Ela é minha avó e diz que também é psicóloga

janeiro 12, 2020
Muitas pessoas pensam que são psicólogas – ou que têm um pouquinho de psicólogas – pelo fato de acumularem anos e experiências. No entanto, falamos de uma profissão que vai muito além do conhecimento particular e que é muito prejudicada pelo oportunismo profissional.

Ela tem quase noventa anos e está sentada em sua poltrona favorita. Seu olhar inspira paz. Uma paz de quem sabe que todos estão bem. No passar dos dias, fala sobre a família, sobre aproveitar a vida ano após ano e sobre ter todos sentados ao redor de uma mesa. Ela é minha avó e, além disso, diz que também é psicóloga.

Nas paredes de sua casa, da qual se orgulha muito, não há nenhum diploma. Mas essas paredes estão decoradas com fotos dos filhos ou quadros de origem incerta, junto com uma fotografia da cidade que a viu crescer. Ela e muitos outros, incluindo quem está escrevendo.

Enquanto ela mantém seu olhar fixo na novela, eu começo a pensar na psicologia e em suas razões para pensar que também sabe e aplica os conhecimentos dessa ciência. Eu a imagino quando jovem na faculdade e sorrio. Ela, psicóloga.

Senhora idosa lendo um livro

Psicologia: mais do que um diploma

São muitas as pessoas que pensam que são um pouco psicólogas sem ter passado pela faculdade. Elas são boas, ou pensam que são boas, escutando, apoiando e dando conselhos.

Elas não se veem tratando uma depressão, e sim incentivando uma pessoa que passou por um forte choque emocional e enfrenta um processo de luto. Acalmando uma pessoa que está passando por um momento de ansiedade.

Elas acumulam experiências, dilemas resolvidos com sucesso, conselhos que funcionaram em outros tempos. Além disso, acreditam conhecer as emoções porque também as sentiram. Tiveram que negociar com elas em muitas ocasiões e fizeram isso com sucesso.

De alguma maneira, pensam que podem universalizar esse tipo de receita, as conclusões que tiraram de suas coleções de experiências individuais. Olham para o outro e observam terrenos conhecidos, transitados, abandonados e cultivados.

Em outras palavras, falamos de pessoas que talvez contem com as características ou potencialidades que as tornariam boas psicólogas. Mas faltam peças para completar o quebra-cabeça profissional.

Essa é uma ideia importante porque o erro não é inócuo. No caso da minha avó, que acredita ser psicóloga, talvez seja, já que não há nela nenhuma intenção de ganho, mas em outros muitos casos não é assim.

De fato, se voltarmos nosso olhar para o mundo profissional, rapidamente descobriremos diferentes rótulos que escondem, como em um baile de máscaras, pessoas sem formação que tentam ocupar ou se mostrar como uma alternativa válida frente ao profissional.

Curandeiros da alma, conselheiros de corações perdidos ou coaches da vida e do amor. Para especificar todas as formas ou mensagens pseudopsicológicas, eu precisaria de um artigo inteiro.

Sessão de terapia com psicóloga

A formação como via profissional

O que falta? Por que essas pessoas não são psicólogas? Em primeiro lugar, porque não tiveram uma formação completa e estruturada que se apoia em uma boa quantidade de estudos realizados com base no que hoje conhecemos como uma metodologia científica.

Em outras palavras, um psicólogo, pelo menos no papel, deveria apresentar para cada caso e pessoa uma intervenção adaptada – com base em padrões gerais – que melhor se ajuste a suas circunstâncias, maximizando a possibilidade de sucesso e levando em conta a relação entre investimento de recursos e resultados.

Para fazer isso, é necessário ter o conhecimento, assim como os canais para atualizá-lo. Dessa maneira, a pesquisa de nada serviria se os profissionais que têm que projetar e elaborar intervenções não fossem sensíveis e habilidosos para ir além da prática profissional diária com suas conclusões.

Por outro lado, é preciso ter experiência. Em outras palavras, uma pessoa se forma psicóloga, mas também se torna. É o tempo de atividade que, em muitos casos, acaba aguçando a intuição e moldando essa prática clínica não consciente em que as potencialidades das quais falamos anteriormente – capacidade de tomar decisões, escutar, colocar-se no lugar do outro, etc. – acabam ganhando forma.

Dizer que uma pessoa é psicóloga fora desse contexto é como pensar que alguém é um pouco médico porque passou por uma forte gripe e tomou medidas que ajudaram na sua recuperação. A psicologia, assim como a medicina, vai muito além desses problemas de solução simples ou natural que o próprio tempo curaria.

Por isso, entre outros motivos, minha querida avó não é psicóloga. Experiente, dotada de uma sabedoria que deixa na pele a lembrança de soluções e proposições acertadas, a mudança de contexto. No entanto, frágil ou carente em relação ao que as pesquisas dizem sobre distúrbios, como o estresse generalizado ou a depressão.

Vera, Isabel (2001). El perfil del psicólogo en la intervención inmediata. Revista de Protección Civil. 8.