desempenhar por algum tempo um importante papel político em Atenas. Dessa forma, demonstrou a sua capacidade nas relações políticas e a sua influência para alcançar o poder com a palavra.

O que sabemos sobre os seus discursos?

Estudar o papel das mulheres na Grécia antiga significa enfrentar a ausência de evidências textuais do seu trabalho. Portanto, devemos rastrear a história de suas vidas, quase sempre imersas nos depoimentos relacionados a outros pensadores e, às vezes, de confiabilidade duvidosa.

“A linguagem, a palavra, é outra forma de poder, uma das muitas que nos foram proibidas”.
– Victoria Sau –

Aspásia conversando

Em uma amostra de seu discurso retórico, pergunta a Jenofonte e Filesia se prefeririam os esposos dos seus vizinhos se fossem melhores do que os seus parceiros. Quando ninguém contesta , ela responde: “se ambos querem ter o melhor marido e a melhor esposa, ambos desejam ser o melhor marido e a melhor esposa, respectivamente”.

Aqui é perceptível, claramente, o prazer de agradar com a palavra. Essa composição retórica não é um argumento que expressa a verdade lógica, mas é um discurso que agrada o ouvido e convida ao esforço na convivência do casal. Algo semelhante acontece com o discurso fúnebre de Péricles, que foi apresentado para as pessoas próximas dos mortos em batalha. Aspásia confunde os ouvintes unindo coisas virtuosas com coisas reais sem virtude nenhuma.

Uma figura feminista

Aspásia de Mileto foi uma das figuras mais emblemáticas da Grécia no século V a.C. As suas características não se enquadravam no papel tradicional da mulher que em Atenas era considerada uma “boa” e “honrada” esposa. O único papel da mulher era ser a sombra do marido e passar despercebida. A sua figura contrastava com a da maioria das mulheres atenienses da segunda metade do século V a.c.

Aspásia foi uma figura importante na esfera cultural da democracia em Atenas e desempenhou um papel fundamental no nascimento da emancipação das mulheres. Com as suas lições para as jovens atenienses, conduziu essas mulheres na vida pública da cidade. Fez tudo isso através dos seus discursos, nos quais reivindicava, de maneira discreta, a dignidade das mulheres.

Isto permite perceber, pela primeira vez, ‘o feminino’ na história da Grécia. Aspásia de Mileto foi a principal representante de uma outra maneira de interpretar a Atenas de Péricles, mostrando que havia espaço para as mulheres.

  • Calvo Martínez, J.L., (1995): La mujer en la época helenística” en Hijas de Afrodita: la sexualidad femenina en los pueblos mediterráneos. Madrid, Ediciones Clásicas.
  • Cantarella, E., (1991): La calamidad ambigua; Condición e imagen de la mujer en la antigüedad griega y romana. Madrid, Ediciones clásicas.
  • Gleichauf, I., (2010): Mujeres filosofas en la historia: Desde la antigüedad hasta el siglo XXI. Barcelona, La Desclosa.
  • González Suárez, A., (1992): Lo femenino de Platón. Madrid, Universidad Complutense, pp. 34-35.