A diversidade afetiva na sala de aula

junho 4, 2020
Existem meninos e meninas heterossexuais, homossexuais, bissexuais e transgênero. Portanto, é essencial que exista na sala de aula um ambiente que inclua a aceitação de todas as orientações emocionais e sexuais.

Como resultado da libertação sexual e da rejeição de ideias infundadas e conservadorismos, nos encontramos em uma sociedade que, em maior ou menor medida, avançou muito em termos de diversidade afetiva e sexual. Ainda negada, podemos observar essa realidade em vários contextos, como no ambiente de trabalho ou nas escolas. Para responder às necessidades dessa nova realidade, muitos profissionais que trabalham com crianças se perguntam como devem tratar a diversidade afetiva em sala de aula. É algo a se trabalhar?

O guia didático “El amor y el sexo no son de un solo color“, por exemplo, nos aproxima de situações cotidianas relacionadas à presença de homossexualidade, bissexualidade, transexualidade e heterossexualidade em escolas ou institutos. O texto também ressalta que a adequação de cada um é tão importante quanto promover a igualdade entre homens e mulheres, ensinar derivadas e integrais e a importância do respeito, independentemente da orientação sexual, cor da pele, origem e sexo.

Abertura em sala de aula

Os tópicos relacionados à diversidade afetiva e sexual foram excluídos do ambiente escolar há muito tempo. Muitos adultos, especialmente os pais que não possuem todas as informações de que precisam para fazer tal julgamento, temem que incluir o ensino da diversidade afetiva e sexual faria seu filho ou filha “se tornar” transexual, homossexual ou bissexual.

Embora os pais não entendam, a verdade é que as crianças começam a identificar as pessoas de quem gostam desde os 10 anos de idade. A Drª Asia Eaton, psicóloga social especializada em Estudos de Gênero, revela que a grande maioria de um grupo de jovens adultos pertencentes a uma minoria sexual experimentou sua primeira atração sexual por outra pessoa aos 8 ou 9 anos de idade. Outros estudos asseguram que isso ocorre por volta dos 11 anos de idade. De fato, a masturbação infantil ou exploração sexual podem ocorrer desde que a criança tem 2 anos de idade.

Por esse motivo, à medida que meninos e meninas se perguntam e atestam o que gostam ou não, é importante incluir na grade escolar o ensino da diversidade afetiva e sexual. Isso seria útil não apenas para os filhos de uma minoria sexual, mas também para os outros. A informação é uma ferramenta muito poderosa para combater o ódio, o medo, o assédio e a rejeição.

Como incluir a diversidade afetiva na sala de aula?

A diversidade afetiva já se encontra nas escolas, mas na maioria das vezes de forma negativa. A escola ou o instituto, como um mero reflexo da ideologia popular, está repleto de uma linguagem heterossexista. Isso é visto quando alguém faz uma piada sobre uma figura histórica homossexual; quando alguém utiliza o termo “bicha” no recreio e não é punido; quando todos os exemplos de um casal ou casamento se referem a pessoas heterossexuais…

Esse tipo de comportamento, somado à ignorância geral tanto de professores quanto de pais, pode levar meninos e meninas a associações errôneas, a uma convivência prejudicial com os alunos LGTBIQ ou a problemas de autoestima e autoaceitação em crianças e adolescentes não heterossexuais.

O guia didático que mencionamos anteriormente expõe determinadas medidas que uma instituição de ensino pode implementar para facilitar a diversidade sexual e afetiva em sala de aula. Algumas delas são:

  • Envolver todos os funcionários da instituição na consecução do mesmo objetivo. As crianças aprendem por aprendizado indireto e observação, e seus modelos podem ser o cozinheiro, os jardineiros, os professores ou o enfermeiro.
  • Incorporar a diversidade afetiva na grade curricular da instituição.
  • Incorporar unidades didáticas sobre homossexualidade, bissexualidade, transexualidade e a fobia das referidas condições sexuais.
  • Aprimorar as informações, a formação e a orientação do corpo docente e do conselho escolar.
  • Incluir nas bibliotecas material informativo, além de obras em que as relações heterossexuais não sejam as únicas abordadas.
  • Estabelecer um protocolo com medidas de ação ativa em qualquer situação de homofobia, transfobia ou bifobia. Tanto professores quanto alunos e pais devem entender que esse tipo de comportamento não tem lugar na sala de aula, assim como não deveria ter nas ruas.

Professor, eu  gosto de meninas, e não de meninos

Não raro, o professor se torna uma figura de referência, não apenas no campo acadêmico mas também na vida pessoal da criança. Portanto, esses profissionais podem se ver na posição de serem os primeiros e únicos conhecedores da identidade sexual do menino ou da menina.

Às vezes, a criança sente que pode decepcionar seus pais, que eles podem ficar com raiva, e a percepção de sentir algo diferente, algo estranho, pode levá-la a pensar que o professor é o único com quem ela pode contar.

Que recomendações devemos dar aos professores se eles se tornarem confidentes de seus alunos? Guias didáticos de diversidade sexual nos dão alguns conselhos:

  • Escuta ativa e aceitação de seu desconforto e ansiedade: mesmo que o professor esteja ocupado, diante dessa necessidade da criança, ele deve se interessar, valorizar sua coragem por ter se expressado e dedicar tempo a ela. É um tópico importante para ele ou ela e deve ser para o professor também.
  • Se o professor não estiver preparado ou não souber gerenciar e atender às necessidades da criança, é melhor encaminhá-lo para alguém que esteja preparado; este é um assunto que não deve ser deixado em aberto.
  • O professor deve se tornar o aliado da criança: a aceitação de um professor, uma figura de autoridade e que pode administrar punições e recompensas, é relevante porque a criança observa que ela não foi punida, não foi traída, e começa a entender que sua orientação sexual não é boa nem ruim; simplesmente é.
  • Observar o desempenho acadêmico do aluno para obter indicações sobre seu humor e autoestima.
  • A pessoa de referência deve ser totalmente a favor da diversidade afetivo-sexual. É a primeira a validar suas emoções e ter uma resposta contrária ao que a criança esperava, que seria raiva, decepção, tristeza.
Como incluir a diversidade afetiva na sala de aula?

Conclusões: a necessidade de mudança transversal

A inclusão da diversidade afetivo-sexual é uma mudança que deve marcar o funcionamento total da instituição. Incluir algumas oficinas por ciclo educacional sobre a diversidade sexual não é suficiente. A escola ou o instituto deve ser transformado em um lugar onde não haja discriminação, assédio, e onde todos os seus alunos sejam aceitos da forma como são.

Portanto, deve haver uma mudança na linguagem utilizada, evitando a todo custo qualquer estereótipo sobre qualquer grupo sexual, e tratar com naturalidade todos esses problemas. Além disso, é conveniente realizar atividades não apenas teóricas, mas também formativas. Essas atividades devem abranger a participação de todos os alunos para que sua motivação seja elevada.