Diferenças entre demência cortical e subcortical

14 Maio, 2020
Nem todas as demências são iguais. Sua gravidade e seu agravamento dependem, fisiologicamente, da sua localização. Assim, demências localizadas em áreas corticais não terão o mesmo impacto em uma pessoa do que aquelas que se encontram em áreas subcorticais.
 

Existem diferentes tipos de demência. A seguir, vamos explicar quais são as principais diferenças entre a demência cortical e a subcortical.

Quando falamos de demência, nós nos referimos a um comprometimento cognitivo global progressivo. Ao contrário do que muitas pessoas podem pensar, o envelhecimento não é a causa das doenças neurodegenerativas, e embora haja comorbidade, não há causalidade.

De fato, 30% das pessoas com Parkinson têm demência, mas os 70% restantes não têm. Então, nem todas as demências são iguais? Exatamente. Existem dois tipos de demência, que são associados a diagnósticos diferentes. Por isso, neste artigo vamos falar sobre as diferenças entre a demência cortical e a subcortical.

Durante a primeira metade do século XX, demência equivalia a comprometimento intelectual progressivo. Em 1987, a APA (Associação Americana de Psicologia) estabeleceu um critério diagnóstico: o comprometimento cognitivo precisava aparecer acompanhado por um comprometimento na memória e, pelo menos, um dos seguintes déficits: afasia, apraxia ou agnosia.

Em 2012, o termo demência foi suprimido, sendo substituído por transtorno neurocognitivo.

Mulher idosa olhando pela janela
 

O mal de Alzheimer: a demência cortical

As diferenças entre a demência cortical e a subcortical começam pela localização da doença. No mal de Alzheimer, o protótipo de demência cortical, existe um predomínio cortical temporoparietal (Gustafson, 1992). Por isso, essas demências geralmente apresentam déficits na memória de curto prazo, na memória episódica e na fluidez verbal.

O mal de Alzheimer, no entanto, não é a única demência cortical que existe. Também encontramos a demência por doença de Pick ou a demência com corpos de Lewy, sendo esta última a terceira causa de demência, atrás da demência por doença de Alzheimer e da demência vascular.

Características da demência cortical

Vamos tomar o mal de Alzheimer como referência para explicar algumas das consequências que uma demência cortical pode ter na cognição de quem a sofre. Podemos destacar:

  • Problema na memória de curto prazo: a memória de curto prazo, que não envolve praticamente nenhuma operação cognitiva, se mostra deficitária. Testes como a extensão de dígitos apresentam resultados que refletem um comprometimento que, muitas vezes, está relacionado com a gravidade da demência.
  • Comprometimento da memória episódica: dentro da memória de longo prazo, encontramos nas demências corticais uma alteração da memória episódica. Essa é uma das características mais representativas da demência cortical. É a memória relacionada com a retenção de acontecimentos autobiográficos registrados na vida da pessoa.
 
  • Fluidez verbal dentro da memória semântica: também dentro da memória de longo prazo, temos as dificuldades na fluidez verbal, ou seja, as pessoas que apresentam demências corticais podem achar difícil restringir palavras a uma categoria semântica. Por exemplo, se pedirmos para que digam palavras que possam estar incluídas na categoria “animal”, não realizam essa tarefa tão bem quanto se pedíssemos para falarem palavras com uma letra específica. Isso acontece porque esta última tarefa está relacionada à fluidez verbal fonológica, e não à semântica.
  • Problemas para nomear: entende-se, a partir de seus problemas na fluidez verbal, que os pacientes com demências corticais apresentam problemas para nomear objetos. Por isso, tarefas como as associações semânticas (tigre e leão, ou cachorro e gato) não têm bons resultados.

O mal de Parkinson: a demência subcortical

Nas diferenças entre a demência cortical e subcortical, temos o fato de que a demência subcortical se desenvolve em áreas como os gânglios basais e o hipocampo.

Existem alterações cognitivas visto que a área pré-frontal está fortemente conectada a áreas subcorticais, e um problema nestas últimas implica uma desativação funcional do córtex.

As demências subcorticais, por antonomásia, são a doença de Huntington e o mal de Alzheimer. No entanto, a demência nem sempre aparece nessas duas doenças. De fato, apenas entre 20 e 30% dos pacientes com mal de Parkinson apresentam critérios diagnósticos suficientes para diagnosticar uma demência.

 

Os critérios da demência subcortical

Vamos tomar como modelo, nesta seção, as doenças de Parkinson e de Huntington para expor as principais características da demência subcortical. Algumas delas são:

  • Lentidão motora: uma das principais características da demência subcortical, diferentemente da cortical, é a presença de um transtorno motor grave, caracterizado pela lentidão motora e a perda de equilíbrio. Apesar de lembrarmos da doença de Parkinson ou Huntington pelo tremor em repouso ou pela coreia, respectivamente, a verdade é que ambas as demências subcorticais envolvem hipocinesia (menor mobilidade), acinesia (imobilidade) e bradicinesia (movimentos lentos). Isso também é observado nos traços inexpressivos, pois também se perde a mobilidade do rosto.
  • Alterações emocionais: nas demências corticais podem ocorrer alterações emocionais devido à própria aceitação da doença. No caso das demências subcorticais, essas mudanças insidiosas na personalidade podem ocorrer anos antes de a demência começar a se manifestar. Essas pessoas podem parecer irritadas, apáticas ou apresentar desinteresse sexual, entre outros.
  • Alterações na memória: nas demências subcorticais, existe um déficit básico na recuperação. A grande diferença em relação às demências corticais é que nas subcorticais a capacidade de aprender novas informações é mantida durante muito tempo.

Nível de gravidade

Sem dúvida, as diferenças entre a demência cortical e a subcortical são notáveis. No entanto, a grande diferença que podemos encontrar é a gravidade de ambas e seu impacto no dia a dia da pessoa. Embora não tenha sido exposta a totalidade das alterações em ambos os tipos de demência, podemos observar um comprometimento cognitivo menor nas demências subcorticais do que nas corticais.

 

As diferenças não se limitam à quantidade de comprometimento cognitivo. Elas também se baseiam na ausência, no caso das subcorticais, de afasias, agnosias e apraxias, que ocorrem na demência cortical.

Mulher cuidando da mãe com demência

Conclusões

A título de resumo, parece necessário relembrar que as grandes diferenças entre as demências corticais e subcorticais residem nas capacidades executivas centrais, na memória e na linguagem. Na cortical, as capacidades executivas, como o planejamento e a resolução de problemas, são conservadas, ao mesmo tempo em que há uma amnésia grave e uma linguagem com traços afásicos.

Nas demências subcorticais, por sua vez, há capacidades executivas bastante alteradas desde o início, uma memória com esquecimentos leves e uma linguagem sem afasias, talvez com uma produção excessiva. Ambas as demências convergem nas capacidades perspectivas e visuoespaciais. Nos dois casos, há alterações nesses aspectos.

 

Sevilla, C. y Fernández C. Capítulo 20: Demencias, clasificación etiológica y diferenciación cognitiva.