Três fascinantes casos da neurociência

dezembro 9, 2019
Há casos da neurociência que falam de fenômenos estranhos, constituindo uma prova dos infinitos labirintos do cérebro. Muitas vezes, esses casos nos permitiram fazer descobertas importantes. Hoje apresentamos algumas deles.

O mais interessante de muitos casos da neurociência é que, com relativa frequência, eles levam a algum conhecimento sobre o cérebro que até então havia escapado. Às vezes, uma doença ou um sintoma específico trazem consigo chaves interessantes que aumentam a compreensão da mente humana.

Vários desses casos da neurociência são impressionantes por causa dos sintomas específicos. Muitas vezes, tratam de fenômenos estranhos e, ao mesmo tempo, fascinantes. No entanto, o que é realmente valioso é o fato de que eles nos mostram o cérebro funcionando de uma maneira que não conhecíamos.

O neurologista Oliver Sacks é considerado um dos mais importantes divulgadores científicos. Sua maneira de narrar casos extraordinários, às vezes, pode parece literatura de ficção científica. No entanto, não é.

Corresponde a eventos reais que contribuíram, às vezes com finais trágicos, para saber mais sobre o cérebro. Estes são três desses casos únicos.

“Qualquer doença introduz uma duplicidade na vida: um ‘algo’, com suas próprias necessidades, exigências, e limitações”.
-Oliver Sacks-

Sinapses do cérebro

Três casos fascinantes da neurociência

1. Reminiscência

Este é um dos casos mais impressionantes. A protagonista foi uma mulher de mais de 80 anos que viveu uma experiência muito particular em 1979. Deve-se dizer que ela era uma pessoa com boa saúde e faculdades mentais totalmente funcionais, embora tivesse problemas auditivos.

Uma noite, ela sonhou com sua infância na Irlanda. Em seu sonho, ela ouviu a música do seu passado, as canções tradicionais e danças típicas. Quando acordou, a música ainda estava em sua cabeça.

Ela pensou que o rádio estava ligado ou que alguém tinha colocado uma música para tocar, embora ninguém estivesse presente. Ela podia ouvir perfeitamente as notas musicais, em um volume alto o suficiente para distraí-la de outras coisas.

Antes que pudesse ser realizado um encefalograma, a música desapareceu, depois de meses “tocando” em seu cérebro. Tudo indica que se tratava de um problema no lobo temporal, associado a um sentimento de nostalgia.

Este caso sugere que há regiões em nosso cérebro onde são guardadas todas as experiências do passado, como se fosse um arquivo indestrutível.

2. O caso Madeleine

Madeleine era uma mulher de 60 anos com cegueira congênita. Isso significa que ela nunca havia enxergado em sua vida. Ela também tinha paralisia cerebral e sofria de movimentos involuntários nas mãos.

Com todas essas condições, era esperado que ela tivesse sofrido um grave retardo cognitivo, mas Madeleine era uma mulher muito inteligente.

As pessoas ao seu redor liam muitos livros para ela. Como resultado, ela era muito culta e uma ávida conversadora. Ela confessou que nunca tinha sido capaz de aprender Braille, pois, em suas próprias palavras, suas mãos eram “pedaços inúteis de massa abandonados por Deus”. Ela dizia que nem as sentia como parte de seu corpo.

No entanto, as mãos dessa mulher eram basicamente normais. Tinham sensibilidade, mas, por algum motivo, não se moviam corretamente.

Oliver Sacks supôs que talvez o cuidado excessivo por parte de sua família a havia privado do desenvolvimento de seus membros. Assim, ela iniciou um processo de reabilitação. No final, Madeleine tornou-se nada mais, nada menos, do que uma escultora.

Mão de um oleiro trabalhando

3. O homem que caiu da cama

Este caso da neurociência é sobre um transtorno estranho chamado somatognosia, que caracteriza-se pela incapacidade de reconhecer as partes do próprio corpo.

Um jovem sofreu uma experiência curiosa enquanto estava no hospital. Ele viu uma perna em sua cama que ele disse que não pertencia a ele, então ele tentou pegá-la e jogá-la para fora da cama. Ao fazê-lo, caiu da cama.

O jovem ficou aterrorizado com a experiência. Por alguma razão, ele pensou que sua perna esquerda estava amputada e que, portanto, a perna que via não lhe pertencia. Ele a sentiu longe de seu corpo e sentiu medo. Médicos o entrevistaram e, como ele não conseguia responder onde estava sua perna real, ele se batia insistentemente e tentava arrancar o membro que considerava estranho.

Este é um caso de perda de identidade com uma parte do corpo que, infelizmente, ainda não foi resolvido satisfatoriamente. Embora existam vários casos desse tipo, até agora se desconhecem as causas desse problema e a maneira como podemos ajudar essas pessoas.

Sacks, O. (2016). El hombre que confundió a su mujer con un sombrero. Anagrama.