Biografia de Alejandra Pizarnik, a última escritora maldita

junho 6, 2020
Para Alejandra Pizarnik, escrever era uma maneira de transfigurar a dor, e a poesia era uma tarefa para exorcizar fantasmas, reparar feridas, conjurar anseios...

O que você sabe sobre a biografia de Alejandra Pizarnik? Muitos diziam que ela havia nascido com a escuridão em sua alma. A sua rebeldia, o seu ar trágico e a sua paixão se nutriam da sua própria escuridão para tecer uma poesia única e irrepetível. Ela falou sobre prisões, olhos, pedras muito pesadas e de Elizabeth Bathory, a condessa sangrenta. Além disso, ela navegou como ninguém entre a loucura e o sonho, para nos deixar uma obra excepcional.

Essa mulher sempre se sentiu uma estranha neste mundo e falava espanhol com um forte sotaque europeu. Os complexos e o seu ganho de peso a corroíam. A sua infância foi marcada pela desilusão, medo, vazio… (O céu tem a cor da infância morta, escreveu certa vez). Dizem também que ela tentou de tudo na vida, jornalismo, filosofia, pintura…, mas apenas a poesia e as anfetaminas davam alívio aos seus pensamentos nervosos.

Alejandra Pizarnik era uma poetisa argentina que deixou a sua marca em Paris e permeou a sua mente e coração com a etapa final do surrealismo. Foi amiga de André Breton, Georges Bataille, Yves Bonnefoy e, acima de tudo, de alguém que foi fundamental em sua vida e também em sua carreira: Octavio Paz.

O sofrimento e a loucura

Ninguém explorou como ela o sofrimento e até mesmo a loucura. Essa mulher desdobrada afirmava ter duas gêmeas mortas dentro dela: a Alejandra do passado e a Alejandra do presente, aquela que nunca ousou ser. Ela se suicidou em 1972 aos 36 anos. No entanto, foi um fim anunciado, porque ela passou toda a sua existência em conflito, naquele abismo que a engoliu em várias ocasiões. No final, ela encontrou a libertação para seus tormentos, para suas trevas.

Até hoje, Alejandra Pizarnik é conhecida como a última poeta maldita da América. Lê-la é mergulhar em partes iguais no romantismo, surrealismo, no universo gótico e também na psicanálise. Um universo singular que não deixa ninguém indiferente.

“Não sei nada sobre pássaros/não conheço a história do fogo. Mas acho que a minha solidão deve ter asas”.
– A. Pizarnik –

Alejandra Pizarnik quando criança

Biografia de Alejandra Pizarnik, uma vida entre a genialidade e a escuridão

Nascer em Avellaneda, um subúrbio de Buenos Aires, provavelmente não foi nada fácil para Alejandra Pizarnik. A sua família era de origem russo-judaica e carregava permanentemente a dor de ter deixado o seu país de origem, as marcas do Holocausto, o horror e as perdas pessoais sofridas durante a guerra.

Essa sombra criou sobre ela uma marca desde a infância. Uma ferida herdada que foi ampliada ainda mais por uma aparência física que ela não aceitava, a rejeição de uma mãe que valorizava mais a irmã e por uma saúde em que a asma e a gagueira limitavam grande parte da sua infância. Tudo isso fez com que, desde muito cedo, ela se achasse diferente, dentro de um personagem em que não se reconhecia.

A literatura e a filosofia eram o espaço seguro no qual ela se abrigava desde criança. Esse amor literário logo despertou a sua necessidade de escrever e também abriu as portas para uma rebeldia que a caracterizaria para sempre. Já na adolescência, ela era conhecida pela sua maneira de se vestir, seus cabelos curtos, seu estilo particular.

A sua mente e a arte começaram a dar testemunho do seu carisma poético antes de chegar à universidade. Também nessa época, cresceu nela a necessidade de se proteger em outro refúgio que não tinha nada a ver com os livros ou a escrita. A sua preocupação com o ganho de peso e a rejeição pelo seu próprio corpo a levaram ao consumo de barbitúricos e anfetaminas.

Uma vida de buscas malsucedidas

Em 1954, Alejandra Pizarnik começou a estudar filosofia e letras na Universidade de Buenos Aires. No entanto, não conseguiu terminar o curso. Mais tarde, ela tentou jornalismo e também não gostou. Em seguida, iniciou uma formação artística com o pintor surrealista Batlle Planas. O seu país ficou pequeno demais para ela e a sua ânsia de encontrar um significado e um canal de autorrealização a levaram a passar alguns anos em Paris.

Assim, entre 1960 e 1964 ela viveu uma fase gratificante em que começou a trabalhar fazendo traduções e críticas literárias para várias revistas. Nessa época, ela conheceu duas figuras muito relevantes em sua vida: Julio Cortázar e o poeta mexicano Octavio Paz. Este último escreveu o prólogo do seu livro de poemas Árvore de Diana (1962).

Uma vida entre a genialidade e a escuridão

Em 1965 e já na Argentina, continuou com a sua obra literária. O seu trabalho foi apreciado pela comunidade cultural da época e ela recebeu duas bolsas de estudo, a Guggenheim e a Fullbright. No entanto, não tirou proveito delas. As suas crises depressivas, o desânimo e a busca por algo que desse sentido à sua existência nunca terminaram.

Depressão e suicídio na biografia de Alejandra Pizarnik

Os seus amigos diziam que, depois de voltar de Paris, ela começou a criar uma crosta progressiva de isolamento ao seu redor. Após a morte de seu pai, começaram as tentativas de suicídio. Além disso, a sua dependência de pílulas para dormir se tornou mais intensa, quase desesperada, de tal forma que em 1972 ela foi internada em um hospital psiquiátrico com uma depressão profunda.

Em 25 de setembro, aproveitando uma autorização do hospital, ela acabou tomando 50 comprimidos de Seconal. Não havia como voltar atrás, e finalmente Alejandra Pizarnik encontrou a sua libertação. Ela tinha 36 anos.

“Entre outras coisas, escrevo para que o que temo não aconteça; para afastar o que me machuca, para afastar o mal. Dizem que o poeta é um grande terapeuta. Nesse sentido, a missão poética envolveria exorcizar, conjurar e também reparar. Escrever um poema é curar a ferida fundamental: a tristeza. Porque todos nós estamos feridos”.
– A. Pizarnik –

A obra de Alejandra Pizarnik

Grande parte da obra de Alejandra Pizarnik orbita em torno de duas esferas: a sua infância em Buenos Aires e o seu fascínio pela morte. Além disso, devemos levar em consideração que hoje podemos admirar grande parte de seus trabalhos graças a Julio Cortázar e, sobretudo, a sua primeira esposa, Aurora Bernárdez.

A família de Alejandra, sempre puritana e até cansada dos gostos e estilo literário da filha, chegou ao ponto de quase destruir os seus cadernos e textos pessoais. Além disso, a repressão cultural da Argentina pôs em risco a conservação de parte de seu trabalho. Os seus Diários, por exemplo, foram levados para Paris, onde Cortázar e sua esposa os guardaram até a Universidade de Columbia ficar com eles.

A sua obra lírica está incluída em sete livros de poesia: A terra estrangeira (1955), A Última Inocência (1956), As Aventuras Perdidas (1958), A Árvore de Diana (1962), Os Trabalhos e as Noites (1965), Extração da pedra da loucura (1968) e O inferno musical (1971).

Posteriormente, foram feitas várias publicações de seus últimos poemas, obras teatrais como Os possuídos entre lilases e os romances A Bucaneira de Pernambuco e Hilda, a polígrafa. Também podemos destacar uma de suas histórias mais famosas e marcantes: A Condessa Sangrenta.

O estilo

Alejandra Pizarnik escreveu freneticamente desde os 15 anos. Ela o fez com devoção, porque esse era o seu único caminho de salvação em um mundo do qual ela nunca se sentiu parte. A sua poesia é cheia de símbolos, silêncios, loucura, da sombra da morte, delírios… A poesia, segundo ela mesma, era o lugar onde o impossível se torna possível.

A escritora na livraria

Ela também foi a voz do feminismo; as suas palavras tinham uma beleza subversiva, na qual apenas as verdades se encaixavam. Também criticava os rótulos, as convenções e a obrigação de fazer parte de um modelo social. Essa mulher foi incapaz de se adaptar a qualquer tipo de expectativa.

Daí o tédio, a sonolência e a melancolia pegajosa que amordaçava o seu coração até impregnar os seus poemas. Alejandra Pizarnik foi a última poeta maldita, uma grande escritora que continua a nos impressionar com os seus versos, com a sua voz distante, mas sempre enfática.

“Eu simplesmente não sou deste mundo… Eu habito a lua com frenesi. Não tenho medo de morrer; tenho medo desta terra estrangeira e agressiva… Não consigo pensar em coisas concretas; elas não me interessam. Eu não sei falar como todo mundo. As minhas palavras são estranhas e vêm de muito longe, de onde não é, de encontros com ninguém… O que farei quando mergulhar em meus sonhos fantásticos e não conseguir voltar? Porque isso terá que acontecer algum dia. Partirei e não saberei como voltar”.

  • PIÑA, Cristina (2005) Alejandra Pizarnik. Una biografía, Buenos Aires, Corregidor
  • VENTI, Patricia (2008) La escritura invisible: el discurso autobiográfico en Alejandra Pizarnik, Barcelona, Anthropos