Por que nossos esquemas mentais caminham na nossa frente?

02 Março, 2021
De acordo com Jeffrey Young, os esquemas mentais são crenças que estão mentalmente enraizadas e que podem se desenvolver e durar por toda uma vida. Dessa maneira, os esquemas mentais seriam capazes de condicionar nosso modo de pensar, sentir e agir.

Quando falamos de esquemas mentais, nos referimos, de acordo com Young, àquelas crenças estáveis, enraizadas e duradouras que se desenvolvem e se refinam ao longo da vida de um indivíduo.

Em outras palavras, seriam a “nossa forma de ser e de agir no mundo”. Quando esses esquemas são disfuncionais, podemos encontrar casos em que os indivíduos se associam, frequentemente, com pessoas que não lhes fazem bem, com comportamentos tóxicos ou destrutivos, reações desproporcionais e problemas ou situações nada desejáveis, de maneira geral.

Tais circunstâncias surgem com uma frequência relativa, colocando as pessoas em padrões dos quais elas frequentemente não possuem consciência, fazendo com que se sintam confusas e incapazes de explicar com maiores detalhes o que está havendo com elas.

Os esquemas possuem características comuns. De acordo com a terapia de esquemas mentais proposta por Jeffrey Young, tais características seriam as seguintes: os esquemas são tomados como verdades a priori, se autoperpetuam, resistem à mudança, são disfuncionais, geralmente são criados e ativados pelas experiências circunstanciais e costumam possuir uma carga afetiva elevada.

Além disso, em certas ocasiões, os esquemas mentais são alimentados ou gerados a partir de experiências traumáticas ou negativas, que costumam se fixar e ser reforçadas justamente através desses padrões que elas alimentam.

Mulher pensativa na varanda

Esquemas mentais que caminham na nossa frente

Quando falamos que os esquemas mentais caminham diante de nós, nos referimos ao fato de que, por se tratarem de experiências tão enraizadas, internas e emocionais, uma vez que encontramos situações que precisamos enfrentar, nossos esquemas já traçaram as rotas que devemos seguir, ou seja, já começaram a agir.

Pense em situações da sua vida cotidiana em que certas repetições ocorrem, por exemplo: dependência emocional entre casais, colocar as necessidades dos outros antes das suas próprias necessidades, sucumbir a vícios, etc. Pode ser qualquer outra conduta prejudicial, mas que está sempre ali, presente, sem dar chance para que nos libertemos dela, apesar de qualquer dano que ela nos cause. Isso acontece com você?

Agora, pense nessas condutas: você já sabe que elas não são o caminho apropriado, sabe que existem outras alternativas a serem tomadas e que, depois que você as repete, se sente péssimo… Porém, ainda assim, você continua agindo de maneiras tóxicas consigo mesmo. Isso acontece porque, parando para pensar, os esquemas mentais já haviam estabelecido os padrões comportamentais que costumamos repetir. 

Além disso, quando alguém questiona por que você continua fazendo o que faz, você não é capaz de dar uma resposta concreta. Você já entende que não está certo, já sabe que isso prejudica e incomoda a sua vida, mas, ainda assim, é muito difícil (quando não impossível) abandonar esses caminhos.

Isso se deve ao fato de que os esquemas mentais são altamente emocionais. Eles nascem em nosso íntimo e são o resultado de diferentes experiências que ocorreram na infância, se desenvolvendo como feras indomáveis. Quando passamos por certas “situações de risco”, não sabemos o que acontece, mas quando nos damos conta, já perdemos o controle. Os esquemas já cumpriram o seu dever.

Como mudar os nossos esquemas?

A inércia não combate os esquemas, ou, no mínimo, é muito difícil combatê-los através da inércia. Portanto, é preciso que façamos um exercício consciente de análise no qual entram em jogo o poder de decisão e a força de vontade.

Para nos ajudar, existem várias estratégias e técnicas psicológicas, sejam elas de abordagem cognitiva, comportamental ou emocional. Com a ajuda de um diário, é pertinente começarmos a monitorar as situações que, de alguma forma, nos perturbam emocionalmente. Não só isso, mas também aquelas situações que nos fazem agir contrariamente a como agiríamos caso estivéssemos conscientes.

Por exemplo, uma pessoa que sofre de dependência emocional por conta da ausência dos pais na infância pode ter um esquema mental de “abandono”. Consequentemente, durante a vida adulta, ela reproduz esse padrão nas relações amorosas, que acabam terminando.

Homem preocupado

É interessante, então, que a pessoa entenda e compreenda esse padrão, visualizando suas repercussões em seu dia a dia, monitorando situações que sejam semelhantes e nas quais a dependência emocional esteja presente, com tudo o que ela implica. Uma vez registrados em um diário de terapia pessoal, os comportamentos e pensamentos que essas situações têm em comum podem ser analisados. Você costuma ceder nas suas relações sociais? É difícil para você deixar relacionamentos mesmo que eles não lhe tragam nada de bom?

Quando conseguimos identificar esses pontos superficiais, começamos a elaborar estratégias para tentar evitar que esses padrões se repitam, na medida do possível. Nessa perspectiva, romper com os esquemas mentais implica o enfrentamento daquilo que os esquemas pedem de nós, fazendo isso não por oposição, mas por inteligência.

Se para você é difícil dizer “não”, tente não fugir de situações nas quais você precise ser assertivo. Se você costuma se engajar em relações tóxicas por medo da solidão, comece a explorar todo o lado positivo que conseguir encontrar nessa solidão que você tanto teme.

No começo isso será incômodo, e será preciso que você esteja disposto a chegar num ponto em que consiga tolerar esse desconforto. Lembre-se de que você não está acostumado a escolher essa forma de agir e de que você está tentando deixar seus automatismos de lado.

Às vezes, por melhor que façamos este trabalho, não nos restará escolha a não ser conviver com as cinzas desses esquemas durante longos períodos de tempo. 

Dessa forma, podemos até demorar para mudar nossa forma de ser no mundo, mas avançaremos nessa direção se direcionarmos nosso lócus de controle para além dos nossos esquemas mentais.

  • Rodríguez Vílchez, E., La terapia centrada en esquemas de Jeffrey Young. Avances en psicología (2009)