A desestigmatização da doença mental

maio 7, 2019
A desestigmatização da saúde mental vai além das políticas públicas. Para alcançá-la, devemos nos esforçar para derrubar mitos.

O bem-estar psicológico está associado a uma grande diversidade de mitos negativos. Combater essa tendência passa pela desestigmatização da doença mental. Assim, eliminados os estigmas e possíveis mitos associados, teremos outro ponto de vista mais saudável e mais compreensivo, livre de preconceitos.

É uma abordagem que abandona a visão da saúde mental a partir de uma perspectiva patológica. Ou seja, recusa-se a enfatizar a doença e os aspectos negativos associados a ela. Para isso, é necessária uma abordagem completamente diferente da situação.

A seguir, explicaremos o que é a desestigmatização da doença mental, quais são os agentes mais importantes nesse processo, os desafios que precisamos enfrentar para demolir os mitos, a origem da estigmatização e, finalmente, como promover a desestigmatização. Vamos nos aprofundar.

Desestigmatização da doença mental: do que se trata?

A desestigmatização da doença mental supõe a adoção de uma nova perspectiva e o abandono de preconceitos e atitudes discriminatórias. Trata-se, basicamente, de ver a saúde mental de uma maneira diferente.

Portanto, falar em desestigmatização é dar importância ao que a saúde mental realmente significa e, ao mesmo tempo, reconhecer os distúrbios associados a partir de outros pontos de vista.

Mulher deprimida cobrindo os olhos

Origem da estigmatização da doença mental

A estigmatização da doença mental se desenvolveu ao longo do tempo por meio de vários mecanismos. Naturalmente, a origem é o resultado de medos, mitos e estereótipos que juntos levaram à discriminação e rotulagem daqueles que sofriam de um problema de saúde mental.

Desde os tempos antigos já haviam sido estabelecidas diferenças entre os problemas de saúde. Os problemas de saúde mental eram vistos de maneira diferente de outros problemas de saúde. Às vezes, eram percebidos como algo negativo (por exemplo, no Renascimento, foi associado ao demoníaco) e em outras, como algo positivo associado à genialidade de um autor. Para resumir, a percepção da saúde mental sempre esteve ligada ao seu contexto histórico.

É importante ter em mente que uma das consequências da estigmatização das doenças mentais tem sido a marginalização das pessoas que sofrem com isso.

A saúde física sempre teve mais destaque do que a saúde mental ao longo do tempo. No entanto, pouco a pouco descobriu-se a importância dos aspectos psicológicos nos problemas físicos e como eles estão relacionados. Além disso, não podemos esquecer que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, a saúde em geral abrange o bem-estar psíquico, social e físico.  

Diante dessa problemática, diferentes órgãos de saúde têm sido responsáveis por incutir a importância do bem-estar mental como parte fundamental da saúde das pessoas. Assim, progressivamente a saúde mental começou a ser vista de uma perspectiva diferente. No entanto, a estigmatização ainda persiste.

Quais são os desafios?

Para deixar de haver estigmas associados à doença mental, devemos começar por quebrar alguns mitos falsos:

  • A saúde mental não é importante. A saúde tem uma natureza multidimensional. Se prestarmos atenção a cada uma de suas áreas e nos esforçarmos para que estejam da melhor maneira possível, conseguiremos uma melhor qualidade de vida.
  • Todos os doentes mentais são gênios. Este mito vem da época em que se acreditava que a loucura expressava a genialidade de um autor. No entanto, este não é o caso, uma vez que cada ser é diferente e existem aqueles que são gênios e aqueles que não são.
  • As pessoas que sofrem de transtornos mentais são agressivas, instáveis ​​ou perigosas. Embora os transtornos mentais afetem o nosso comportamento, emoções e pensamentos, nem todas as pessoas com transtorno mental têm essas características. Elas podem passar por períodos em que essas características fiquem evidentes, mas não é algo que acontece o tempo todo, nem em todos os transtornos nem para todas as pessoas.
  • A saúde mental não influencia a saúde física. Diferentes aspectos da saúde mental podem ter um forte impacto na saúde física, uma vez que ambos estão relacionados. O exemplo mais claro é o estresse.
  • Você é a sua doença. Muitas vezes, a pessoa com uma doença é rotulada como se a doença fosse a sua identidade, já que o restante das pessoas a percebe apenas nesses termos. Elas não enxergam além da depressão ou da esquizofrenia e interagem sempre considerando a doença mental como algo prejudicial.

Derrubar os mitos

Como podemos ver, esses mitos, resultado da ignorância, podem levar a atitudes de discriminação social. Seja porque a ideia de temer pessoas com doença mental é perpetuada ou porque se acredita que a saúde mental não é importante.

Assim, se promovermos campanhas de prevenção e promoção da saúde mental, será muito mais fácil derrubar os mitos que acompanham essa situação. Dessa forma, alcançaremos a desestigmatização da doença mental. Para isso, precisaríamos de:

  • Empatia: nos colocarmos no lugar do outro nos ajudará a ver como essa pessoa está e a não nos deixarmos levar por estereótipos e preconceitos.
  • Compreensão: ver além do que pensamos em um primeiro momento, estar aberto a novas perspectivas de saúde e tentar entender como um problema mental funciona facilitará a adoção de uma nova visão sobre o assunto.
  • Trabalho em equipe: por meio do trabalho em grupo, realizado a partir de diferentes disciplinas, poderemos estar mais próximos de entender a saúde a partir de uma perspectiva multidimensional e não apenas física. Os maiores desafios são baseados em ver pessoas com doenças mentais como pessoas normais, sem a necessidade de associá-las ao perigo.

Agora, também precisamos entender que a saúde é um conceito global no qual diversos fatores interagem, nenhum dos quais deve ser excluído. Portanto, devemos tentar evitar sermos infectados pela opinião social e ajudar a derrubar esses mitos baseados no nosso conhecimento.

Homem com quadro de depressão

Agentes na desestigmatização da saúde mental

Para que haja uma verdadeira desestigmatização da doença mental, diferentes agentes devem participar:

  • Organizações: realização de campanhas de prevenção e promoção da saúde mental, implementando também políticas e trabalhos nas comunidades para entender o problema.
  • Pessoas com problemas de saúde mental e suas famílias. Promover a saúde mental como um tema para todos e demolir os mitos sobre isso.
  • Profissionais de saúde mental: explicar às pessoas em que consiste a saúde mental.

Como promover a desestigmatização da doença mental?

Para que haja uma redução na estigmatização das doenças mentais e finalmente chegarmos a uma situação de desestigmatização, é necessário trabalhar em vários setores.

A este respeito, López e colaboradores sugerem em seu artigo publicado no Jornal da Associação Espanhola de Neuropsiquiatria a proposta de “uma estratégia complexa para um problema complexo”, ou seja, agir através de intervenções nos seguintes pontos:

  • Os meios de comunicação. O objetivo seria promover o conceito de saúde mental a partir de uma perspectiva mais realista e positiva para o maior número de pessoas possível.
  • Diagnósticos: que o uso das categorias diagnósticas seja razoável, para não cair em rótulos.
  • Sistema de saúde: requer cuidados de saúde eficazes que promovam a saúde e a prevenção de doenças mentais.
  • Atenção integrada à pessoa, a partir de diferentes sistemas e enfatizando tudo o que é equivalente a saúde para o ser humano.
  • Sistemas de apoio, contato e interação social. Para que os mitos sejam esclarecidos e haja um tratamento adequado para as pessoas com doença mental.
  • Medidas legais: enfrentar processos de discriminação e violência relacionados à patologia mental.

Embora o uso de políticas e a transmissão de informações de maneira assertiva seja importante, essas medidas, por si só, não garantem mudanças duradouras. Portanto, dentro de cada pessoa devem emergir o apoio e a compreensão necessários para acabar com esta situação. A desestigmatização da saúde mental é assunto de todos.

  • Balasch, M., Caussa, A., Faucha, M., & Casado, J. (2016). El estigma y la discriminación en salud mental en Cataluña. Barcelona: Apunts.
  • López. M. Laviana, M. Fernández, L., López, A., Rodríguez, A. M., & Aparicio, A. (2008). La lucha contra el estigma y la discriminación en salud mental. Una estrategia compleja basada en la información disponible. Revista de la asociación Española de neuropsiquiatría, 28 (1), 48-83.