Por que o cérebro social é uma vantagem evolutiva?

28 Agosto, 2020
O cérebro social é um dos nossos principais recursos para superar os desafios impostos pelo entorno. Por meio dele, podemos viver experiências únicas, como nos sentirmos acompanhados, protegidos ou valiosos para a sociedade.

O cérebro social é um conceito criado pela neurociência e se refere à capacidade inata de nos relacionarmos com os outros. Foi comprovado que existem circuitos cerebrais que estão envolvidos tanto na formação da autoconsciência quanto na habilidade empática.

O conceito de cérebro social é baseado na ideia de que existem várias áreas do cérebro diretamente ligadas às relações sociais. Isso ocorre no giro fusiforme, que permite que os rostos sejam armazenados na memória, nos neurônios-espelho, que tornam a imitação possível, e nos neurônios de Von Economo, que nos guiam diante de conflitos, etc.

Por outro lado, existe a capacidade de criar e usar a linguagem. Esse aspecto foi definitivo para a evolução do homem e está diretamente associado à necessidade de se relacionar com os outros. O cérebro social compreende dois grandes sistemas: neurônios-espelho e a teoria da mente. Vamos ver mais sobre isso a seguir.

Grandes descobertas e melhorias envolvem invariavelmente a cooperação de muitas mentes.”
-Alexander Graham Bell-

O cérebro social: por que é uma vantagem evolutiva?

O cérebro social e os neurônios-espelho

Os neurônios-espelho são um tipo especial de neurônios que são ativados quando ações ou expressões emocionais são observadas em outras pessoas. Ou seja, quando alguém contempla outra pessoa fazendo algo, é como se ele próprio o estivesse fazendo. De uma forma ou de outra, o ser humano se apropria dos sentimentos e emoções dos outros.

Os neurônios-espelho são encontrados principalmente no lobo frontal, uma região associada ao movimento e à sensibilidade ao toque; também no lobo parietal, que fornece imagem corporal e informações dos sentidos; e no córtex insular e cingulado, ambos relacionados às emoções e à dor.

Os neurônios-espelho causam o chamado “efeito de contágio”, que é um dos mecanismos fundamentais do cérebro social.

Como o nome indica, esse efeito faz com que as emoções e sentimentos dos outros sejam transmitidos de uma pessoa para outra, por meio de um mecanismo quase automático. Dessa forma, ela acaba imitando o que é percebido no ambiente.

A teoria da mente

O outro grande sistema que estrutura o cérebro social é a teoria da menteEsta é a capacidade de atribuir intenções ou pensamentos a outras pessoas, ou às vezes até mesmo a outras entidades. Essa função permite refletir sobre o seu estado mental e o dos outros, principalmente através dos sinais corporais.

Essa percepção de si mesmo e dos outros inclui emoções, sentimentos, crenças, etc. Por fim, permite-nos antever como será o nosso comportamento e o dos outros, diante de determinados acontecimentos. Em geral, essa habilidade não é exercida deliberadamente, mas intuitivamente.

Os neurônios-espelho e a teoria da mente são os dois grandes componentes do cérebro social, e seu produto mais acabado é a empatia. Esta é definida como a capacidade de compreender o outro nos seus próprios termos ou, em outras palavras, de se colocar no lugar dos outros.

Todos nascem com o potencial para desenvolver empatia, mas nem sempre isso é alcançado. Em condições “normais”, todos os seres humanos teriam a capacidade de se colocar no lugar do outro. No entanto, experiências individuais e a educação podem promover comportamentos antipáticos por meio de comportamentos pouco adaptativos, preconceitos, etc.

Integração com a natureza

A cooperação é um ato inteligente

Se os seres humanos vêm equipados para serem sociáveis, não é por capricho da natureza. A conexão com outras pessoas foi decisiva para a evolução da espécie. A linguagem é um dos produtos mais elaborados dessa evolução, e a sua função é justamente conectar os pensamentos e sentimentos de uma pessoa com outra.

Poderíamos dizer que o ser humano é um ser indefeso, com muito menos força e agilidade do que outros seres da natureza e com os sentidos precariamente desenvolvidos em comparação com os de outros animais. Se ele conseguiu enfrentar com sucesso um ambiente no qual não tinha maiores chances de sobrevivência, foi graças ao seu cérebro; isso, por sua vez, deve muito ao seu desenvolvimento social.

O que era verdade para os primitivos continua válido para o homem contemporâneo, embora, por enquanto, prevaleça uma sociedade com valores individualistas e utilitários. Está comprovado na vida cotidiana e na história dos povos que a cooperação é o meio mais usado para superar os problemas e chegar mais longe. É isso que a natureza nos convida a fazer através do cérebro social.

Valdizán, J. R. (2008). Funciones cognitivas y redes neuronales del cerebro social. Revista de neurología, 46(Supl 1), 64-68.