Ignacio Martín-Baró e a psicologia da libertação

· março 16, 2019
Você conhece Ignacio Martín-Baró? Descubra quem foi esse jesuíta que desenvolveu a psicologia da libertação.

Ignacio Martín-Baró é o pai da psicologia da libertação. Esse jesuíta fundou um novo movimento que mudou a forma de entender a psicologia social. Tomando outros movimentos de libertação como ponto de partida, Martín-Baró direcionou a psicologia social aos estudos dos contextos e problemas das pessoas que estudava.

Talvez ele não seja muito conhecido fora da América, mas é uma referência central em alguns países dessa região. De suas ideias derivam escolas como a psicologia comunitária, que foca em empoderar as comunidades com as quais trabalha, na luta contra a pobreza, na defesa da democracia e da saúde mental.

Vida de Martín-Baró

Martín-Baró nasceu na Espanha, em Valladolid, e se juntou à Companhia de Jesus. Como um jesuíta, ele foi designado para a América Central. Estudou filosofia, teologia e psicologia, e finalmente se estabeleceu em San Salvador, na República de El Salvador.

Sua tese de doutorado tratou de atitudes e conflitos sociais em El Salvador. Especificamente, Martín-Baró escreveu sobre a densidade populacional das classes sociais mais baixas nessa região.

Ignacio era professor convidado em diferentes universidades de vários países, mas passou a maior parte do tempo na Universidade Central José Simeón Cañas, em San Salvador. Por fim, Ignacio foi morto por um pelotão do batalhão Atlacatl das Forças Armadas de El Salvador, sob as ordens do coronel René Emilio Ponce, em 16 de novembro de 1989, junto com outros padres. O crime é conhecido como o dos mártires da UCA, a Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas de San Salvador.

Ignacio Martín-Baró

A teologia e a filosofia da libertação

A psicologia da libertação parte de três movimentos que emergiram anteriormente. São eles: a teologia da libertação, a filosofia da libertação e a pedagogia da libertação. A teologia da libertação propõe focar-se nos mais necessitados, isto é, nos pobres. A partir do cristianismo, reconhecem a opressão e as injustiças sobre esse setor da sociedade, e advogam o uso das ciências humanas e sociais.

“Queridos filósofos, queridos sociólogos progressistas, queridos psicólogos sociais: não se metam tanto com a alienação aqui onde o ferrado é a nação alheia”.
-Roque Dalton-

Por sua vez, a filosofia da libertação centra-se na criação de conhecimento. Argumenta que a maior parte do conhecimento que é estudado vem de homens ocidentais de classe média; isto é, o conhecimento que vem de outras pessoas não é considerado válido.

Portanto, a filosofia da libertação propõe aprender, através do diálogo, com o conhecimento daqueles “outros” que não são levados em consideração.

Pedagogia e psicologia da libertação

Outra das bases do pensamento da psicologia da libertação encontra sua fundamentação no pensamento de Paulo Freire, que criou um movimento educativo conhecido como a pedagogia da libertação. Esse movimento considerava que a educação libertadora era um processo de renovação da condição social do indivíduo, entendendo o sujeito como um ser pensante e crítico que reflete sobre a realidade que vive.

“O conhecimento psicológico deve ser colocado a serviço de uma sociedade na qual o bem-estar dos menos não se baseie no desconforto dos mais, na qual a realização de uns não requeira a negação de outros, na qual o interesse de poucos não exija a desumanização”.
-Ignacio Martín-Baró-

Assim, a pedagogia da libertação buscava educar no pensamento crítico e, ao mesmo tempo, útil; isto é, educar em valores igualitários sem usar doutrinação. Não educar de acordo com os interesses da economia, mas com os interesses pessoais. Ensina as pessoas a compreender o mundo a partir de sua experiência e reflexão crítica. Esses fundamentos foram adotados na psicologia da libertação.

Mulher preocupada refletindo

A psicologia da libertação

Partindo dessas bases, Ignacio Martín-Baró fundou o que é conhecido como a psicologia da libertação. A proposta consiste na ideia de que a psicologia deveria partir do contexto estudado e se concentrar nos problemas das pessoas que vivem nesse contexto. Assim, defende uma psicologia focada em contextos específicos, e não em contextos artificiais. O jesuíta também acreditava que a psicologia não é imparcial, por isso defendia uma psicologia crítica e posicionada.

Com essas ideias, Martín-Baró criou o Instituto Universitário de Opinião Pública, um organismo que fazia pesquisas com a população para, posteriormente, compartilhar os dados obtidos. Dessa forma, Martín-Baró desmistificou muitas das crenças do povo; o que é conhecido como desideologização. Em contrapartida, suas políticas encontraram ideias opostas, o que levou ao seu assassinato.

  • Martín-Baró, I. (1998). Psicología de la liberación. Madrid: Trotta.