César Borgia: biografia de 'O Príncipe', de Maquiavel

21 Janeiro, 2021
César Borgia foi o filho ilegítimo do Papa Alexandre VI que inspirou 'O Príncipe', de Nicolau Maquiavel. Posteriormente, essa obra deu nome a um traço de personalidade astuto, manipulador e inescrupuloso. O que há de real nessa ideia? Por que a história de César Borgia é tão fascinante?

A biografia de César Borgia mostra que ele é uma daquelas figuras da história que pode prender ou, do contrário, gerar rejeição. Um menino criado para servir ao poder de seu ambicioso pai, o Papa Alexandre VI, assim como sua irmã Lucrécia. Sua história é fascinante e, ao mesmo tempo, tremendamente cruel. Sua vida é o reflexo de uma família envolvida em intrigas.

Uma saga afundada até os ossos em corrupção, assassinato e usurpação de poder a qualquer custo: foi esse o entorno e a educação que influenciaram César Borgia. E não há dúvida de que foi um aluno brilhante, pois todo esse macabro investimento valeu a pena. Cesar Borgia entrou para a história como um símbolo de imoralidade, conspiração e crueldade sem limites.

Seu pai soube moldar perfeitamente esse filho ilegítimo que inspiraria o caráter de ‘O Príncipe’, de Nicolau Maquiavel, que, por sua vez, daria nome a um traço de personalidade astuto, manipulador e inescrupuloso.

Neste artigo, propomos fazer uma pequena revisão de sua vida, passando pela obra de Maquiavel para finalmente entender como e por que esses tipos de histórias de traições, perfídias, crimes e envenenamentos afetam a psicologia.

Os primeiros anos da biografia de César Borgia

Ele foi o filho ilegítimo de um cardeal de origem valenciana, Rodrigo Borja, que mais tarde ascenderia como Papa Alexandre VI. Uma posição que ele alcançou por meio do nepotismo e da corrupção. A infância de César Borgia foi uma lição constante de intrigas, manipulações, alianças e conspirações.

César Borgia

Alguns dos especializados na biografia de César Borgia relatam as artes de seu pai para garantir a fidelidade de seus filhos à família. Entre tais artes estava o costume de forçar as primeiras relações sexuais de seus filhos com sua irmã Lucrécia. Dessa forma, defendia uma prática incestuosa argumentando que a primeira relação sexual era aquela que determinava o sentido de pertencimento e forjava laços difíceis de romper.

Nessa trama, digna de um romance, a adolescência de César e de sua irmã Lucrécia se desenvolveu. E a verdade é que esse fato criou um vínculo estranho entre eles que acabaria, de alguma forma, influenciando sua própria destruição.

Com apenas dezessete anos foi nomeado bispo de Pamplona, e aos vinte já era arcebispo de Valência. Pouco depois, tornou-se cardeal. Mas César Borgia não ia ficar relegado à esfera eclesiástica, ele havia sido feito para a política e para as armas. Ele acabaria deixando a posição de cardeal após o assassinato de seu irmão mais velho, provavelmente cometido pelo próprio César Borgia.

Biografia de César Borgia: vida adulta

Com o tempo e logo após a morte de seu irmão, ele montou um exército de mercenários no qual tinha o próprio Leonardo Da Vinci como um de seus engenheiros. César avançou com seu exército pelos estados italianos, aumentando seu poder e estendendo o domínio de seu pai. O objetivo era unificar a Itália sob o comando da família Borgia.

Suas estratégias passavam pela espada ou pela fraude, ele era tão habilidoso em matar quanto em ganhar amigos e firmar alianças. Ele assassinava qualquer pessoa que pudesse prejudicá-lo, inventava novas leis para seu lucro descarado e sabia como fazer-se amado e odiado da mesma forma. Muitas vezes ele cobria o rosto com uma máscara que acabava dando a ele aquela aura de mistério da qual tanto amava se cercar. Acredita-se que essa prática servia, na verdade, para esconder os vestígios que várias doenças venéreas haviam deixado em seu rosto.

Após a queda de seu pai, que morreu envenenado, César Borgia foi detido em Castilnovo por Gonzalo Fernández de Córdoba, o Grande Capitão, que o transferiu para a Espanha e o encarcerou em La Mota. Mas César Borgia conseguiu escapar da prisão e fugiu para Navarra, um lugar que o levaria à morte em consequência dos ferimentos de combate; os seus restos mortais foram enterrados em Viana.

Nicolau Maquiavel e Leonardo Da Vinci

Grande parte da figura de ‘O Príncipe’, de Nicolau Maquiavel, é inspirada na figura de César Borgia. Nessa obra, Maquiavel idealiza esta figura histórica e a usa de exemplo como ideal do exercício da política. Um exercício que, segundo Maquiavel, não deve responder à moralidade, deve apenas responder às leis do poder.

Parece que César Borgia não foi um modelo exclusivo de Maquiavel, mas também de outros autores. Diz-se que Leonardo Da Vinci se inspirou na atratividade física de César Borgia para pintar o rosto de seus Cristos; e que até Michelangelo, com ciúme dos rostos que Da Vinci pintou, usou as mesmas características físicas para recriar Cristo.

Quadro de César Borgia

Maquiavelismo e a tríade sombria da personalidade

Na psicologia, o maquiavelismo é um termo que se refere a um traço de personalidade. Ele define as pessoas que usam os outros como um meio para atingir seus próprios objetivos. Para isso, não têm nenhum problema em manipular e explorar os outros à vontade. Nesse sentido, a personalidade maquiavélica é manipuladora e estratégica. Diferem dos narcisistas ou psicopatas por serem pessoas mais retraídas e mais cognitivas do que emocionais.

No entanto, como na maioria das obras de grandes pensadores, ‘O Príncipe’ foi lido a partir de vários pontos de vista e, embora a versão que defendemos seja a mais generalizada, não é a única leitura possível.

Vários pesquisadores interpretaram a obra de Maquiavel e viram nela características que vão além da leitura tradicional. Portanto, é uma obra complexa e ao mesmo tempo interessante e que se presta a mais de uma leitura. Claro, a figura idealizada de César Borgia é facilmente identificável, mas é interessante ler a obra com atenção e tentar analisá-la o mais atentamente possível.

Narcisismo, psicopatia e maquiavelismo são termos que às vezes são confundidos porque possuem características bastante semelhantes. São os três tipos de personalidade que compõem a tríade obscura, conceito psicológico que engloba um conjunto de traços que atuam a partir de um mesmo eixo: egocentrismo, falta de empatia e egoísmo. Uma boa maneira de entender por que falamos em Maquiavelismo é, como já mencionamos, ir diretamente à obra que lhe deu o seu nome.

Muito além de ‘O Príncipe’, a verdade é que a figura de César Borgia é realmente fascinante. Mergulhar em sua história significa abrir uma porta para mundos sombrios e secretos que, longe de serem ficção, fazem parte da história. Odiado e admirado, não há dúvida de que César Borgia não deixa ninguém indiferente.