Edmonia Lewis: pioneira em esculpir seu destino

agosto 29, 2019
Em um mundo de homens brancos, Edmonia Lewis surgiu como a voz negra e feminina que levaria para a escultura a conexão com suas raízes afro-americanas e aborígenes.

Mary Edmonia Lewis foi uma escultora norte-americana pioneira que trabalhou a maior parte da sua carreira em Roma, Itália.

Nascida em Nova York, Edmonia Lewis foi a primeira mulher afro-americana a conquistar a fama internacional. Além disso, ela foi a primeira afro-americana a alcançar o reconhecimento como escultora no mundo das artes plásticas.

Muitos artistas americanos do século XIX e XX gozaram de fama em seu próprio país. No entanto, Edmonia Lewis é uma das poucas exceções.

Conheça a sua vida e obra, saiba como ela conseguiu superar os obstáculos que a sociedade lhe impôs, romper os moldes e, contra todas as probabilidades, conquistar o reconhecimento mundial.

Infância e juventude de Edmonia Lewis

Edmonia Lewis nasceu sob a condição de negra livre por volta de 1844 em Greenbush, Nova York. Ela tinha um irmão que, quando adulto, teve sucesso financeiro graças à mineração de ouro.

A pequena Edmonia era filha de um homem negro, servo de um cavalheiro. A sua mãe, também negra, possuía ancestrais dos ojibwa e dos africanos. Os ojibwa são um dos maiores povos nativos da América do Norte, juntamente com os cheroqui e os navajos.

Edmonia ficou órfã por volta dos dez anos de idade. Como ela própria contou mais tarde, foi criada por alguns membros da família Ojibwa, perto das Cataratas do Niágara.

Mary Edmonia Lewis teve pouca instrução, no entanto, com o apoio de um irmão mais velho, ela frequentou o Oberlin College, em Ohio. Lá, estudou de 1860 a 1863, emergindo como uma artista talentosa.

Naquela época, o movimento abolicionista estava ativo no campus de Oberlin, e teve um grande impacto na subsequente carreira artística de Edmonia.

Escultura de Edmonia Lewis

O preço do sucesso

A jovem teve que superar inúmeros obstáculos para se tornar uma artista respeitada. No Oberlin College, ela foi falsamente acusada de tentar envenenar duas colegas brancas.

Como resultado, foi capturada e espancada por uma multidão branca. No entanto, Lewis se recuperou do ataque e se mudou para Boston, depois que as acusações contra ela foram retiradas.

Em Boston, Lewis fez amizade com o abolicionista William Lloyd Garrison e o escultor Edward A. Brackett. Foi Brackett quem ensinou escultura para Lewis e a ajudou a montar o seu próprio estúdio.

No início da década de 1860, Lewis começou a obter reconhecimento pelo seu trabalho, causando um impacto no mundo da arte. Os seus medalhões de argila e gesso, que representavam Garrison, John Brown e outros líderes abolicionistas, abriram uma pequena porta o sucesso comercial.

Em 1864, Lewis criou um busto do coronel Robert Shaw, um herói da Guerra Civil que morrera à frente do 54º Regimento de Massachusetts. Graças a este trabalho, obteve o seu primeiro sucesso comercial considerável.

O dinheiro que ganhou após a venda de cópias do busto lhe permitiu se mudar para Roma. Por que se mudar para a cidade italiana?

Naquela época, Roma havia se tornado a casa de vários artistas americanos que haviam sido expatriados, incluindo várias mulheres que haviam chegado à cidade em busca de uma oportunidade.

Edmonia Lewis e sua vida em Roma

Na Itália, Lewis continuou trabalhando como artista. O seu trabalho tratou principalmente de um tema vinculado a sua herança cultural afro-americana e, de maneira secundária, à sua religião, o catolicismo.

Um de seus trabalhos mais aplaudidos foi ‘Sempre Livre” (1867), uma escultura representando um homem e uma mulher negros emergindo dos laços da escravidão. Além disso, Lewis também esculpiu bustos de presidentes americanos, incluindo Ulysses S. Grant e Abraham Lincoln.

Outro exemplo de conexão com a sua herança é visto em ‘O fabricante de flechas’ (1866), uma peça inspirada em suas raízes aborígenes. A peça mostra um pai que ensina sua filhinha a fazer uma flecha.

Uma de suas obras mais famosas foi uma representação da rainha egípcia Cleópatra, intitulada ‘A morte de Cleópatra’. Ela recebeu reconhecimento crítico quando foi exibida na Exposição de Filadélfia em 1876, e em Chicago dois anos depois.

A escultura de duas toneladas nunca retornou à Itália porque Lewis não podia pagar os custos exorbitantes de sua remessa. No entanto, foi armazenada e redescoberta várias décadas após a sua morte.

Escultura de casal indígena

Últimos anos e legado da pioneira Edmonia Lewis

Assim como aconteceu com a sua infância, os últimos anos de Edmona Lewis estão envoltos em mistério. Sabe-se que ela continuou a exibir o seu trabalho até o final da década de 1890.

Além disso, recebeu uma visita de Frederick Douglass em Roma e nunca se casou ou teve filhos. No entanto, há poucos dados sobre a sua última década de vida.

Acredita-se que Lewis tenha passado os seus últimos anos em Roma. Apesar disso, recentemente foram descobertos alguns documentos indicando que ela morreu em Londres em 1907.

Apesar da sua condição de mulher e negra, ela conseguiu receber aplausos pelo seu trabalho em vida. No entanto, o verdadeiro reconhecimento viria após a sua morte, quando finalmente o mundo da arte se rendeu ao seu magnífico trabalho.

No final do século 20, a vida e a arte de Lewis receberam elogios póstumos e o seu trabalho foi apresentado em várias exposições.

Algumas de suas peças mais famosas atualmente estão nas coleções permanentes do Museu Smithsonian de Arte Americana e no Metropolitan Museum of Art.

Também encontramos algumas amostras no Cleveland Museum of Art e na Howard University Art Gallery. Dessa forma, o legado da pioneira Edmonia Lewis pode ser apreciado, aplaudido e, finalmente, reconhecido.

  • Gold, S. W. (2012). The Death of Cleopatra/The Birth of Freedom: Edmonia Lewis at the New World’s Fair. Biography, 318-341.
  • Buick, K. P. (1995). The Ideal Works of Edmonia Lewis: Invoking and Inverting Autobiography. American Art, 9(2), 5-19.
  • Richardson, M. (1995). Edmonia Lewis’ The death of Cleopatra: myth and identity.
  • Blodgett, G. (1968). John Mercer Langston and the Case of Edmonia Lewis: Oberlin, 1862. The Journal of Negro History, 53(3), 201-218.