Como detectar o engano, segundo Paul Ekman

março 30, 2020
É possível detectar o engano? Vamos brincar de detetive seguindo as pesquisas de Paul Ekman.

As emoções são um mundo interessantíssimo. Elas chamam tanto a nossa atenção que foram estudadas a partir de diferentes perspectivas. A psicologia talvez seja uma das mais importantes. Nesse contexto, um dos temas estudados foi como detectar o engano.

A seguir, vamos explicar a que nos referimos quando falamos em engano e como detectá-lo segundo o psicólogo Paul Ekman. Como ponto de partida, vamos ver a biografia desse psicólogo tão singular.

Paul Ekman, um dos psicólogos mais importantes da atualidade
Paul Ekman

Quem é Paul Ekman?

Paul Ekman é um dos psicólogos mais importantes na atualidade. A Associação Americana de Psicologia o premiou pela relevância e profundidade das suas contribuições. As mais notáveis são relacionadas às emoções e às microexpressões faciais.

Além disso, ele recebeu vários prêmios por suas pesquisas científicas, como o Eureka, voltado para a comunicação da ciência, e o William James. Ekman também participou de um documentário com a BBC e foi inspiração para séries como “Engana-me se puder” (“Lie to me”, título original).

Ele nasceu em 15 de fevereiro de 1934, nos Estados Unidos. É considerado um dos psicólogos mais influentes do século XX. Foi professor de Psicologia da Universidade da Califórnia e assessor do Departamento de Defesa dos Estados Unidos e do FBI.

Escreveu livros de divulgação científica, como A natureza da emoção (The nature of emotion). Além disso, em seu trabalho de divulgação, escreveu vários artigos para jornais e revistas. Atualmente, sua pesquisa continua em andamento, dando destaque ao estudo da mentira.

O que queremos dizer com o termo ‘engano’?

O engano, segundo o dicionário, é “dar à mentira uma aparência de verdade, ou levar alguém a considerar certo o que não é, valendo-se de palavras ou de obras aparentes e fingidas”.

No entanto, para saber do que se trata, é preciso entender que, segundo Ekman, existem seis emoções básicas: a felicidade, o medo, o nojo, a raiva, a surpresa e a tristeza.

Cada emoção está associada a uma linguagem não verbal, uma comunicação que tem um reflexo especial na nossa mímica facial. Acontece que, embora as pessoas se expressem mais verbalmente, elas também vão manifestar uma linguagem não verbal associada à forma como se sentem. Sentir-se enganado e enganar não são exceções; podemos expressar essas ações nos dois níveis.

Como detectar o engano?

Para Paul Ekman, não somos muito bons inibindo as expressões faciais quando nos emocionamos. Além disso, nossos gestos faciais são especialmente delatores.

Portanto, a detecção do engano seria possível graças à identificação e à interpretação das expressões faciais. Nós também nos comunicamos por meio de outras partes do corpo, mas a mais reveladora, segundo esse autor, é o rosto.

Vamos ver alguns indícios faciais do engano:

  • O rosto pode conter uma mensagem dupla. O que o mentiroso quer mostrar e aquilo que deseja ocultar.
  • As expressões genuínas não são de controle voluntário. Portanto, é mais fácil detectar o engano se soubermos identificá-las.
  • Variações na aparência dos olhos. Essas variações são produzidas pelos músculos que estão ao redor do globo ocular, modificando a forma das pálpebras, a parte visível da íris e a quantidade de branco dos olhos. Com isso, a impressão geral ao olhar nos olhos também muda.
  • A direção do olhar. Quando as pessoas sentem culpa ou vergonha, elas tendem a desviar o olhar.
  • Piscar de olhos. A frequência aumenta quando as pessoas sentem uma emoção.
  • Tempo. A duração da expressão facial é fundamental para detectar o engano. Se as expressões durarem mais de 10 segundos, é mais provável que não sejam verdadeiras.

Também é possível tomar como referência outros fenômenos para detectar o engano: os sorrisos falsos, a sincronização, a dilatação das pupilas, a ativação dos músculos faciais fidedignos e o rubor.

No entanto, por meio das palavras, da voz e do corpo, também é possível detectar o engano. As pessoas que enganam costumam prestar mais atenção nas palavras que utilizam, investindo mais recursos nessa missão e se descuidando de outros aspectos, como a mímica.

O tom da voz, as pausas e os erros verbais nos ajudam a saber se estamos sendo enganados. Nesses aspectos, podem aparecer elementos que não sustentem a mensagem transmitida pelas palavras.

Todos nós já tivemos a sensação de que algo não estava se encaixando na história que estávamos ouvindo, algo que nos deixasse em alerta, embora não soubéssemos o quê. Isso ocorre porque uma boa parte da análise do comportamento não verbal se dá de maneira inconsciente.

Por outro lado, vimos que o engano está vinculado à mentira. Para defini-la, no livro Como detectar mentiras. Um guia para utilizar no trabalho, na política e na família (Cómo detectar mentiras. Una guía para utilizar en el trabajo, la política y la familia), Ekman defende que é preciso considerar tanto o mentiroso quanto o destinatário.

Existe mentira quando o destinatário não tiver pedido para ser enganado e quando quem fala não tiver avisado previamente que a sua intenção é mentir.

Pessoa cruzando os dedos ao mentir

Tecnologia para detectar o engano

Outro detector de enganos é o polígrafo, também conhecido como caçador de mentiras. Trata-se de uma tecnologia que registra as respostas corporais de uma pessoa quando ela é interrogada. No entanto, apesar de ser um recurso utilizado em procedimentos judiciais por alguns países, atualmente não contamos com uma linha de estudos confiáveis que apoiem ou respaldem a associação utilizada por essa tecnologia para decidir se alguém está mentindo ou dizendo a verdade.

Em suma, as emoções são uma fonte valiosa para analisar os comportamentos. Emoções que manifestamos ou ocultamos por meio de muitas vias. Entre elas, uma especialmente importante é a linguagem não verbal, campo em que se destacam as contribuições de Paul Ekman. Agradecemos a ele pelo seu maravilhoso legado.

Ekman, P. (2005).Cómo detectar mentiras: Una guía para utilizar en el trabajo, la política y la familia.  Grupo planeta

Espinosa Torres, M.P. y Moreno Luce, M.S. La influencia de las emociones en las expresiones faciales según Paul Ekman.