Meu coração vai por um lado e minha vida por outro

Meu coração vai por um lado e minha vida por outro

novembro 5, 2016 em Emoções 4 Compartilhados
Meu coração vai por um lado e minha vida por outro

Todos deveríamos ouvir a voz do coração. A verdade é que nenhum de nós pode ser absolutamente coerente todos os dias e o tempo todo. Somos habitados por contradições porque amamos e odiamos ao mesmo tempo, porque somos corajosos e ao mesmo tempo fugimos, porque somos bons e ao mesmo tempo ferimos. Contudo, conseguimos lidar com essas contradições de forma que construímos um jeito de ser e de viver mais ou menos consistente.

Para algumas pessoas não é possível construir essa base mínima de coerência. Vivem como não desejam viver. Trabalham como não desejam trabalhar. Amam como não querem amar. Nesses casos, existe uma forte dicotomia entre o que a pessoa sente no coração e o que de fato pratica com seus atos. É como se vivessem uma existência emprestada.

“A minha coroa está no meu coração, não na minha cabeça.”
– William Shakespeare-

São muitos os casos. Pessoas que não amam seus companheiros mas mantêm um relacionamento apesar de tudo. Gente que vai todos os dias ao seu trabalho e a única coisa que almeja desesperadamente é a hora de ir embora dali. Também há aqueles que escolheram uma profissão que detestam ou aqueles que aparentam o tempo todo gostar das pessoas ao seu redor, quando na verdade gostariam de vê-las desaparecer.

Obviamente, todos temos dias ou etapas nas quais odiamos um pouco a forma como vivemos. Em certos momentos perdemos o gosto pelo trabalho, nos sentimos distantes da pessoa amada, ou ficamos cansados de tudo que nos rodeia. Mas quando, em resumo, estamos conectados à vida do fundo do coração, esses episódios são passageiros e são superados com relativa facilidade.

Quando o coração não está conectado com a vida

Certamente muitas pessoas que não conseguem experimentar a vida a partir do seu coração dirão que isto é por causa de alguma limitação externa. Se odeiam o seu trabalho, mas permanecem ali, argumentarão que as contas no fim do mês não esperam e que seria muito difícil conseguir um novo trabalho. Contudo, também não procuram trabalho nem fazem nenhum tipo de esforço para sair de um emprego que dizem detestar.

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Isto é ainda mais freqüente nos relacionamentos amorosos. Certamente você conhece alguém que mantém uma queixa constante com relação ao seu companheiro e continua fazendo isso durante anos e anos. Se você disser para deixar essa pessoa, responderá que algum dia o fará, ou que não pode fazê-lo por causa das crianças, do financiamento compartilhado ou por causa das convicções religiosas.

É quando qualquer pessoa se pergunta: Se é impossível superar essa situação, por que então não procurar alguma forma de se adaptar a ela? E se é possível superá-la, por que não fazer o necessário para acabar com esse suposto tormento?

É nesses casos que o coração vai por um lado e a vida vai por outro. A pessoa sofre e se sente presa, mas não enxerga um jeito de sair desse labirinto. Ou acha que “a vida é assim” e precisa ser aceita; ou pensa que não é capaz de fazer uma mudança. No fundo, o que opera é uma força inconsciente que ela desconhece.

Os mandamentos inconscientes

Quase todos pensamos que nossos motivos para agir são completamente claros, apesar de muitas vezes darmos respostas vagas a pessoas que nos perguntam por que fazemos o que fazemos. O fato é que a mente humana é muito mais complexa do que isso. Parece que existe uma ampla zona desconhecida para nós mesmos, onde se alojam os motivos mais profundos e autênticos do que fazemos.

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Desde que nascemos estamos sujeitos ao desejo dos outros. Nossos pais constroem um significado consciente para a nossa existência, mas também depositam expectativas e desejos inconscientes em nossas vidas.

Uma mãe deprimida, por exemplo, transmite o amor que consegue dar, mas também uma certa áurea cinza em torno de tudo que acontece. Um pai distante dá amor do seu jeito, mas também se transforma em um fantasma inatingível ao qual se quer agradar e aproximar tirando boas notas, ou sendo “muito ajuizado”, ou criando problemas em qualquer lugar.

Se o seu coração vai por um lado e a sua vida por outro, o que acontece é que existe uma contradição entre o seu desejo consciente e o seu desejo inconsciente. Provavelmente você vive como alguém deseja, ou desejou, que você vivesse. Esse alguém, certamente, é um dos seus pais ou as figuras relevantes da sua infância.

E você deseja agradá-las, mas no fundo sabe que age motivado por um desejo alheio. Contudo, alguma coisa dentro de você o impede de se rebelar e reclamar uma vida genuína, feita de acordo com seus próprios desejos. Essa alguma coisa é o medo infantil de perder o amor das pessoas das quais, inconscientemente, você continua dependente.

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No íntimo de cada um de nós habita uma criança desprotegida que faria o que fosse necessário para não perder o amor, a atenção e o cuidado dos seus pais. Alguns aprendem a reconhecer os recursos que têm para criar uma vida individual longe dessas sombras.

Outras, por outro lado, continuam gravitando ao redor de um conflito inconsciente não resolvido com algum dos seus progenitores. Crescem, estudam, trabalham e se tornam médicos ou até presidentes. Mas sentem que não são eles mesmos.

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