Empatia instrumental: a base da manipulação psicológica

dezembro 28, 2019
A empatia instrumental está muito presente nos perfis narcisistas e psicopáticos. São pessoas que intuem nossas realidades emocionais, mas optam por usá-las a seu favor.

A empatia instrumental é a dimensão que costuma caracterizar os psicopatas e narcisistas. Porque, diferentemente do que podemos pensar, esses perfis são capazes de identificar e ler as nossas emoções. No entanto, uma vez que o fazem, usam essa conexão para nos manipular, para nos levar ao seu terreno e alcançar uma meta própria sem expressar qualquer ressentimento por isso.

Na articulação social, a empatia se encontra no quadrante do positivo e do desejável. Esquecemos, talvez, aquele reverso menos reluzente e complexo que essa dimensão apresenta. Assim, é comum dizermos a nós mesmos que as pessoas capazes de prejudicar os outros, física ou psicologicamente, carecem dessa capacidade de empatizar com o próximo.

No entanto, um estudo publicado na revista Brain realizado pelos médicos Harma Meffert e Valeria Gazzola aponta algo que deve ser levado em consideração. O sistema espelho, ou seja, a capacidade de sintonizar as emoções dos outros graças aos neurônios-espelho, está presente mesmo em psicopatas que chegaram a cometer atos criminosos.

No entanto, essa conexão é breve, pontual e visa propósitos específicos. Portanto, não lhes falta empatia, mas há um desejo claro de instrumentalizar o outro.

“Quem luta com monstros precisa se cuidar para não se tornar um monstro”.
-F. Nietzsche-

Mulher sendo manipulada

Empatia instrumental: sinto sua dor, mas não me importo

Graças à neurociência cognitiva, temos feito muitas descobertas sobre o comportamento humano. Uma delas é perceber, por exemplo, que o processo empático ocorre em muitas áreas do nosso cérebro. São necessárias habilidades diferentes para fazer contato com realidades alheias, para saber o que o outro sente, o que pode estar pensando e o que nós sentiríamos em seu lugar.

Especialistas na área, como o Dr. Frans de Waal, um conhecido primatologista, apontam que, às vezes, esses processos podem aparecer de maneira diferente em cada indivíduo. Ou seja, existem pessoas (incluindo os primatas) que entendem a realidade emocional de seus semelhantes e são motivadas a fazer algo para beneficiar esse igual.

Em vez disso, outros identificam essas emoções e optam por não fazer nada a respeito. Eles não sentem essa necessidade, esse comportamento motivado.

Existe também uma terceira via. É a que cria a empatia instrumental e define um indivíduo que, consciente das emoções dos outros, as usa para uma finalidade. Existe uma ação e nada mais é do que manipular e causar danos sem acusação de consciência ou remorso.

O uso da empatia instrumental na manipulação

Características da empatia instrumental

Pessoas com uma empatia instrumental costumam ser tão encantadoras quanto ambíguas. Chegamos a pensar que elas realmente se importam conosco. Nós nos convencemos de que o sentimento é autêntico e de que os seus comportamentos são nobres.

No entanto, esses comportamentos têm um fim. Esses tipos de traços são, como dissemos, muito comuns na personalidade psicopática e até em narcisistas. Também podem aparecer em pessoas interesseiras e egoístas. Vamos ver quais são as suas características:

  • Possuem uma empatia cognitiva. Ou seja, eles têm uma ideia do que a outra pessoa sente ao observar o seu comportamento, expressão, tom de voz… Entendem, mas não se aprofundam, nunca demonstram empatia emocional, na qual “sentem” na própria pele o que o outro experimenta.
  • Christian Keysers, da Universidade de Groningen, ressalta que as pessoas com perfil psicopático sentem emoções; no entanto, sua empatia parece ter uma espécie de “interruptor”. Ou seja, é um processo que vem e vai. Quando aparece, o faz de maneira breve e pontual e, quando o faz, busca um objetivo. Tiram informações de nós para conhecer vulnerabilidades e poder nos usar, nos manipular.

O que podemos fazer diante de alguém que não sinta empatia “emocional” por nós?

A empatia instrumental não é comparável à empatia emocional. Não existe uma conexão profunda, não se colocam em nossa pele e não existe um desejo de promover o nosso bem-estar.

Além disso, o que geram a curto e longo prazo é um dano, uma violação. Portanto, a pergunta que permanece no nosso horizonte é: o que fazer diante daqueles que não se conectam emocionalmente conosco?

Um estudo realizado em 2011 e publicado no Journal of Personality and Social Psychology mostrou que indivíduos com um perfil narcisista são conscientes de que os outros não têm uma imagem muito positiva deles. Eles sabiam que geravam desconfiança. No entanto, isso não os preocupava. Para eles, não havia razão para promover nenhuma mudança.

Portanto, estamos diante de perfis de personalidade nos quais não identificamos apenas uma ausência de conexão emocional autêntica. Além disso, eles não se importam em fazer mal e não se preocupam com a atribuição negativa que temos da pessoa deles.

São figuras altamente patológicas, que costumam apresentar muitos outros transtornos psicológicos. Por isso, raramente darão o passo de procurar ou aceitar ajuda profissional para gerar mudanças.

Manipulação psicológica

Randall Salekin, da Universidade do Alabama, especialista em personalidade psicopática, está realizando programas de “remodelação” mental para trabalhar esses aspectos. O objetivo é muito ambicioso: conseguir ativar uma empatia emocional verdadeira nesse setor da população.

De nossa parte, se conhecermos alguém que aplique a empatia instrumental, o mais apropriado será sempre estabelecer uma distância adequada. Uma barreira de segurança pessoal.

  • De Waal, Frans. The age of empathy: Nature’s lessons for a kinder society. Broadway Books, 2010.
  • Decety, J. (2015). The neural pathways, development and functions of empathy. Current Opinion in Behavioral Science, 3, pp. 1-6.
  • Shirtcliff, E. A., Vitacco, M. J., Graf, A. R., Gostisha, A. J., Merz, J. L., & Zahn-Waxler, C. (2009). Neurobiology of empathy and callousness: Implications for the development of antisocial behavior. Behavioral Sciences and the Law. https://doi.org/10.1002/bsl.862