A definição de força segundo Erich Fromm: o caminho para a plenitude

04 Fevereiro, 2021
Ser forte é ter coragem para viver. Erich Fromm nos ensina que não há aspiração maior que a de alcançar essa plenitude tendo convicção para desafiar os medos e coragem para construir uma sociedade mais humana e altruísta.

A definição de força, de acordo com Erich Fromm, nos propõe uma reflexão que todos deveríamos fazer. Em um mundo complexo de tendências destrutivas, numa sociedade altamente tecnológica como ele havia previsto, a única esperança é nos desenvolvermos. E esse desenvolvimento implica atingir a plenitude na forma de responsabilidade, de liberdade e de autoconhecimento.

Pioneiro do que ele próprio chamou de psicanálise do humanismo radical, Fromm foi um filósofo e psicólogo social cujo conteúdo deve ser lido periodicamente. Não apenas continua sendo uma das mentes mais iluminadas da nossa modernidade, mas também continua na liderança da luta intelectual para dar forma a um tipo de sociedade altruísta orientada a valores mais solidários.

Psicanalista de origem judaico-alemã, Fromm foi além das teorias freudianas, apostando numa perspectiva mais ampla, sensível e também crítica ao analisar o estado geral da humanidade e seus problemas. Ele não criou um tipo de terapia para tratar a dor e o sofrimento das pessoas, como Viktor Frankl, por exemplo.

Entretanto, Fromm foi e sempre será uma voz de consciência que nos incentiva avaliar a situação na qual nos encontramos e, em seguida, aquilo que aspiramos. A sua ideia de força humana é uma das mais interessantes. Vamos analisá-la.

“A total humanização requer o avanço da nossa força e do nosso desenvolvimento para passarmos do egoísmo à solidariedade e ao altruísmo.”
-Erich Fromm-

Erich Fromm

Qual é a definição de força segundo Erich Fromm?

A definição de força aparece em várias de suas obras mais famosas. Uma delas, a mais interessante, é A revolução da esperança. Neste livro, ele fala da necessidade de nos transformarmos em ativistas da humanidade; pessoas capazes de reivindicar valores que desafiem os traços da sociedade e da era tecnológica.

Para entender essa perspectiva, devemos estabelecer o contexto. Erich Fromm se viu obrigado a fugir da Alemanha em 1934, após a tomada do poder pelo partido nazista. Grande parte da sua abordagem surgiu a partir do horror e do absurdo da Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, ele imigrou para os Estados Unidos, onde liderou vários movimentos pacifistas, se opondo à guerra do Vietnã e declarando-se um idealista de um socialismo radical e humanista.

Durante boa parte de sua vida, ele se sentiu decepcionado com o tipo de sociedade em que viveu, primeiro na Alemanha dos anos 30 e, depois, nos Estados Unidos da época de Nixon. Em seu livro A revolução da esperança, Fromm encoraja as pessoas a serem capazes de iniciar uma transformação individual para criar uma mudança de paradigma em nossas sociedades tecnológicas. Uma destas mudanças vinha da necessidade de aprendermos a ser fortes.

Há três formas de força (e nem todas são boas)

A definição de força, segundo Erich Fromm, nos direciona a duas coisas: a primeira é nos comprometermos com a esperança e a fé. A segunda é sabermos reagir diante da violência, da submissão, do absurdo e do egoísmo. A partir disso, é percebida a necessidade de aprendermos a ser responsáveis, tanto por nós mesmos quanto pelo compromisso que temos com a sociedade.

É interessante, também, que Fromm diferencia três tipos de força, sendo que duas delas não nos servem, pois não nos ajudam a progredir nem a alcançar a felicidade. São elas:

  • Existem pessoas que demonstram um senso de força que é baseado na violência, no gosto por enfrentar desafios para demonstrar seu próprio valor (e egoísmo);
  • Há também quem revela um tipo de força surgida a partir de imposições de figuras de autoridade. Ou seja, há vezes em que agimos coagidos ou por consequência do medo.

Por último, temos a ideia central na teoria de Fromm sobre o tipo de força a que deveríamos aspirar. Esse é um estado de destemor no qual favorecemos nosso desenvolvimento para transformar a sociedade com otimismo, fé e esperança.

“O objetivo de viver é crescer de maneira otimizada para nos tornarmos aquilo que temos o potencial de ser. Se uma pessoa tem vontade e determinação de abandonar as grades da prisão do narcisismo e do egoísmo, quando ela tem coragem para tolerar a ansiedade intermitente, acaba experimentando os primeiros lampejos de alegria e força.”
-Erich Fromm-

Folhas de outono

A definição de força, segundo Erich Fromm, nos encoraja a alcançar a plenitude

A definição de força proposta por Erich Fromm nos lembra muito o pensamento de Espinoza. De acordo com o filósofo holandês de origem sefardita, ser forte pouco tem a ver com resistência física ou mesmo com coragem. A força é uma virtude que se relaciona com a firmeza e a generosidade.

  • Fromm pega essa ideia e adiciona o conceito da fé como o compromisso que a pessoa deve assumir com seu próprio progresso e com o progresso da sua sociedade. Algo que ele nos ensinou em seu livro A revolução da esperança é que o ser humano carrega uma crosta de desesperança e resignação. Essa combinação é perigosa, pois a resignação implica o cativeiro, a perda de liberdade e a submissão;
  • Precisamos de impulso, fé e entusiasmo. Assim como explicado no livro Ter ou ser?, é preciso ativar a alegria e a espontaneidade;
  • A definição de força, segundo Erich Fromm, nos incentiva ao autodesenvolvimento, a conhecermos a nós mesmos para conseguir a iluminação com que sentimos a plenitude. É nesse momento, quando nos tornamos pessoas destemidas, que a porta de outra dimensão excepcional é aberta: a da ousadia.

A ousadia implica se desvincular de ídolos, correntes e pensamentos irracionais para lutar por valores autênticos com os quais podemos criar uma sociedade mais justa, altruísta e solidária. Que tal pensarmos nisso?

  • Fromm, Erich (2018) La revolución de la esperanza.  Fondo Cultura Económica
  • Fromm, Erich (1992) Del tener al ser. Barcelona. Paidós.
  • Fromm, Erich. (2007) El humanismo como utopía real,  la fe en el hombre. Buenos Aires. Paidós.
  • Fromm, Erich. (2002) Anatomía de la destructividad humana. Buenos Aires. Paidós.