Biografia de Mercedes Sosa, uma voz prodigiosa

30 Novembro, 2020
Mercedes Sosa foi uma mulher com uma voz privilegiada que começou sua carreira aos 15 anos e nunca mais parou de alcançar grandes sucessos. Também foi uma pessoa comprometida com a causa da justiça e dos direitos humanos, que nunca traiu suas convicções.

Segundo a biografia de Mercedes Sosa, ela enfrentou duas apresentações nas quais não conseguiu lidar com as suas próprias emoções. A primeira ocorreu em Barcelona, em 1973, durante a sua primeira performance na Espanha. O país era governado pela ditadura de Francisco Franco e proibiu que o concerto fosse divulgado. Ainda assim, as pessoas chegaram em massa, cantaram suas canções e a cantora acabou chorando de emoção.

A segunda dessas apresentações inesquecíveis ocorreu dez anos depois. Ela voltava a se apresentar em seu país após um amargo exílio. Os argentinos cantavam suas canções e Mercedes confessou que foi obrigada a não olhar para o público pois, se o fizesse, ia se desfazer em lágrimas.

Dizem que, depois desse concerto, o almirante Carlos Alberto Lacoste perguntou: “Quem deu permissão a Mercedes Sosa para estar em meu país?”

“O pior que pode acontecer com alguém é não acreditar em nada. Quem não acredita em nada se torna estrangeiro da vida”.
-Mercedes Sosa-

Essa foi Mercedes Sosa, a “Voz da América”, uma mulher de origem humilde que teve que pagar na própria pele pelo seu princípio de coerência. Além disso, foi uma voz prodigiosa que fez da música uma forma de narrar a realidade latino-americana para todo o mundo.

Mercedes Sosa

Mercedes Sosa, uma menina humilde

Seu nome de batismo era Haydée Mercedes Sosa, embora seus pais tivessem combinado que ela se chamaria Marta Mercedes. O pai a registrou e decidiu mudar os planos na última hora. Ainda assim, durante toda a sua vida a sua família a chamou de “la Marta”. Veio ao mundo em 9 de julho de 1935 em San Miguel de Tucumán, Argentina.

Há um dado curioso em relação à sua data de nascimento e à data da sua morte. Mercedes nasceu no mesmo dia em que é celebrada a Independência da Argentina, que foi conquistada precisamente na sua cidade natal, Tucumán. 74 anos depois, ela faleceu no dia 4 de outubro, data que coincidia com o nascimento de Violeta Parra, uma mulher a quem Mercedes deu fama mundial.

Sosa era filha de um humilde trabalhador de um engenho de açúcar e de uma mulher que ganhava a vida lavando as roupas de famílias abastadas. Seus pais eram peronistas convictos e, em 17 de outubro de 1950, viajaram a Buenos Aires para celebrar o Dia da Lealdade Peronista. Nesta mesma data, a professora de canto faltou em sua escola e ela foi encarregada de cantar o Hino Nacional da Argentina. Esta se transformou na sua primeira apresentação em público.

O começo de uma carreira de sucesso

Algumas colegas de escola a convenceram a ir a uma emissora local que estava promovendo um concurso de canto. Mercedes decidiu ir e, ao concluir sua apresentação, o dono da emissora anunciou que o concurso havia terminado, pois ali estava a vencedora.

Desde então, Mercedes começou a cantar regularmente no rádio. Em 1957, ela se casou com Óscar Matus, um músico folclórico, e ambos se mudaram para Mendoza, uma província argentina pela qual ela se apaixonou.

Tempos depois, nasceu seu filho, Fabián Matus. Junto com seu marido e o poeta Armando Tejada Gómez, criaram o movimento do Nuevo Cancionero Latinoamericano.

O casamento durou apenas oito anos e seu marido a abandonou para viver com outra mulher. Mercedes se mudou para Buenos Aires e, naquele mesmo ano, aconteceu um evento quase mágico. Durante o Festival Folclórico de Cosquín, o mais importante do gênero na Argentina, o músico Jorge Cafrune a convidou a cantar. Embora isso não estivesse programado, ela fascinou o público de imediato.

Mercedes Sosa tocando instrumento

Biografia de Mercedes Sosa: A Voz da América

A partir daquele momento, o sucesso foi constante na biografia de Mercedes Sosa. A princípio, ela conquistou o seu país, depois toda a América Latina, e por último o mundo inteiro.

Encontrou um novo marido, “Pocho” Mazzitelli, um representante de músicos que nunca a deixou. Foram anos felizes para ela, que não hesitou em classificar seu segundo esposo como “o grande amor da sua vida”.

Após o golpe militar na Argentina, começaram tempos difíceis para Mercedes. Seus discos foram proibidos e ela foi incluída na lista negra da ditadura.

Em 1978, durante um recital em La Plata, uma das suas apresentações foi interrompida pelos militares, que a agrediram em público e a prenderem juntamente com seus colegas. Este evento a levou a se exilar em Paris e, mais tarde, em Madrid.

O exílio foi uma experiência amarga, sobretudo porque coincidiu com a morte de seu marido. Ela contou que demorou nove anos para superar a sua perda. Apesar de tudo, o amor e a veneração do público lhe devolveram o gosto pela vida.

Vieram novos concertos, novos experimentos musicais que incluíram o rock. Ela faleceu em 4 de outubro de 2009, em um hospital de Buenos Aires, aos 74 anos, com uma carreira mais do que consagrada e uma voz imortal.

Braceli, R. E. (2003). Mercedes Sosa: la negra. Sudamericana.