Colocar o outro em um pedestal o impede de ver quem você é

03 Outubro, 2020
A idealização costuma agir como um vírus silencioso. Um veneno capaz de terminar qualquer relacionamento aos poucos, ao mesmo tempo em que gera uma boa dose de sofrimento, tanto para o idealizador quanto para o idealizado.

A sensação de se conectar com alguém profundamente é tão mágica e gratificante que pode nos cegar. A plenitude que vivenciamos em certos laços afetivos, somada às nossas próprias carências e desejos, pode nos levar a distorcer a imagem que temos de certas pessoas. No entanto, colocar o outro em um pedestal é perigoso e prejudicial em vários níveis.

Cabe pensar que identificar, avaliar e destacar as qualidades positivas daqueles com quem partilhamos a vida seja benéfico. No entanto, se cairmos na armadilha de idealizá-los, de negar suas partes sombrias, nos impediremos de vê-los e de nos ver como realmente somos. Quando isso acontece, quando colocamos o outro em uma posição superior, a nossa própria expressão pessoal sofre. Vamos analisar o motivo.

Mulher apaixonada

O que quer dizer colocar o outro em um pedestal?

Nem sempre é fácil identificar quando estamos idealizando alguém. As sensações que sentimos por ter um conceito elevado do outro são aparentemente agradáveis ​​e positivas. Admiramos suas virtudes, gostamos da sua companhia e nos sentimos afortunados pela mágica coincidência dessa pessoa ter cruzado o nosso caminho. O problema surge quando esquecemos que, como todo mundo, essa pessoa é um ser humano e, portanto, imperfeito. 

Cometemos um erro quando alimentamos tanta idealização a ponto de obscurecer completamente a nossa capacidade de discernimento. Identificar onde os outros podem melhorar não significa que você vai parar de amá-los, pelo contrário; aceitar a pessoa com suas luzes e sombras melhora qualquer relacionamento. Nesse sentido, colocar o outro em um pedestal não ajuda.

A idealização nos relacionamentos

Com frequência, a idealização surge no âmbito dos relacionamentos românticos. Isso é causado pelas reações bioquímicas da paixão inicial. Porém, se tudo seguir seu curso natural, a passagem do tempo nos ajuda a conhecer nosso parceiro mais profundamente, transformando o relacionamento em um amor mais calmo e sincero, no qual o outro é visto com mais clareza.

No entanto, quem tem baixa autoestima, medo da rejeição ou abandono e, principalmente, os mais jovens, podem ficar “presos” nas cognições desse primeiro estágio. Ao idealizar o parceiro ou parceira, além de exagerar nas suas qualidades, atribuindo-lhe outras que na verdade não possuem, existe também uma cegueira quanto àqueles pontos que poderiam melhorar. Dessa forma, a pessoa adquire um ar de perfeição, infalibilidade e superioridade aos olhos de quem a idealiza.

Um dos grandes problemas da idealização é que ela pode gerar submissão. Se o outro aparentemente é “perfeito”, tudo o que ele diz ou pede deve ser lei e um ponto de segurançaIdealizar o parceiro também pode nos levar a focar excessiva e exclusivamente nele, deixando de lado outras áreas e aspectos importantes das nossas vidas.

A pessoa idealizada também sofre

Paradoxalmente, quem é idealizado também sofre, pois carrega nas costas as expectativas da outra pessoa, com a tarefa de completá-la e fazê-la feliz. Desse modo, a pessoa idealizada pode sentir que seu parceiro ou parceira não a conhece de verdade ou que dificilmente será um estímulo para fazê-la crescer.

Além disso, essa situação também pode ocorrer em relacionamentos que não são amorosos: trabalho, família, amigos, etc. Portanto, não é apenas o amor que pode ser prejudicado.

A pessoa idealizada também sofre

Como deixar de colocar o outro em um pedestal?

Então, se você detectou essa tendência na sua vida e quer deixar de colocar o outro em um pedestal, comece tirando os véus. Procure analisar as situações, conversas e ações de cada pessoa de forma objetiva.

Pergunte a si mesmo o que você realmente pensa e não tenha medo de discordar, não tenha medo de que qualquer uma das características ou atitudes do outro o desagrade ou pareça improvável. Se você o ama, permita que ele cometa erros e comece a vê-lo como um ser humano de carne e osso.

Da mesma forma, comece a se empoderar. Muitas vezes, o que nos desperta admiração e fascínio quando o enxergamos nos outros é exatamente o que desejaríamos para nós mesmos. Então, trabalhe em você mesmo, molde-se, cure-se e torne-se a sua melhor versão.

  • McNulty, J.K. & Karney, B. R., (2004). Positive Expectations in the Early years of Marriage: Should Couples Expect the Best or Brace for the Worst? Journal of Personality and Social Psychology. 86 (5), pp.729-743
  • Fernández Calixto, M. C. (2015). El proceso de idealización en las relaciones de pareja-una revisión de la literatura (Bachelor’s thesis, Uniandes).