Ecoísmo: prefiro existir sem ser muito notado

31 Julho, 2020
Ao contrário do narcisista, que atrai a atenção e anseia por se sentir protagonista, as pessoas com ecoísmo temem precisamente esse tratamento. Qual é a origem desse medo?

Ecoísmo é um termo que se tornou popular nos últimos anos. Foi originalmente usado em 2005 por Dean Davis, um psicanalista americano. O ecoísmo é um traço das pessoas que se caracteriza pela incapacidade de aceitar elogios, expressar suas preferências nos relacionamentos ou buscar ajuda.

Assim como qualquer característica, o ecoísmo persiste, independentemente de com quem as pessoas passam o tempo. Ainda assim, os ecoístas costumam ser atraídos pelo comportamento narcisista justamente por ter alguém que se deleita em ocupar todo o espaço. Quando os narcisistas se tornam abusivos, os ecoístas às vezes se culpam por seus maus-tratos.

O ecoísmo é uma característica, não um transtorno, mas é melhor compreendido se for conceituado como uma estratégia de sobrevivência: “Se eu quiser estar seguro e ser amado, devo me certificar de pedir o mínimo possível das pessoas e dar tudo o eu que puder”.

Ecoísmo e mulheres: qual a relação?

Ficar na sombra

Segundo o psicólogo Dr. Craig Malkin, pesquisador e autor de Rethinking Narcissism, o ecoísmo é um medo extremo de parecer narcisista de alguma maneira. Ao contrário do narcisista que atrai a atenção e deseja se sentir especial, os ecoístas temem atenção especial, mesmo quando positiva.

Malkin e colegas descobriram que os ecoístas tendem a concordar com afirmações como “tenho medo de me tornar um fardo” ou “quando as pessoas me perguntam sobre as minhas preferências, muitas vezes me sinto perdido”. Embora essas características possam se parecer muito com o comportamento agradável das pessoas comuns ou até mesmo com a humildade, Malkin diz que há uma grande diferença.

O ecoísmo, em sua forma mais benigna, pode produzir traços de servilidade, inibindo demasiadamente a expressão de pensamentos e desejos. Em sua forma mais extrema, pode descrever um modo de vida em que o indivíduo renuncia à sua própria voz e pode causar um completo isolamento dos demais.

A origem está na infância

Ainda há muita pesquisa a ser feita sobre a causalidade do ecoísmo. O que causa unanimidade entre os profissionais é que, no ecoísmo, o tipo de educação certamente desempenha um papel fundamental.

Os ecoístas parecem ter nascido com mais sensibilidade emocional do que a maioria. Quando esse temperamento é exposto a um dos pais que os envergonha ou castiga por ter alguma necessidade, é provável que essa criança cresça com um alto grau de ecoísmo.

Se o indivíduo for filho de um pai narcisista que impõe sua vontade, será difícil para essa criança ouvir ou conhecer seus próprios pensamentos e desejos. Essa mesma experiência pode resultar em um narcisista que assume os desejos dos pais em ter tido um filho especial. É repetido o mesmo comportamento do pai em questão, acreditando ser especial ou mais importante que os outros. Não está claro, nessa fase, se existe algo inato que influencie essa criança a se tornar narcísica ou ecoísta.

Na vida adulta, os ecoístas costumam viver de acordo com o mantra: “Quanto menos espaço você ocupa, melhor”.

Ainda assim, é importante notar que nem todas as crianças com pais narcisistas se tornam ecoístas e nem todos os ecoístas têm cuidadores impulsionados pelo ego. “O ecoísmo é uma característica que existe até certo ponto em todos nós”, diz Malkin.

Os ecoístas não são definidos pela passividade. Eles podem ser bastante ativos na descoberta e na busca do que os outros precisam. Os ecoístas podem ser excelentes ouvintes, mas se sentem menos confortáveis ​​em se abrir para os outros (o medo de se tornar um fardo geralmente bloqueia sua capacidade de compartilhar).

Cultura e gênero

Os homens são menos propensos a procurar terapia para o ecoísmo. Uma das hipóteses contempladas para explicar isso seria a vergonha de se sentir fraco ou menos homem. Nas culturas em que gênero e status têm mais peso nas relações de poder, o ecoísmo e o narcisismo podem ser menos visíveis e passar como “a ordem natural das coisas”.

Muitas mulheres acreditam que pedir mais nos relacionamentos e se afirmar é perigoso, porque um pai emocionalmente abusivo as deixou inseguras para falar. Aqui, o maior problema é: a adaptação em situações sociais e o constante prazer dos outros são vistos positivamente. Algumas dessas pessoas aprendem a sobreviver apagando suas próprias necessidades e sentimentos.

Questão cultural e o ecoísmo

Existem culturas em que é considerado apropriado sofrer em silêncio ou onde a procura por ajuda é desaprovada. O ecoísmo também pode ser uma maneira de entender a lavagem cerebral. Pode oferecer uma explicação da política mundial ou de situações em que indivíduos praticam atos danosos em nome de uma pessoa ou organização poderosa.

Cultura e gênero

Como tratar o ecoísmo?

A ideia de manter as tendências sob controle é complexa, porque muitos dos processos que influenciam ou operam aqui não são conscientes. Muitas vezes, tornou-se uma maneira de se estabelecer na infância.

Passar um tempo com um terapeuta e analisar o que acontece cria uma oportunidade para identificar a origem do ecoísmo. Parte do que a terapia oferece, nesse caso, é a oportunidade de explorar esses sentimentos e memórias dolorosas em um espaço seguro e de apoio e, finalmente, ouvir alguém dizer que o trauma sofrido na infância não foi algo “normal”.

Por fim, se você achar difícil falar em voz alta, poderá incorporar elementos na terapia que ajudem você a se sentir mais seguro, incluindo elementos como poesia ou escrita criativaVale a pena discutir sobre isso em um contato inicial ou avaliação com um terapeuta.

BYINGTON, C. (2004) La Construcción Amorosa del Saber. Fundamento y Finalidad e la Pedagogía Simbólica Junguiana. Sáo Paulo: W11 Editores

BYINGTON, C. (1988) Dimensiones Simbólicas de la Personalidad. Sao Paulo: Atica