Doadores e recebedores nas relações afetivas

· janeiro 21, 2018

Nas relações afetivas poucas vezes existe um perfeito equilíbrio entre dar e receber. É comum ver os clássicos doadores e recebedores imersos em um jogo de poder nos qual apenas uma pessoa ganha. O recebedor fica com a energia, com a vitalidade e todo o investimento afetivo de um doador convencido de que no amor não há limites, de que nessa história de amar vale tudo.

Embora o termo nos pareça estranho, no que diz respeito a relacionamento e afeto é comum ser testemunho de verdadeiros suicídios emocionais. É curioso ver como há pessoas que dirigem prudentemente na estrada, que cuidam ao máximo da alimentação ou se preocupam em praticar esportes e levar uma vida ativa, mas no que se refere ao amor não hesitam em se jogar no vazio e sem paraquedas.

Em matéria de relacionamento, nem tudo vale. É bom se lembrar disso. Fazer do outro a nossa razão de ser e ser para essa pessoa tudo o que ela pode precisar, querer ou pedir, provoca graves consequências. Os doadores e os recebedores estão por aí aos montes em qualquer vínculo afetivo. São pessoas incapazes de conseguir estabelecer um equilíbrio adequado entre dar e receber e que, além disso, caem nos extremos mais prejudiciais à saúde, nos quais poucas vezes germina uma felicidade real.

Problemas de comunicação

O ciclo da reciprocidade como segredo para o bem-estar

Friedrich Nietzsche já dizia que oferecer um presente não confere nenhum direito nem obrigação a quem o recebe. Podemos estar de acordo com essa afirmação, no entanto, querendo ou não, sempre há pequenas “nuances”. Os obséquios são trocas que implicam certa reciprocidade, unindo doadores e recebedores de muitas maneiras.

Por exemplo, posso dar um presente material a um amigo. Não espero (nem desejo) que ele me devolva. Apenas ofereço esse presente porque quero fazer uma homenagem ao afeto, ao apoio e à positividade que essa pessoa me transmite na minha vida. Ou seja, entre nós já existe reciprocidade, já existe um laço que nos une, um laço que vem representar esse equilíbrio dinâmico e proativo no qual ambos ganhamos.

Querendo ou não, precisamos desse laço de retroalimentação constante no qual dar e receber se transforma em uma mesma coisa, no qual todos somos ao mesmo tempo doadores e recebedores. Isso acontece por uma razão muito simples: o ser humano é cooperativo por natureza. Na verdade, cooperar nos permitiu progredir como espécie ao sabermos ser amados, cuidados, valorizados e, até mesmo, protegidos. Ao mesmo tempo, essas condutas conferem ao nosso cérebro um claro sentido de pertencimento e bem-estar.

Mulher guiando homem

O que acontece quando não há reciprocidade e eu me transformo apenas em “doador”?

Existe um trabalho muito interessante chamado “Motivação autônoma do comportamento pró-social e sua influência no bem-estar do ajudante e do receptor” (tradução livre), publicado na revista Personalidad y Psicología social de 2010, que coloca em evidência dados bastante curiosos.

  • Há pessoas que são “doadoras” por natureza. Ou seja, o ato de dar faz parte da sua personalidade e é assim que entendem as dinâmicas das suas relações.
  • O fato de “dar” (dar atenção, afeto, cuidar, etc.) lhes confere mais autoestima e sensação de positividade, de energia e de dignidade pessoal.
  • No entanto, nesse tipo de situação podem ocorrer duas coisas. A primeira é que as outras pessoas (as que recebem) se sentem pressionadas e, até mesmo, incomodadas com esse comportamento constante de ajudar, fazer favores, se sacrificar pelos outros.
  • A segunda é evidente. Cedo ou tarde vai surgir o fenômeno conhecido como “custos irrecuperáveis”. Ou seja, o doador pode se ver na situação de descobrir que muitas das suas ações não são valorizadas nem reconhecidas. Tudo o que ela investiu, tempo, afeto e energia nunca mais vão ser recuperados. Ela vai pensar que não teve sentido e que o que conseguiu com isso foi perder sua autoestima…

Quando uma pessoa se dá conta de que na sua relação afetiva se limitou a ser o doador, ela toma consciência desse suicídio emocional que foi manter um vínculo desigual, não saudável e interesseiro. Após essa descoberta, não existe volta. É preciso tomar decisões e se transformar em doador de si mesmo, em quem vai curar a própria dignidade perdida.

Doadores e recebedores, duas figuras constantes nas nossas relações

Ana e Paulo estão há 8 meses juntos. Ana é a “doadora” que faz tudo pelo seu parceiro. Sabe de incríveis detalhes sobre ele. Ela gosta de estar sempre à frente e prever o que ele pode precisar, o que pode gostar em determinado momento. Paulo, por sua vez, “se deixa levar”. Como vê sua companheira feliz praticando esse tipo de conduta, ele começou a mostrar uma atitude mais ou menos passiva e até dependente.

Casal unido

Esse é um pequeno exemplo do que pode acontecer muito frequentemente nas nossas relações e de como, pouco a pouco, damos forma aos doadores e recebedores. Às vezes nós mesmos estimulamos uma série de dinâmicas que mais tarde acabam se cristalizando em situações disfuncionais. Não se trata, portanto, de buscar culpados, mas de entender algumas coisas:

  • Nós podemos permitir que algum dos dois “invista” um pouco mais na relação em determinado momento. No entanto, esse não será o ritmo, muito menos a regra. E mais, uma responsabilidade clara de ambos os membros do casal é se comprometer de forma igualitária com a relação. Por isso os custos e os benefícios devem ser semelhantes para os dois.
  • Merecemos receber. Às vezes há pessoas que passaram tanto tempo sendo “doadoras” que não sabem o que é ser recebedor de vez em quando. O mesmo acontece com o oposto. Quem passou meia vida recebendo atenção pode experimentar uma gratificante sensação ao descobrir o significado do ato de oferecer e de dar de coração.

Por fim, um aspecto interessante sobre o qual podemos refletir em relação aos doadores nos relacionamentos é que também não devemos ficar obcecados com o clássico 50/50. Ou seja, em buscar aquele equilíbrio perfeito e milimétrico de investimentos e ganhos em um relacionamento. As pessoas dão de formas muito diferentes e em diferentes momentos.

O importante é saber que existe reciprocidade. Saber que aquela pessoa está ao nosso lado e que o que se oferece de coração é recebido de bom grado e devolvido quando mais precisamos.