Ecolocalização, o sexto sentido do ser humano?

É possível ver pelo ouvido? A ecolocalização é uma habilidade extraordinária que geralmente é desenvolvida por pessoas cegas. No entanto, qualquer um pode adquiri-la.
Ecolocalização, o sexto sentido do ser humano?

Última atualização: 25 Setembro, 2021

Ben Underwood é um dos poucos casos conhecidos de ecolocalização e talvez o mais ilustrativo e documentado de todos eles. Ao conhecer a sua história, também descobrimos o que significa este interessante conceito, que alguns chamam de “o sexto sentido do ser humano”.

Quando Ben Underwood nasceu, ele parecia um bebê completamente normal. A única coisa que sua mãe notou foi um brilho anormalmente intenso em um de seus olhos, mas ela não achou que isso fosse motivo de preocupação. No entanto, o menino cresceu e, aos 2 anos, foi diagnosticado com câncer de retina, um dos mais raros.

Os médicos fizeram todo o possível para ajudá-lo, e por isso ele fez sessões de quimioterapia e radioterapia, mas sem sucesso. No final, ambos os olhos tiveram que ser removidos para salvar a sua vida. Ele tinha apenas 3 anos quando parou de enxergar.

“A única coisa pior do que não ter a vista é não ter visão.”
-Helen Adams Keller-

Ben Underwood e a ecolocalização

A vida de Ben Underwood mudou completamente, e ele passou por um treinamento para conseguir se orientar sem a visão. A mãe o acompanhou nesse processo, obtendo avanços importantes. O que ninguém esperava é que, sem nenhum tipo de orientação ou instrução, Ben desenvolvesse um método para “ver com o ouvido”: a ecolocalização.

O que esse menino fez foi estalar a língua. O som que ele produzia batia contra os objetos e, então, ele sabia que eles estavam lá. Sua audição havia se desenvolvido de forma notável e, com o tempo, ele não só conseguiu evitar os objetos, mas também saber do que eram feitos.

A ecolocalização é exatamente isso, um mecanismo pelo qual o espaço e seus componentes são identificados por meio de ondas sonoras. Esse mecanismo faz parte do equipamento biológico de morcegos e cetáceos, mas raramente é detectado em humanos.

Ver com os ouvidos

A ecolocalização funciona porque as ondas sonoras se comportam de uma forma ou de outra com base no fato de encontrarem objetos ou não. Poderíamos dizer, simplificando muito e sendo imprecisos, que a onda rebate ao se deparar com um obstáculo físico, podendo ser captada por ouvidos muito sensíveis.

Assim, a pessoa com ecolocalização pode conhecer o lugar que o objeto ocupa. Em casos como o de Ben Underwood, essa habilidade atinge níveis extraordinários.

Ben se tornou um surfista habilidoso, jogador de basquete e lutador de artes marciais. Ele não tinha deficiências nesses campos em relação àqueles que podiam ver. Infelizmente, o câncer voltou e desta vez ele não conseguiu superá-lo, falecendo em 2009.

Embora este caso seja um dos mais conhecidos, não é o único de que temos notícias. Na verdade, os primeiros relatos de pessoas cegas se orientando com esse tipo de “radar” ou “sonar” datam de 1749. Naquela época, isso era considerado uma raridade, e não foi estudado cientificamente a fundo.

A ecolocalização só começou a ser investigada na década de 1940. O Laboratório de Psicologia de Cornell conduziu uma série de experimentos e descobriu que cada som gerava uma leve pressão na pele. Esta é a base dessa habilidade incrível.

Uma habilidade humana

A ecolocalização é uma habilidade humana inata, que nem todos os cegos desenvolvem porque não foram treinados para isso. Porém, qualquer pessoa pode adquirir essa habilidade com o trabalho necessário. Tudo indica que os sons são capazes de estimular o córtex visual primário do cérebro, e é isso que torna possível localizar objetos sem vê-los.

A ciência não desvendou totalmente esse fenômeno, principalmente porque pessoas com visão também desenvolveram essa habilidade. Nesses casos, o córtex visual primário não é estimulado como ocorre nos cegos, o que significa que outras áreas do cérebro ainda não localizadas estão envolvidas.

Existem outros casos famosos de ecolocalização, como o de Daniel Kish, que dedicou sua vida a desenvolver essa habilidade em cegos por meio de uma fundação chamada World Access for the Blind. Ele garante que você não só pode perceber a presença de objetos, mas também pode dizer se eles são bonitos ou não.

Embora vários detalhes dessa fabulosa habilidade ainda não sejam conhecidos, o que fica claro é que o cérebro humano não deixa de nos surpreender. A cada dia sabemos mais sobre este órgão, mas é claro que ainda existem muitas maravilhas a serem descobertas.

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  • Arias, C. (2008). Ecolocación humana: El color del eco. In VIº Congreso Iberoamericano de Acústica. Buenos Aires, Argentina.