Crianças com mais autocontrole se tornam adultos mais felizes

Educar as crianças no controle dos impulsos desde a mais tenra idade permitirá que se tornem adultos que regulam melhor o seu comportamento, se relacionam melhor e trabalham de forma mais apropriada para atingir os seus objetivos.
Crianças com mais autocontrole se tornam adultos mais felizes

Última atualização: 18 Novembro, 2021

Crianças com mais autocontrole não são apenas mais maduras, mas também têm uma maior probabilidade de se tornarem adultos felizes. A verdade é que, às vezes, negligenciamos a grande relevância que o desenvolvimento do controle dos impulsos tem para a mente da criança. Essa habilidade complexa favorece absolutamente todas as áreas do ser humano.

Além disso, há outro fato não menos interessante. O autocontrole é uma dimensão que começa a se desenvolver desde o primeiro ano de vida até os 26-30 anos. O córtex pré-frontal humano não termina seu desenvolvimento antes dos 20 anos. Isso significa que a regulação dos impulsos é, possivelmente, a área de maturação mais lenta.

Algo assim tem, como bem podemos imaginar, múltiplas conotações. Se não começarmos a educar as crianças desde cedo nessa habilidade, elas chegarão à adolescência com sérios problemas de comportamento e de regulação emocional. Iniciá-los hoje no autocontrole correto é investir na sua qualidade de vida.

“A saúde pessoal está relacionada ao autocontrole, o autocontrole traz felicidade, juventude renovada e vida longa”.
-Maria Montessori-

Menina brincando com carros

Por que as crianças com mais autocontrole se tornam adultos felizes?

A maioria de nós já ouviu falar do experimento com marshmallows conduzido na Universidade de Stanford em 1972. Essa pesquisa consistiu em analisar o autocontrole das crianças por meio de um teste simples. As crianças podiam escolher entre uma recompensa pequena, mas imediata, ou duas pequenas recompensas se conseguissem não comer aquele marshmallow por um determinado período de tempo.

Naquela época, dizia-se que, mais do que a própria força de vontade, o que regulava o autocontrole era a origem social e econômica. Em um novo estudo de 2020, realizado em colaboração com várias universidades, como Harvard e Columbia, essa conclusão foi refutada. Agora, sabemos que o controle dos impulsos faz parte do processo de maturação e do desenvolvimento do cérebro.

A educação precoce e o papel dos pais para favorecer a regulação são fundamentais. E aqui não importa a origem social ou a econômica, importa o compromisso com a educação dos próprios filhos. Desta forma, se você tem um filho de 3 anos que agride os outros e nada é feito a respeito, ele continuará a fazê-lo na escola primária e secundária.

Se não educarmos sua resistência à frustração, ele se tornará um adolescente bravo (e infeliz) porque não consegue tudo o que deseja. A capacidade de gerenciar impulsos, emoções e comportamentos constitui a base do bem-estar psicológico de todas as crianças.

O controle dos impulsos nos permite retardar o envelhecimento do cérebro

Um estudo muito recente publicado na revista PNAS e realizado em colaboração com as universidades de Michigan, Duke, Universidade de Oslo, King’s College London e outras de grande relevância, revelou uma série de dados muito interessantes sobre este assunto.

  • Em primeiro lugar, concluiu-se que crianças com mais autocontrole tornam-se adultos mais satisfeitos e com uma melhor qualidade de vida.
  • Além disso, algo muito notável pôde ser visto: o controle dos impulsos reduz a deterioração cognitiva relacionada à idade. As pessoas de 45 anos mal mostravam os sinais clássicos do início do envelhecimento cerebral.
  • Agora, a que poderia ser atribuída essa saúde cerebral melhor? Os pesquisadores a associaram ao estilo de vida. O autocontrole favorece, acima de tudo, o poder de tomar decisões mais ponderadas. Algo assim impacta a vida profissional, financeira e relacional. A regulação do comportamento e das emoções influencia diretamente todas as áreas do cotidiano, como as relações afetivas e também a maneira como resolvemos problemas.

O autocontrole faz parte das funções executivas, ou seja, processos que visam regular o próprio comportamento. Também é interessante saber que esta dimensão compartilha a mesma região do cérebro que a empatia.

Crianças felizes

Crianças com mais autocontrole são mais empáticas

Os dados são fascinantes. Sabemos que a mesma parte do cérebro que nos permite nos colocar no lugar dos outros (ter empatia) também nos ajuda a regular os impulsos. Também vemos isso em crianças com mais autocontrole. Quando as educamos desde cedo nesta habilidade, elas se relacionam muito melhor com seu ambiente social.

Elas se integram de forma mais madura e feliz com seu entorno e com seus pares, podem se colocar no lugar do outro e conter emoções como inveja, raiva e frustração. Esses fatores são pilares para uma boa saúde psicológica, motores para a resolução de problemas, chegar a acordos, ser respeitoso, promover a convivência, etc.

“Eu considero aquele que vence seus desejos mais corajoso do que aquele que vence seus inimigos; porque a vitória mais difícil é sobre si mesmo”.
-Aristóteles-

Por último, mas não menos importante, deve-se ter em mente que o autocontrole não tem nada a ver com inteligência ou origem socioeconômica, como destacado no estudo de 72 da Universidade de Stanford. Crianças com mais autocontrole são consequência de uma educação comprometida e focada neste fator. Assim, lembremos que essa variável deve ser trabalhada e regulada diariamente, mesmo na idade adulta.

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