O que é a Inteligência Musical e como podemos melhorá-la?

· setembro 6, 2017

A Inteligência Musical é um território sensível no qual está representada a essência criativa e artística do ser humano. Uma área que, por sua vez, possui uma linguagem própria e universal que todos deveríamos valorizar, que toda criança deveria ter a chance de conhecer. Por sua vez, poucas capacidades exigem tanta sensibilidade e um domínio tão sutil do ritmo, dos tempo, dos timbres e tons…

Até o momento ninguém conseguiu situar na história qual foi o momento específico em que surgiu a primeira expressão musical. A antropologia, na verdade, defende que a música sempre esteve presente, fazendo parte da nossa história evolutiva, impressa em uma parte muito especial do nosso cérebro. De fato, sabe-se que há 40 mil anos já existiam flautas com vários furos, como as encontradas em escavações na Alemanha.

“O treinamento musical é um instrumento mais potente que qualquer outro, porque o ritmo e a harmonia encontram seu caminho nas profundezas da alma.”
-Platão-

Além disso, e como curiosidade, há trabalhos que já se aventuraram a falar sobre essa capacidade simbólica dos neandertais, quando chegaram a perfurar falanges de animais com um fim pouco usual: usá-las como flautas para fazer música. É como se de algum modo o poder do som, da música e dos cânticos – já com fins cerimoniais, mágicos ou lúdicos – sempre fosse algo próprio da nossa espécie e dos nossos primos-irmãos. Algo que em essência parecia ter um propósito exclusivo: nos unir em grupo sociais.

Não podemos nos esquecer de que, assim como nos dizem os neurologistas, a música é uma das áreas que mais prazer proporciona, assim como a alimentação ou o sexo. Toda expressão musical é um canal para nossa linguagem emocional. Além disso, assim como nos revelou um estudo realizado por Gottfried Schlaug, um neurologista alemão, a música proporciona mudanças estruturais no nosso cérebro favorecendo o desenvolvimento da massa cinzenta.

Trabalhar nossa inteligência musical é uma forma excepcional de potencializar muitas outras áreas da nossa vida.

Inteligência musical

A Inteligência Musical e Howard Gardner

Já faz mais de trinta anos desde que Howard Gardner publicou sua obra de referência: “Frames of Mind: The Theory of Multiple Intelligences”. Hoje em dia, todos nós já ouvimos falar sobre a teoria das inteligências múltiplas e daquelas 9 capacidades humanas, dentre as quais a Inteligência Musical sempre teve uma posição de destaque por ser uma linguagem própria e um meio para a expressão da sensibilidade.

“Sem a música a vida seria um erro.”
-Friedrich Nietzsche-

Não vamos entrar aqui na discussão sobre a validade ou não dessa classificação. Algo que todos já sabemos é que o tema das Inteligências Múltiplas de Gardner é um aspecto tão elogiado quanto criticado por aqueles que defendem um único fator de inteligência (o fator G de Spearman). Seja como for, uma coisa que essa abordagem nos permite ver é o intelecto de uma maneira muito mais ampla, até o ponto de revolucionar – para o bem – o mundo da pedagogia e da educação.

No que se refere à Inteligência Musical, Howard Gardner afirma em seus livros que na realidade estamos diante de uma competência intelectual separada, cuja função pode ser localizada em uma área específica do cérebro. Assim, enquanto as habilidades linguísticas se lateralizam “quase” exclusivamente no hemisfério esquerdo, a maioria das capacidades musicais se concentram, na maioria das pessoas, no hemisfério direito.

Inteligência musical

Por outro lado, algo que desde sempre Noam Chomsky nos sugere é que as pessoas são geneticamente predispostas à comunicação e ao aprendizado da linguagem articulada. Howard Gardner também não fica atrás e nos indica algo com o que muitos especialistas estão de acordo: os recém-nascidos também possuem naturalmente uma predisposição para a música e para esses elementos que a definem, como o tom, a melodia, o ritmo…

No entanto, Gardner cita Jeanne Bamberger nos seus trabalhos, um músico e psicólogo de Massachusetts Institute of Technology, um especialista que insiste que “o pensamento musical possui suas próprias regras e limitações e não pode ser equiparado ao simples pensamento linguístico ou lógico-matemático”. Estaríamos, portanto, diante de um tipo de capacidade, de inteligência que deveria ser estimulada desde cedo no ser humano.

Como podemos desenvolver a Inteligência Musical?

Sabemos que há pessoas que nascem com uma habilidade natural para a música. De fato, temos exemplos fantásticos, como é o caso de Anthony Thomas “Tony” DeBlois, um jovem cego e com Transtorno do espectro autista (TEA) e que domina mais de 20 instrumentos musicais e toca de memória mais de 8.000 composições.

“Se eu não fosse físico, provavelmente seria músico. Frequentemente penso em música. Vivo meus sonhos em música. Vejo minha vida em termos musicais.”
-Albert Einstein-

No entanto, o fato de chegar ao mundo sem ter esse interesse precoce e maravilhoso pelo mundo da música não significa que não possamos adquirir uma boa Inteligência Musical. O que se precisa é de um meio familiar e educativo que facilite uma aproximação natural a essa disciplina, onde é possível desenvolver os aspectos criativos da música, onde trabalhar esse tipo de linguagem na qual se combinam o mundo emocional, a curiosidade, os padrões rítmicos, as letras…

O Instituto de Artes Cênicas de Liverpool, criada por Paul McCartney, por exemplo, defende essa mesma filosofia.

Inteligência musical

Habilidades a trabalhar para promover a Inteligência Musical

São muitos os músicos, psicólogos e pedagogos que afirmam uma coisa realmente positiva e que deveríamos levar em consideração: a música é um fator de bem-estar e um canal para melhorar a autoestima das crianças. Não estimula apenas a criatividade, ela melhora a atenção, diminui a ansiedade, favorece a reflexão e melhora as relações sociais.

Por isso, nunca é cedo demais para incluir as crianças nesse universo musical, onde se pode trabalhar as seguintes habilidades:

  • Identificar o ritmo, o tom e a melodia de uma peça musical.
  • Desenvolver a capacidade de reproduzir uma canção ou até modificá-la.
  • Aumentar a capacidade de se conectar emocionalmente com uma melodia, uma peça musical ou uma canção.
  • Conhecer vários gêneros musicais.
  • Saber identificar instrumentos.
  • Aumentar a capacidade de improvisar sons com ritmo utilizando qualquer objeto.
  • Habilidade para compor músicas e canções.

Para concluir, a expressão musical é uma forma natural de comunicação humana, é um fluxo rítmico que nos cativou desde o início dos tempos e que, por sua vez, tem a capacidade de nos melhorar como pessoas, de favorecer nosso desenvolvimento cerebral. Devemos, portanto, oferecer os meios adequados para que as crianças tenham ao alcance esse poder, essa maneira de expressão com a qual é possível enriquecer mais ainda a própria vida.

Referências bibliográficas:

Pirfano, Iñigo (2009) “Inteligencia Musical”. Plataforma: Madrid

Gardner, Howard (2011) “lnteligencias Múltiples: la teoría en la práctica”, Paidós Ibérica