O que é a capacidade de adaptação?

A adaptação é movimento, é mudança e, acima de tudo, flexibilidade. A arte de se adaptar às mudanças não precisa ser traumática. Os benefícios que obtemos com esse processo podem ser extraordinários.
O que é a capacidade de adaptação?
Valeria213

Escrito e verificado por a psicóloga Valeria213 em 15 Novembro, 2021.

Última atualização: 15 Novembro, 2021

“Adaptar-se ou morrer.” Muitos de nós crescemos com esse mantra, com a ideia de que diante dos desafios do ambiente é preciso reagir à força, e essa reação, esse movimento, quase sempre é doloroso. Portanto, caso não o façamos, ficamos para trás, relegados, quase condenados à involução. No entanto… é assim que esse mecanismo funciona? O que realmente é a capacidade de adaptação?

Vamos admitir, nada é tão decisivo neste momento quanto nos adaptarmos às mudanças que vivemos, à incerteza, à variabilidade… Somos quase obrigados a enfrentar estas realidades, enquanto a falta de certezas nos faz ver estas dimensões com preocupação. O fato de nos sentirmos assim não é acidental. O cérebro não gosta de mudanças porque qualquer alteração no ambiente é percebida como uma ameaça.

Porém, há um fato indiscutível: a vida é mudança. Como disse uma vez Heráclito, ninguém toca o mesmo rio duas vezes, porque não é o mesmo rio e não é a mesma pessoa. Saber como se adaptar a esse fluxo constante é fundamental para a saúde e o bem-estar. Isso explica porque, nos últimos anos, o campo da psicologia se concentrou com especial interesse nesta área: a da adaptação humana.

Vamos falar sobre o assunto mais a fundo.

Flores no asfalto

O que é a capacidade de adaptação? Chaves para entendê-la

“Apenas aqueles que estão mais bem adaptados à mudança sobrevivem”, disse Charles Darwin. De alguma forma, há muito tempo internalizamos essa ideia clássica. São muitas as pessoas que “permanecem vivas” apesar de serem inflexíveis, muitas que continuam a respirar apesar de adotarem uma perspectiva psicológica rígida e inflexível.

Hoje, ninguém morre por não se adaptar às demandas que os cercam, mas sofremos e corremos um maior risco de sofrer de transtornos depressivos e de ansiedade. Porque a inadaptacão provoca sofrimento, porque quem se recusa a mudar fica frustrado e irritado porque a realidade não corresponde aos seus desejos.

Da mesma forma, esta dimensão não se aplica apenas ao ser humano. As empresas e o tecido social sabem e compreendem que, para progredir, é necessário investir em três dimensões: capacidade de aprendizagem (learnability), capacidade de adaptação (liquidity) e mobilidade (mobility). A adaptação é o único mecanismo que nos permite progredir em todos os sentidos.

Alinhar emoções, pensamentos e comportamentos

Associação Americana de Psicologia (APA) define este conceito de forma muito simples: é a capacidade de dar respostas adequadas a situações de mudança. Isso requer, acima de tudo, ser capaz de variar nossos comportamentos, pensamentos e emoções.

É importante, antes de tudo, considerar um aspecto. Se perguntarmos a alguém o que é a capacidade de adaptação, eles nos responderão que é a capacidade de variar nosso comportamento para sobreviver. Esta definição não está completa. Sabemos que a adaptação requer fazer uma mudança, mas essa variação não se refere apenas ao comportamento, requer criar novas abordagens de pensamento e reativar certas emoções.

Porque, sem um estado de espírito adequado, novas ideias não germinarão, e sem pensamentos inovadores, confiantes e corajosos, os comportamentos apropriados não aparecerão.

A adaptação não significa abrir mão de tudo que você é ou ama

Muitas vezes podemos dizer a nós mesmos que nada pode ser melhor do que uma lousa em branco. Há até quem presuma que se adaptar ou morrer passa necessariamente por deixar de lado tudo o que somos para dar forma a uma nova versão. Agora, é necessário desativar muitas dessas ideias populares que, a longo prazo, têm pouca lógica.

Você não precisa começar do zero, tem que começar a partir da sua própria experiência. Não podemos tirar uma pele para colocar outra: isso iria contra a nossa essência, aprendizados, valores e identidade. Se nos perguntarmos o que é a adaptação, uma das respostas é detectar aquelas habilidades que funcionaram para nós até agora na vida, deixar de lado aquelas que não funcionam mais e aprender novas.

Algo assim requer um exercício adequado de introspecção. Talvez um dos seus pontos fortes seja a autoconfiança. No entanto, pode ser que falte a transcendência, pensar com mais criatividade, saber como perceber oportunidades em meio à tempestade. Todas essas são novas abordagens que vale a pena desenvolver, mas mantendo a sua essência.

Mulher de olhos fechados na praia

Capacidade de adaptação e tolerância à incerteza

Andrew J. Martin, professor de psicologia educacional da Universidade de Sydney, na Austrália, vem estudando o campo da adaptação humana há muitos anos. Em uma das suas pesquisas, ele aponta que se educarmos nossos alunos em relação à tolerância à incerteza e à adaptabilidade às mudanças, veremos como seus resultados acadêmicos vão melhorar.

Ser capaz de aceitar o incerto, de processá-lo sem ansiedade, sem medo ou resistência, não só facilita uma melhor adaptação. É a chave para ver oportunidades em meio às dificuldades.

A flexibilidade mental não dói, ela enriquece

A capacidade de adaptação não atrapalha, porque quem se adapta não perde nem desiste. O que faz é exercitar aquela flexibilidade emocional, cognitiva e emocional que se ajusta à nova realidade com melhores recursos, equilíbrio e intuição. O que dói é a inflexibilidade, a mente rígida que se opõe às mudanças e luta em vão.

Para concluir, agora mais do que nunca, vamos refinar um pouco mais essas competências que todos carregamos dentro de nós. É hora de desenvolvê-las cada vez mais e torná-las nossas aliadas.

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  • Martin, A. J. (2017). Adaptability – What it is and what it is not. American Psychologist72, 696-698. http://dx.doi.org/10.1037/amp0000163
  • Martin, A. J., Nejad, H. G., Colmar, S., & Liem, G.A.D. (2013). Adaptability: How students’ responses to uncertainty and novelty predict their academic and non-academic outcomes. Journal of Educational Psychology, 105, 728-746. https://doi.org/10.1037/a0032794