O ataque de pânico e a terrível incompreensão social

O ataque de pânico e a incompreensão social

25, outubro 2016 em Psicologia 17 Compartilhados
O ataque de pânico e a incompreensão social

Ninguém escolhe por vontade própria experimentar um ataque de pânico. Ninguém inventa estes autênticos medos que atrapalham, asfixiam e que nos tiram o fôlego até acreditarmos que vamos morrer. No entanto, a incompreensão social tecida em volta destes transtornos intensifica ainda mais a sensação de angústia e, consequentemente, de solidão por parte de quem sofre deles.

Qualquer pessoa que conheça este tema se lembrará sem dúvida do seu primeiro “batismo” com os ataques de pânico. Sair do trabalho, subir no metrô e, de repente, escutar duas pessoas gritando no meio de uma conversa, você começa a sentir tontura, confusão e o coração dispara, descontrolado, como se estivéssemos caindo no vazio, em um abismo profundo.

Estima-se que quase 10% da população mundial tenha sofrido alguma vez um ataque de pânico. Mas o verdadeiro problema é quando essa experiência aterradora passa a ser recorrente e, o que é pior: imprevisível. O curioso é que, apesar de ser um dos problemas psicológicos mais comuns atualmente, é um dos mais desconhecidos.

Quem sofre um ataque de pânico não é fraco nem está psicótico, muito menos precisa da nossa compaixão. O que essa pessoa merece é compreensão e, em primeiro lugar, ver essas situações de angústia como algo que todos nós podemos experimentar alguma vez na vida.

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O ataque de pânico e o solitário mundo dos medos

Suores, tonturas, boca seca, palpitações, náuseas, falta de ar… O ataque de pânico vem de repente, como se alguém tivesse apertado o botão vermelho, que com muita má fé desencadeia o horror no seu sentido mais autêntico. Também não podemos esquecer que além dos sintomas físicos, são adicionadas essas atribuições onde a pessoa acredita que perdeu verdadeiramente o controle e que a sua vida corre perigo.

Mas do que realmente é que temos medo quando isso acontece? Às vezes é o medo de entrar em um avião, podem ser as grandes massas de pessoas, os espaços pequenos ou inclusive certas percepções distorcidas sobre o que acontece no corpo. Os medos, mesmo que injustificados, se convertem em autênticos devoradores da calma, do equilíbrio e do autocontrole.

É quase reconfortante saber que tudo isso tem uma origem muito clara no nosso cérebroOs cientistas a chamam de “rede do medo” e explicam que as pessoas que costumam sofrer do que o DSM-V define como “crises de angústia ou transtornos de pânico” têm partes dos seus cérebros com um tipo de atividade incomum.

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Segundo um estudo publicado na revista “Molecular Psychiatry“, no córtex cíngulo-frontal existe um tipo de rede que controla a nossa percepção do medo. É nesta área onde dimensões como a interocepção ou a autopercepção da condição fisiológica do nosso corpo são geridas.

O que isso significa? Basicamente que neste transtorno os nossos mecanismos do medo se “desregulam” até o ponto de gerar reações de autêntico pânico, mesmo quando não há um risco real. Isto é algo que deveríamos levar em conta para compreender muito melhor esta realidade, que está longe de atender a vontade de quem tem e sofre com este transtorno.

É possível superá-lo, mas não sozinho: procure apoio

Muitos pacientes com transtorno do pânico preferem, se for possível, sofrer em silêncio o seu problema. Mesmo o que está adormecido, mas latente, só precisa de um gatilho pontual para que a crise apareça de novo. E ela aparece, sem dúvida. Os demônios do medo surgem para se misturar com a perplexidade e a incompreensão de quem nos rodeia e, portanto, o problema é ainda mais intensificado.

Temos que dar um passo a frente, buscar apoio. Temos que perceber que os transtornos de pânico podem ser associados a doenças como o hipertireoidismo, hiperparatireoidismo, feocromocitoma, disfunção vestibular ou convulsão.

No entanto, nestes casos em que não existe uma doença subjacente, é possível combinar o tratamento farmacológico com a psicoterapiaEnquanto os fármacos restabelecem os nossos níveis de serotonina no cérebro, abordagens como a terapia cognitivo-comportamental (TCC), por exemplo, podem nos ajudar tanto nos ataques de pânico como nos transtornos de ansiedade generalizada.

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O essencial nestes casos é capacitar a pessoa na observação, no entendimento e no controle das suas sensações físicas, ao mesmo tempo em que oferecemos ferramentas para que sejam conscientes destes pensamentos presentes nos episódios de angústia intensa.

Mas sabemos que todo este processo não é nada fácil ou curto e, embora técnicas como a exposição interoceptiva ou o treinamento de relaxamento progressivo sejam sempre essenciais nestes transtornos, também é essencial o apoio da família e amigos.

Porque, acredite ou não, o ataque de pânico continua sendo atualmente um tema repleto de falsas crenças. Ninguém acaba ficando louco à medida que sofre mais crises de angústia. Também não se trata de um problema associado exclusivamente ao gênero feminino, nem é uma doença que se cure apenas com remédios.

É necessário mudar certos padrões e ser mais próximos e sensíveis a este tipo de dimensões. Porque no final das contas, as doenças mentais têm tratamento, mas muitos preconceitos sociais nos dias de hoje continuam a não ter cura.

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