Inteligência intrapessoal: o que é e como nos ajuda?

Inteligência intrapessoal: o que é e como nos ajuda?

agosto 21, 2017 em Psicologia 638 Compartilhados
Inteligência intrapessoal: o que é e como nos ajuda?

Mergulhar no nosso interior, navegar nos submundos dos nossos pensamentos ou nos emaranharmos em nossa sempre plácida introspecção são os traços que definem essa habilidade que Howard Gardner definiu como inteligência intrapessoal. Estas habilidades de autorreflexão e metacognição são as que, no fim das contas, nos permitem viver em harmonia com nós mesmos.

Contar com uma imagem precisa, adequada e real de nós mesmos não é tarefa fácil. Requer, antes de mais nada, ser plenamente conscientes de nossos estado de ânimo, conjugar a autoestima com a disciplina e com a automotivação; equilibrando o produto destes três elementos com a capacidade para resolver problemas, nos adequando a nosso mundo interior.

“Não existe barreira, fechadura, nem ferrolho que possa ser imposto à liberdade da minha mente.”
-Virginia Woolf-

Por outro lado, cabe lembrar que a inteligência intrapessoal faz parte da revolucionária teoria das inteligências múltiplas que Howard Gardner apresentou nos anos 80, através do seu livro “Frames of Mind: The Theory of Multiple Intelligences”. A sua abordagem, como sabemos, suscitou, e suscita, grandes paixões e opiniões igualmente críticas, tanto no âmbito acadêmico quanto entre os profissionais da educação, pedagogos e professores.

O seu propósito era servir como contrapeso ao paradigma da inteligência única, às provas padronizadas tão limitadas, e proporcionar, por sua vez, uma alternativa a tal reducionismo, abrindo muito mais o leque de possibilidades ao que na verdade pode ser a inteligência. A vida das pessoas, afirma Gardner, requer outros tipos de habilidades que se adequem muito mais a como aprendemos, interagimos e realizamos nossos processos de pensamento.

Embora seja verdade que muitos psicólogos cientistas como Robert J. Sternberg alertam que não existe validade científica na abordagem de Gardner e que o que ele define como inteligências na verdade são “aptidões” ou “habilidades”, não podemos deixar de lado o impacto tão positivo da sua teoria na hora de melhorar nosso potencial humano, encarando a aprendizagem como uma coreografia de dimensões nas quais trabalhar em nosso dia a dia.

A inteligência intrapessoal é a sétima dessas nove inteligências e, sem dúvida, uma das mais valiosas…

Mulher navegando em nuvem

A inteligência intrapessoal: a capacidade de olhar para dentro de si

Poderíamos dar muitos exemplos de personalidades que mostraram um notável potencial nesta dimensão que Gardner definiu como inteligência intrapessoal. Virginia Woolf, por exemplo, oferece no seu ensaio “A Sketch of the Past” um exemplo enfático dessa imersão no próprio ser onde procura elucidar pensamentos, sensações presentes com relação ao próprio passado.

Outro exemplo de introspecção quase descarnada aparece em “A metamorfose” de Kafka, onde Gregor Samsa acorda e descobre que se transformou em um inseto. Também o próprio Albert Einstein trabalhou infinitamente a sua inteligência intrapessoal quase sem perceber. Era muito adepto a longos passeios, onde explorava seus pensamentos, onde se conectava consigo mesmo e com relação a suas teorias matemáticas, com o cosmos e a forma de funcionar do universo.

Encarando estes exemplos quase chegamos à conclusão de que tal habilidade, tão mágica obra do pensamento, é quase uma capacidade natural dos escritores, poetas, ou cientistas. Se isso acontece, é por uma série de razões muito simples nas quais muitos de nós, sem distinção entre sermos poetas ou engenheiros, podemos nos sentir identificados: são pessoas independentes, que apreciam a sua solidão, são criativas e demonstram uma notável autonomia pessoal.

Vejamos a seguir quais são os traços básicos que as definem.

Menina em cavalo marinho

Como é uma pessoa com inteligência intrapessoal?

Peguemos um simples exemplo. Marcos tem 17 anos e acaba de chegar em casa da escola. Não foi um dia legal. Não cumprimenta ninguém e se tranca no seu quarto batendo a porta. Em seguida começa a jogar com seu XBox, para depois, começar a publicar nas redes sociais frases agressivas de como odeia o mundo e as pessoas que vivem nele.

Este adolescente precisa, sem dúvidas, de ferramentas apropriadas, com as quais começar a construir uma boa e resolutiva inteligência intrapessoal, onde possa ser capaz de administrar suas emoções, se equilibrar e inclusive adquirir uma boa consciência ética.

Desta forma, poderíamos resumir a inteligência intrapessoal com as seguintes dimensões:

  • São habilidosos no autocontrole e na metacognição.
  • A introspecção, o ato deliberado de olhar para dentro de si com o fim de compreender melhor a natureza dos próprios pensamentos ou sentimentos, é um traço fundamental.
  • São bons administrando as emoções.
  • São pessoas que têm prazer em seus momentos de solidão, os quais aproveitam para se conectar consigo mesmas.
  • São assertivas, sabem expressar em voz alta suas emoções e necessidades respeitando os outros.
  • Possuem uma boa autodisciplina e autocontrole.
  • Têm uma boa autoestima.
  • Têm uma boa consciência das próprias limitações e de seus conhecimentos.
  • Analisam suas ações, avaliam o seu impacto e aprendem dos seus erros.
  • Estão conectados ao presente, o aqui e agora.

Todos podemos melhorar nossa inteligência intrapessoal

A inteligência intrapessoal se resume basicamente à capacidade de ver com realismo e veracidade a forma como somos e o que queremos. Uma coisa tão básica na essência é uma dimensão que, lamentavelmente, nem sempre desenvolvemos de forma eficaz e real. O que fazemos muitas vezes é sobreviver com uma imitação com a qual a duras penas acreditamos estar em sintonia com nossas próprias emoções, com nossas necessidades e pensamentos.

“No futuro seremos capazes de individualizar, de personalizar a educação tanto quanto quisermos.”
-Howard Gardner-

Embora seja verdade que este tipo de inteligência deveria estar incorporada em muitas áreas curriculares das escolas e institutos, cabe dizer que sempre estamos a tempo de potencializá-la, de nos apropriarmos para melhorar emocional e pessoalmente. A seguir, convidamos você a refletir sobre algumas estratégias simples.

Mulher voando em coruja

Vale lembrar, antes de mais nada, que a inteligência intrapessoal, diferentemente das outras propostas por Gardner, só se torna visível através de atitudes e gestos. É, portanto, uma obra interior que requer, em primeiro lugar, uma compreensão ótima e profunda de nós mesmos.

Estes são alguns mecanismos básicos para conseguir isso.

  • Tenha um diário, escreva seus pensamentos, sensações, lembranças… Aprofunde-se neles.
  • Pratique a meditação, saia para caminhar, para correr… São formas espetaculares de se conectar consigo mesmo.
  • Mantenha sempre uma atitude de reflexão, não apenas reativa.
  • Seja crítico consigo mesmo, faça autoavaliações.
  • Aprenda a pensar melhor: organizar ideias, faça mapas cognitivos, torne explícito o que é implícito, compare, critique, analise, planeje…
  • Observe o seu entorno, conecte-se com o que o rodeia através de todos os seus sentidos e deduza como isso faz você se sentir ou o que lhe proporciona aquilo que você vê.
  • Potencialize sua criatividade.
  • Administre melhor suas emoções, dê nome a elas, canalize-as, explore-as…

Para concluir, tanto se concordamos ou não com a teoria das inteligência múltiplas de Howard Gardner, existe um aspecto que não podemos deixar de lado: constituem uma porta para desenvolver competências adequadas, para nos dar a oportunidade de experimentar a vida de uma forma mais plena, mais feliz e mais em harmonia com nós mesmos. A inteligência intrapessoal, é sem dúvida, uma das ferramentas mais valiosas.

Referências bibliográficas

  1. -Gardner, Howard (2008). Inteligencias múltiples. La teoría en la práctica. Barcelona: Paidós
  2. -Gardner Howard (2011) Mentes extraordinarias. Barcelona: Kaidós
  3. -Gardner, Howard (1998). “A Reply to Perry D. Klein’s ‘Multiplying the problems of intelligence by eight” Canadian Journal of Education 23 (1): 96-102.

Imagens cortesia de Lucy Campbell

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