A falácia do franco-atirador

03 Novembro, 2020
Você sabe o que é a falácia do franco-atirador? Neste artigo, contaremos a origem desse fenômeno do pensamento e como ele pode influenciar a mente ao selecionar informações.

Antes de explicar o que é a falácia do franco-atirador, vamos começar explicando em que consistem as falácias. Na filosofia, e mais especificamente no campo da lógica, falácias são argumentos que inicialmente parecem válidos, mas que abrigam um viés que anula completamente o seu conteúdo. As falácias são usadas sobretudo em debates, em discussões… às vezes conscientemente e às vezes inconscientemente.

Neste artigo, vamos falar sobre uma falácia muito comum; a falácia do franco-atirador. Conheceremos a sua origem, em que consiste e como esse fenômeno modifica a forma de interpretar e selecionar informações, a fim de verificar as nossas ideias ou crenças. Além disso, veremos também exemplos a respeito para entender um pouco melhor essa falácia e algumas ideias para preveni-la (ou combatê-la).

Homem pensativo e preocupado

O que é a falácia do franco-atirador?

A falácia do franco-atirador é muito comum. Certas informações (sem um significado inicial) são interpretadas, inventadas ou manipuladas até que pareçam ter um significado ou até que cumpram nossa hipótese inicial. Ela também é conhecida como a falácia do atirador do Texas (em inglês, Texas Sharpshooter Fallacy).

Através desse fenômeno, é realizado um raciocínio que elimina qualquer indício sugestivo de que uma das nossas ideias esteja errada, enfatizando as informações que parecem apoiar a nossa hipótese. Dessa forma, por meio dessa falácia podemos chegar a distorcer a realidade e interpretá-la como nos convém, desfigurando o que se observa para aproximar o que queremos defender.

Origem

Para entendermos melhor o fenômeno da falácia do franco-atirador, vamos falar sobre a sua origem. O nome dessa falácia vem da seguinte história: um atirador disparou vários tiros aleatoriamente contra um celeiro. Depois, ele pintou um alvo em cada um deles para acabar se autoproclamando um franco-atirador.

Ou seja, após realizar sua ação, o franco-atirador tomou as medidas necessárias para que aquela ação tivesse lógica ou sentido, a fim de “vencer” ou se sentir “vitorioso”. Em outras palavras: ele alterou os dados (pintou os alvos) para confirmar a sua hipótese (ganhar).

Assim, de acordo com essa falácia, pegaríamos os dados observados, modificando-os, para confirmar as nossas hipóteses (assim como fez o franco-atirador na história).

Exemplos

Para continuar entendendo o fenômeno da falácia do franco-atirador, vamos pensar em um exemplo que poderíamos encontrar perfeitamente na nossa vida cotidiana.

Imaginemos que sonhamos com o número 7 e que, naquele dia, estivemos num hotel, no quarto 362 (que antes desconhecíamos). Se aplicarmos a falácia do franco-atirador aqui, diríamos que tivemos uma premonição no sonho, uma vez que 3+6-2 = 7, e 7 era o número com que sonhamos. Ou seja, manipulamos os dados para confirmar a nossa hipótese.

Outro exemplo dessa falácia é a interpretação das constelações estelares: tendemos a traçar uma sucessão de linhas imaginárias para ligar as estrelas e formar figuras, quando na realidade sua posição é determinada pelo acaso. Nesse caso, ignoraríamos os corpos celestes que poderiam distorcer a figura que estamos “procurando”.

Como selecionamos as informações?

Como vimos, através da falácia do franco-atirador, as pessoas podem desvalorizar informações que são inconsistentes com suas ideias, bem como manipular ou ajustar as informações para convencer alguém (ou a si mesmas) de algo. Além disso, por meio desse fenômeno, ampliamos a importância daquilo que pretendemos defender.

Outra forma de interpretar a falácia do franco-atirador, em termos de seleção de informações, é a seguinte: ignoramos as diferenças que podem existir em nossos dados e enfatizamos as semelhanças. Feito o raciocínio em questão, inferimos uma conclusão, que pode ser considerada falsa.

Ilusão de agrupamento e apofenia

O fenômeno da falácia do franco-atirador está relacionado ao que na psicologia cognitiva chamamos de ilusão de agrupamento. A ilusão de agrupamento é aquela tendência que temos de considerar (ou ver) padrões ou agrupamentos que, na verdade, não existem.

Por outro lado, essa falácia também tem a ver com outro conceito, a apofenia. Trata-se de um termo usado para se referir à experiência de ver padrões e conexões em eventos aleatórios ou sem sentido, algo muito semelhante ao anterior.

No entanto, é preciso notar que esses dois conceitos introduzidos podem ser interpretados a partir da psicologia cognitiva e da estatística, adquirindo nuances diferentes em cada disciplina. Desde a psicologia cognitiva, nós os relacionamos com a falácia do franco-atirador, porque através desta, podemos chegar a estabelecer padrões que realmente não existem, a fim de justificar ou demonstrar as nossas ideias ou para convencer os outros de (ou sobre) algo.

Tiro ao alvo

Como evitar a falácia do franco-atirador?

A falácia do franco-atirador, como muitas outras, nem sempre é usada conscientemente. Quer façamos isso conscientemente ou não, deixaremos aqui algumas ideias-chave para evitar o surgimento dessa falácia:

  • Procure argumentos contra: será importante não apenas buscar argumentos a favor das nossas hipóteses, mas também contra elas.
  • Evite estar sempre com a razão: isso nos ajudará a tentar demonstrar as nossas ideias de uma forma mais objetiva e lógica.

Com essas duas pequenas ações e, estando cientes do risco de cometer a falácia do franco-atirador, podemos minimizar o risco da sua aparição e discutir as nossas ideias com muito mais segurança. Mesmo assim, todos corremos o risco de cometê-la. Nesse sentido, também será importante saber como detectá-la nos outros!

“A lógica é raciocinar com critério.”
-Anônimo-

  • Comesaña, Juan Manuel (2001). Lógica informal, falacias y argumentos filosóficos. Buenos Aires: Eudeba.
  • D. H. Fischer. (1970). Historians’ Fallacies: Toward a Logic of Historical Thought, Harper Torchbooks.
  • Ortiz Frida, García María del Pilar (2005): Metodología de la investigación. México: Limosa.