Biografia de Adélaïde Labille-Guiard e a arte na corte francesa

Labille-Guiard foi uma artista francesa do século XVIII que conseguiu ser reconhecida apesar do mundo patriarcal em que vivia. Descubra aqui as características plásticas do seu trabalho, bem como sua relação com a coroa francesa.
Biografia de Adélaïde Labille-Guiard e a arte na corte francesa

Última atualização: 25 Abril, 2021

Conheça a biografia de Adélaïde Labille-Guiard des Vertus, uma talentosa miniaturista e pintora francesa. Apesar das dificuldades da época, Labille-Guiard conseguiu reconhecimento suficiente pela sua arte, o que costumava ser muito incomum para uma mulher.

No século XVIII, era limitado o número de mulheres admitidas na prestigiosa Academia Francesa de Pintura e Escultura. As poucas candidatas aceitas foram excluídas das aulas de desenho, uma matéria considerada essencial para a formação de seus colegas do sexo masculino.

Apesar de algumas limitações significativas, Adélaïde Labille-Guiard conseguiu traçar e decidir seu próprio caminho. Durante sua vida, ela se tornou não apenas uma retratista de sucesso, mas também uma mentora de outras artistas femininas.

Biografia de Adélaïde Labille-Guiard: da vida privada ao ofício de pintora

A biografia de Adelaide Labille-Guiard teve início com o seu nascimento em Paris, na França, em 1749. Ela era a caçula de oito filhos. Seus pais foram Claude Edme Labille e Marie Anne Labille. 

Em 1769, quando tinha apenas 20 anos, ela se casou com Louis Nicolas Guiard, um profissional de finanças. Entretanto, o casal se divorciou dez anos mais tarde, sem terem tido filhos.

A certidão de casamento da pintora esclarece muito sobre a sua vida. O documento, datado de 25 de agosto de 1769, reconhece que Labille-Guiard era uma pintora profissional na Academia Saint-Luc.

Durante a época em que Adelaide viveu, as pintoras profissionais costumavam fazer parte de famílias de artistas ou artesãos. Labille-Guiard, entretanto, era filha de um comerciante.

Biografia de Adélaïde Labille-Guiard

A loja de roupas de seu pai foi determinante no interesse que ela teve pelos tecidos e pelas texturas, porém, não a ajudou a se aproximar das instituições artísticas.

Ela precisou criar sua própria esfera de influência para conseguir entrar na área e progredir na carreira. Justamente por isso, o início da sua aprendizagem ocorreu no meio já tradicionalmente feminino das miniaturas e tons pastéis.

Com o passar dos anos, ela migrou dos tons pastéis para o uso de óleo, e das miniaturas para a pintura em grande escala.

Académie de Saint-Luc: primeiros estudos formais

Após anos de investigação, foi descoberto que Adelaide se matriculou na Académie de Saint-Luc em 1769. Além disso, de acordo com documentos da instituição, ela apresentou algumas das suas obras em tons pastéis para conseguir se matricular. A obra que garantiu a sua admissão desapareceu, e não existem descrições ou pistas de como era.

Ainda que Labille-Guiard tenha se tornado uma pintora de miniaturas, tons pastéis e óleo sobre tela, sabe-se pouco sobre a sua formação artística. Após ter se casado com Louis-Nicolas Guiard, em 1769, ela se tornou aprendiz do mestre dos tons pastéis, Quentin de la Tour. 

A Academia de Saint-Luc se destacou pela quantidade de mulheres que aceitava em suas aulas, sendo 130 delas em 1777. Graças a isso, Labille-Guiard conseguiu exercer a profissão artística

Ela estudou pintura de miniaturas com o mestre François-Elie Vincent, um amigo da sua família. A oportunidade surgiu graças à exibição de seus trabalhos em Saint-Luc. Durante esse período de aprendizagem, ela conheceria o seu segundo esposo, o filho de François-Elie, François-André Vincent.

Diferentemente de outros artistas homens de seu tempo, Labille-Guiard não se ateve apenas à pintura. Ela também se tornou uma professora experiente para jovens artistas.

Como professora dedicada e referência para seus alunos, Adelaide também era uma defensora deles. Sua pupila mais famosa foi Gabrielle Capet, uma das pintoras de miniatura mais famosas da sua época. 

A superação de obstáculos na biografia de Adélaïde Labille-Guiard

Em 1783, Adelaide foi aceita na Real Academia de Pintura e Escultura. Elizabeth Vigée Le Brun, outra artista mulher, foi aceita no mesmo ano.

Labille-Guiard recebeu o apoio de alguns membros da Família Real e de nobres que haviam feito parte do regime anterior. Em 1787, ela foi nomeada a pintora oficial das tias do rei Luís XVI, Adelaide e Victorie. 

O Salão da Academia de Saint-Luc se tornou tão bem-sucedido que a Real Academia sentiu-se ofendida e decidiu tomar medidas drásticas em relação ao assunto. Com o apoio da monarquia, a Real Academia emitiu um decreto, em março de 1776, que extinguiu os “grêmios, irmandades e comunidades artesanais”. Por conta deste decreto, a Academia de Saint-Luc fechou suas portas em 1777. Adelaide continuaria expondo seus trabalhos na Academia até o fim e, depois disso, passou a exibir no Salão da Correspondência.

O talento da pintora foi percebido rapidamente. Desde o início, o mestre François-André Vincent a ajudou a conhecer pintores da Real Academia. Entre alguns dos artistas que ela conheceu, estavam Joseph-Marie Vien, Bachelier, Amie Suvée e Voiriot. Com a ajuda dessas pessoas, ela obteve reconhecimento nacional e foi aceita como membro da Real Academia.

Pintura da corte francesa

Admissão na Real Academia de Pintura e Escultura

No dia 31 de maio de 1783, Labille-Guiard foi aceita como membro da Real Academia de Pintura e Escultura da França. Outras mulheres, incluindo Élisabeth-Louise Vigée-Lebrun, foram aceitas naquele mesmo dia.

As obras de Labille-Guiard e Vigée-Le Brun eram comparadas pelos críticos. No geral, Vigée-Le Brun recebia críticas mais favoráveis.

A primeira grande obra de Labille-Guiard, “Autorretrato com duas estudantes”, apresentava influências do estilo de Vigée-Le Brun. Entretanto, na atualidade, a obra de Adelaide Labille-Guiard é considerada como sendo de igual valor, ou até maior.

O apoio da tia do Rei, a princesa Marie Adélaïde, rendeu a Labille-Guiard uma pensão governamental de 1.000 libras. Além disso, ela conseguiu firmar contrato para que retratasse a princesa Adeilaide, sua irmã Victorie-Louise e Elizabeth, a irmã do Rei.

A pintura, exibida em 1787, foi a maior e mais ambiciosa obra de Labille-Guiard naquele ano. No ano seguinte, ela foi chamada pelo irmão do rei, o Conde de Provença (posteriormente, Luis XVIII da França), para que fizesse seu retrato. O quadro se tornaria uma de suas obras mais reconhecidas.

Desastre político na França

As relações de Labille-Guiard com a realeza se tornaram suspeitas após a Revolução Francesa de 1789. Entre 1793 e 1794, muitos dos nobres que a apoiavam foram condenados à guilhotina

Em 11 de agosto de 1793, uma ordem vinda do Diretório de Departamento de Paris obrigou Labille-Guiard a entregar os retratos feitos da realeza para serem queimados em praça pública, incluindo as obras ainda inacabadas que haviam sido encomendadas pelo Conde de Provença.

Labille-Guiard se escondeu do terror revolucionário em uma casa de campo compartilhada com Vincent & Marie, Gabrielle Capet, entre outros. Ela voltou a Paris quando a cidade esta estava radicalmente alterada, em 1795.

Naquele ano, ela foi nomeada como uma artista do Louvre e passou a receber uma nova pensão de 2000 libras. Ela se tornou a primeira artista feminina a conseguir criar um ateliê para si mesma e para suas estudantes, no Louvre. A artista continuaria exibindo suas pinturas no Salão até 1800.

Em 8 de junho de 1799 ela se casou com François-André Vincent e, a partir deste momento, passou a assinar algumas de suas pinturas como “Madame Vincent”. Os retratos em tons pastéis de Marie Adélaïde, Victoire-Louise e Élisabeth ficaram na posse da artista até sua morte. Ela faleceu em 24 de abril de 1803, após um longo período doente.

Pode interessar a você...
Rafael Sanzio: biografia de um grande pintor renascentista
A mente é maravilhosaLeia em A mente é maravilhosa
Rafael Sanzio: biografia de um grande pintor renascentista

Conheça a biografia de Rafael Sanzio, um dos maiores pintores do Alto Renascimento. Foi um célebre artista que se destacou entre seus contemporâneo...



  • Muñoz López, P. (2012). Visibilización de la identidad en las producciones de mujeres artistas en la historia del arte y en el arte contemporáneo. In Más igualdad, redes para la igualdad: Congreso Internacional de la Asociación Universitaria de Estudios de las Mujeres (AUDEM)(2012), p 429-437. Arcibel.
  • Peruga, M. B. (2007). Mujeres e Ilustración: una perspectiva europea. Cuadernos de historia moderna, 181-201.
  • Vicente de Foronda, P. (2018). La invisibilidad de las mujeres en el arte. Una herstory es posible.