Por que o cérebro tem dois hemisférios?

Esse detalhe único também é compartilhado por muitos animais, incluindo lesmas e abelhas. Saiba o que a neurociência tem a dizer sobre isso.
Por que o cérebro tem dois hemisférios?

Última atualização: 03 Setembro, 2021

Esta pode parecer uma pergunta ingênua e até infantil. Por que o cérebro tem dois hemisférios? Existe alguma razão pela qual o resultado da sua evolução não foi formar um órgão unificado e perfeitamente esférico? Esta questão, longe de ser simplista, é de grande interesse e alvo de diversas pesquisas científicas.

Para começar, há muitos que, vendo a forma de um cérebro, ficam intrigados com todas as dobras do córtex cerebral. Na verdade, este órgão, longe de ser esférico e liso, apresenta uma aspereza notável. Além disso, se pudéssemos estendê-lo completamente, descobriríamos que teria o comprimento de uma pequena toalha de mesa: quase 2.500 centímetros quadrados.

A razão para esta forma áspera e dobrada é simples: ela economiza espaço. Ao se dobrar sobre si mesmo, permite que tenha mais densidade e extensão, o que já é uma vantagem evolutiva. No que diz respeito à sua distribuição e por que esses dois hemisférios existem, a resposta também segue essa mesma linha: permite que você alcance uma maior especialização.

O cérebro é um órgão altamente sofisticado, mas acima de tudo especializado. Cada área cumpre uma função muito específica, e é por isso que tanto a forma quanto a distribuição deste corpo também são decisivas.

“Eu sou um cérebro, Watson. O resto de mim é um mero apêndice.”
-Sherlock Holmes-

O cérebro tem dois hemisférios

Por que o cérebro tem dois hemisférios?

Uma das respostas que podem vir à mente sobre o motivo pelo qual o cérebro tem dois hemisférios pode estar relacionada à ideia de dominância esférica. No entanto, há algo que devemos mencionar. Por muitos anos foi enfatizada a teoria de que existem pessoas mais intuitivas e criativas porque usam mais o hemisfério direito, enquanto outras são mais lógicas porque desenvolvem mais o lado esquerdo.

A teoria da dominância do cérebro é um neuromito. O ser humano usa ambos os hemisférios igualmente. Até hoje, infelizmente, essa abordagem introduzida na década de 1960 pelo neuropsicólogo Roger Sperry continua muito popular. No entanto, estudos como o realizado na Universidade Católica Andrés Bello mostram que não há evidências de que seja correta.

O cérebro evoluiu em duas metades, mas não para que alguns fossem mais hábeis em algumas disciplinas e outros em outras. Na verdade, tanto as dobras clássicas quanto os dois hemisférios nos ajudam a distribuir as funções que este maravilhoso órgão desempenha.

A divisão do cérebro é muito benéfica

Vamos pensar em um grande armário. Se quisermos que seja funcional e prático, o primeiro passo será colocar prateleiras e gavetas. Ele é inútil se for uma construção sem divisórias e sem distribuição. O mesmo acontece com o cérebro. Pesquisas como a publicada na revista Neuron indicam o seguinte:

  • Ter diferentes áreas do cérebro cuidando de cada tarefa complexa o torna mais eficiente.
  • O objetivo do cérebro é realizar infinitas funções ao mesmo tempo, e para isso ele precisa de cada região para cumprir um objetivo e se conectar com as outras.
  • O cérebro tem dois hemisférios porque em cada um deles se localizam múltiplas atividades, e todas são muito específicas. Assim, enquanto um se encarrega da linguagem e do reconhecimento facial, o outro se encarrega de escrever ou compreender o que ouve.

A chave para a inteligência estaria nessa organização assimétrica

O cérebro possui dois hemisférios para poder distribuir funções. É verdade que cada região lida com tarefas muito específicas, mas nunca o fazem separadamente. Ou seja, não podemos cair no erro de pensar que alguém é mais criativo porque usa mais o hemisfério direito.

Na realidade, os processos que ativam a criatividade e a inovação usam os dois lados: enquanto um reflete, o outro analisa e compara, enquanto o direito se conecta com nossas emoções e consciência, o esquerdo nos permite escrever cada ideia, avaliá-la e raciociná-la.

Tudo isso contribui para aprimorar a nossa inteligência. A assimetria cerebral, portanto, favorece nossa capacidade de adaptação às dificuldades.

Abelhas voando sobre uma flor

O cérebro de outros animais também tem dois hemisférios

Por muito tempo, as teorias antropocêntricas clássicas foram bastante importantes. Referimo-nos àquelas que presumiram que certas características neurológicas estavam presentes apenas em humanos. No entanto, muitos animais também apresentam uma clara assimetria e lateralização.

Foi na década de 70 que se descobriu que não só os grandes primatas tinham dois hemisférios. Muitos mamíferos, diferentes tipos de pássaros, os sempre inteligentes ratos, vermes e até abelhas têm essa característica. A razão para isso também é simples. Um cérebro especializado favorece a sobrevivência da espécie.

A assimetria cerebral é a chave para a sua organização e especialização. Assim, um cérebro altamente especializado é um cérebro mais eficiente e que favorece que o animal desenvolva maiores habilidades para sobreviver. Além disso, sabemos até que existem animais destros e canhotos: 90% dos papagaios são canhotos, e usam a pata esquerda para comer e interagir.

Existem tipos de tarântulas que preferem a perna direita, enquanto os cangurus vermelhos também são canhotos. Até hoje, não sabemos o porquê dessas particularidades…

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  • Carvajal, Rubén. (2018). Mitos y realidades sobre lateralidad y dominancia hemisférica: implicaciones en educación..
  • Walsh V. Hemispheric asymmetries: a brain in two minds. Curr Biol. 2000 Jun 15;10(12):R460-2. doi: 10.1016/s0960-9822(00)00533-9. PMID: 10873796.