Eduardo Galeano, biografia de um libertário

· maio 30, 2019
A obra de Eduardo Galeano tem uma magia especial. Seu trabalho é história, mas também crônica e poesia. Ele defendia o direito de pensar e sentir ao mesmo tempo, negando-se qualquer pretensão de objetividade.

O nome de Eduardo Galeano é sinônimo de boa literatura, compromisso social e valores éticos à prova de tudo. Sua obra As Veias Abertas da América Latina é um verdadeiro clássico que, junto com Memória do Fogo, foi traduzido para mais de 20 idiomas.

Eduardo Galeano foi um escritor difícil de classificar. Muitas vezes combinou em seus textos a realidade com a ficção. O sentimento com o pensamento. De fato, atribui-se a ele a invenção do termo “linguagem sentipensante” para se referir a uma particular combinação de objetividade e subjetividade.

“Estamos em plena cultura do rótulo. O contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, a roupa mais que o corpo e a missa mais que Deus”.
-Eduardo Galeano-

Um dos aspectos mais interessantes de Eduardo Galeano é que ele foi um intelectual autodidata. Não obteve um título profissional formal, mas vários doutorados honoris causa. Talvez por isso sua obra tenha uma força especial: a de quem percebe a realidade com os sentidos e a leitura, e não através de um professor.

Eduardo Galeano

Um escritor em Montevidéu

Eduardo Galeano nasceu em Montevidéu, no Uruguai, em 3 de setembro de 1940. Seu verdadeiro nome era Eduardo Germán María Hughes Galeano, mas escolheu o sobrenome da mãe para assinar suas criações literárias. Sua família tinha bons recursos financeiros e era profundamente católica.

Durante a infância, Eduardo Galeano sonhava em ser santo ou jogador de futebol, o que acontecesse primeiro. No entanto, aos 14 anos elaborou um desenho solitário e o levou ao jornal “El sol”, que acabou comprando-o. Tornou-se cartunista nesse jornal, que pertencia ao Partido Socialista.

Aos 19 anos, teve uma crise existencial e tentou cometer suicídio. Nunca explicou exatamente o porquê. A verdade é que após sair de um estado de coma, mudou sua vida radicalmente. Foi então que começou a chamar a si mesmo de Eduardo Galeano e, em seguida, a escrever no jornal Marcha, sua verdadeira escola como escritor.

Eduardo Galeano no exílio

Em 1973, teve início uma das ditaduras mais cruéis no Uruguai. A mesma o prendeu e antecipou seu exílio na Argentina. Nesse país e com apenas 32 anos, publicou sua obra-prima As Veias abertas da América Latina. Ele queria que fosse um livro de economia política, mas acabou sendo um apaixonante livro de história, que se transformou em símbolo da literatura latino-americana.

Naquela época, Galeano já havia se casado duas vezes e tinha três filhos. Na Argentina, foi cofundador da Revista Crisis (Revista Crise, em português). No entanto, a ditadura também se impôs nesse país em 1976. Rapidamente, Galeano percebeu que teria que sair de lá. Antes disso, conheceu Helena Villagra em um churrasco. Ela seria sua companheira durante os próximos 40 anos.

Suas obras foram proibidas no Uruguai, na Argentina e no Chile pelos três ditadores em exercício. Pouco depois, exilou-se na Espanha e lá acabou escrevendo sua famosa trilogia Memória do Fogo. Inspirou-se em um poema grego e foi criando-o aos poucos, há inclusive partes que foram escritas em guardanapos.

Eduardo Galeano de perfil

O retorno e o final

Galeano pôde voltar ao Uruguai no início de 1985, quando a ditadura caiu no país. Fiel à sua tradição, fundou um novo jornal: Brecha, na companhia de Mario Benedetti e outros intelectuais. Também se tornou cliente frequente do Café Brasileiro, um dos muitos bares de poetas que existem em Montevidéu. Ele costumava se sentar perto da janela. Atualmente, esse estabelecimento vende o “Café Galeano”, em homenagem ao escritor.

Eduardo Galeano se envolveu novamente com grupos políticos e intelectuais de esquerda. Em 2004, participou da primeira vitória desse setor em seu país, com a liderança de Tabaré Vásquez. Em seguida, comemorou a ascensão de Pepe Mujica ao poder. Também fez parte do conselho consultivo do canal de televisão Telesur da Venezuela e começou a escrever semanalmente para o jornal La Jornada, do México.

No ano de 2007, os médicos descobriram que o escritor tinha câncer de pulmão. Desde então, sua saúde foi se deteriorando e passou a ser cada vez menos visto em público. Galeano desconfiava das novas tecnologias e, por isso, escreveu à mão até o final de sua vida. Ele também desconfiava da extrema racionalidade e de qualquer forma de autoritarismo, fosse de direita ou de esquerda. Morreu aos 74 anos, em 13 de abril de 2015.

  • Chacón Ramírez, C. A., & Botero Herrera, D. A. (2016). Entre el miedo y el derecho al delirio: un decir desde los ninguneados de Eduardo Galeano. Hallazgos, 13(25).