Biografia de Svetlana Alliluyeva, a filha de Josef Stalin

dezembro 21, 2019
Svetlana Alliluyeva é o reflexo de uma pessoa presa entre as coordenadas da história. Seu pai, venerado no mundo comunista e odiado no capitalista, foi para ela um ser amado, temido e odiado ao mesmo tempo. Ela nunca conseguiu escapar do estigma da política.

A biografia de Svetlana Alliluyeva mostra que ela foi, provavelmente, o único ser humano cujo coração se derretia pelo temido Josef Stalin. Na verdade, isso acontecia quando ela era apenas uma criança incapaz de estabelecer uma relação entre o homem amoroso que brincava com ela e o líder russo que havia semeado o terror em seu próprio território.

Esta mulher surpreendeu o mundo nos anos 60, quando saiu da União Soviética e pediu asilo no território dos grandes oponentes de seu pai: os Estados Unidos.

Desde esse momento, foi usada como troféu de propaganda no marco da famosa Guerra Fria. Sua figura foi usada para desacreditar o regime que seu pai liderava.

“Vivi minha vida como pude (…) mas houve uma fatalidade. Não se pode lamentar o seu destino, mas lamento que minha mãe não tenha se casado com um carpinteiro”.
-Svetlana Alliluyeva-

O tormento e as contradições que Svetlana Alliluyeva viveu explicam por que ela mudou de nome várias vezes. Nasceu como Svetlana Iosifovna Stalin, mas mais tarde, removeu o sobrenome de seu pai e se transformou em Svetlana Alliluyeva. Depois, mudou completamente seu nome e terminou sua vida como Lana Peters.

A infância de Svetlana Alliluyeva
Uma jovem Svetlana Alliluyeva sentada no colo de Lavrentiy Beria, com Stalin (ao fundo, fumando seu cachimbo) e Nestor Lakoba.

A infância paradoxal na biografia de Svetlana Alliluyeva

Svetlana Alliluyeva foi a única filha mulher de Stalin. Ele teve outros dois filhos homens, um do seu primeiro casamento e outro do segundo, com a mãe de Svetlana, Nadezhda Alliluyeva. Os biógrafos do líder apontam que apenas três pessoas mexeram com o coração deste duro guerreiro; uma delas foi sua mãe, Yekaterina Gueladze.

A outra foi sua primeira esposa, Ekaterina Svanidze, por quem ele era realmente apaixonado, mas ela morreu cedo de tuberculose. Stalin nunca voltou a ser o mesmo após perder Ekaterina. A outra fonte de seus amores foi sua filha, Svetlana, com quem um dos homens mais cruéis da história da Rússia brincava.

Svetlana Alliluyeva foi educada dentro do Kremlin, como se o resto do mundo não existisse. Vivia em uma espécie de torre de marfim, ignorando por completo o que acontecia na sua cidade.

Como era costume naquela época, quem a criou foi uma criada. Seu pai não passava muito tempo com ela, mas sempre fazia com que seu afeto chegasse a ela. Sua mãe, por outro lado, era mais distante.

Uma mãe ausente

Quando Svetlana Alliluyeva tinha 6 anos, sua mãe morreu repentinamente. Oficialmente, dizem que ela sofreu um ataque letal de apendicite.

Embora o assunto sempre tenha sido um mistério, existem evidências que apontam que a morte de “Nádia”, mãe de Svetlana, não foi natural. Ela havia sido perdidamente apaixonada por Stalin, mas quando foi estudar na universidade, se desencantou com o que ele estava fazendo com a Rússia.

Nádia foi uma das poucas pessoas que disse na cara de Stalin que ele era um carrasco. Um dia antes da sua morte, ela teve uma forte discussão pública com o líder; há testemunhas que afirmam que ele a agrediu em público.

No dia seguinte, foi encontrada com uma bala no coração em sua cama. Aparentemente ela se suicidou, mas muitos não descartam a possibilidade de que tenha sido assassinada pelo marido. Svetlana Alliluyeva foi obrigada a acreditar na versão oficial.

Josef Stalin

O triste despertar

Conforme Svetlana Alliluyeva foi crescendo, começou a perceber que as coisas no seu país não eram como ela havia acreditado até então. Até completar 16 anos, manteve um vínculo próximo e amoroso com seu pai. Nessa idade, Svetlana, que falava inglês, teve acesso a um artigo nesse idioma, que falava que sua mãe havia se suicidado.

Esse foi o gatilho de um grande desencontro com quem, até então, havia sido seu amado pai. Mais tarde, ela se apaixonou por um diretor de cinema muito mais velho do que ela. Stalin não aprovava a relação e, para acabar com ela, ordenou que o homem fosse preso e levado à Sibéria.

Aos 19 anos ela se casou, talvez apenas por rebeldia, e teve um filho. Foi o primeiro dos quatro casamentos fugazes da biografia de Svetlana Alliluyeva, que também teve duas outras filhas.

Quando seu pai morreu, ela foi proibida de falar da vida privada do líder. Ela nunca havia deixado de amar e odiar seu pai ao mesmo tempo. Cerca de 14 anos depois, aproveitou uma viagem à Índia para desertar. Deixou seus filhos, de 19 e 16 anos, sozinhos.

Chegou aos Estados Unidos em abril de 1967 e começou a trabalhar como escritora. Recebeu 3 milhões de dólares pela sua autobiografia.

Ela se casou novamente e teve uma filha, Olga. Após um novo divórcio e diversos avatares, todos ocasionados pela sombra política que a perseguia, Svetlana tentou se suicidar em 1991, mas não conseguiu.

Ela faleceu em decorrência de um câncer em 2011, e deixou registrada sua vontade de que seu corpo não fosse transportado até a Rússia após o fim da sua vida.

Cardín, A. (1983). Moscú sí cree en las fiestas. Los Cuadernos del Norte: Revista cultural de la Caja de Ahorros de Asturias, 4(20), 24-29.