Juan Rulfo: a biografia de um gênio da literatura

· maio 12, 2019
Juan Rulfo é um dos autores mais aclamados de sua geração. Autodidata, ambíguo e, acima de tudo, uma verdadeira lenda no México.

Juan Rulfo foi um escritor comovente que deu aos camponeses mexicanos uma voz universal. Apesar de não ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, deixou duas grandes obras, o romance ‘Pedro Páramo’ e o livro de histórias ‘A planície em chamas’.

O seu nome verdadeiro era Juan Nepomuceno Carlos Pérez Rulfo Vizcaíno. Não se sabe exatamente onde ele nasceu e vários locais estão sendo considerados: Sayula, como consta no seu registro de nascimento; Apulco, onde ficava a propriedade de sua mãe; ou San Gabriel, a cidade que marcou o seu coração. O que esses lugares têm em comum, além de estarem em Jalisco, são as cicatrizes da Revolução Mexicana e da Guerra Cristera.

“E eu abri a boca para deixá-la ir (minha alma). E ela se foi. Eu senti cair em minhas mãos o hálito de sangue com o qual ela estava amarrada ao meu coração”.
– Pedro Páramo, Juan Rulfo –

Um ato de violência marcou a infância desse escritor fabuloso. Ele nasceu em 16 de maio de 1917 e testemunhou as grandes convulsões sociais da década de 1920 no México. Quando ele tinha apenas 6 anos de idade, seu pai foi assassinado. A sua mãe foi muito afetada e morreu 4 anos depois. Isto fez com que a infância de Juan Rulfo se afundasse em uma fratura emocional, e ele só encontrou consolo na arte.

Os livros, a vida…

A educação de Juan Rulfo era instável, precisou mudar várias vezes de escola por diversos motivos. Após a morte de sua mãe em 1927, foi admitido na Escola Luis Silva em Guadalajara, por decisão de seu tio. Ele permaneceu lá até os 15 anos de idade.

Um de seus professores, o padre Irineo Monroy, inconscientemente deu-lhe um legado definitivo: os livros. Aquele padre tinha sido um censor eclesiástico, passava pelas casas revendo as publicações para determinar se era lícito lê-las ou não. Ele ficava com os livros que considerava proibidos e, dessa forma, criou uma extensa biblioteca.

Pilha de livros antigos

Quando ele morreu, deixou todos os seus livros na casa em que Juan Rulfo morava. A partir desse momento, a leitura se tornaria o grande passatempo de Rulfo. Certa vez, o próprio Rulfo disse: “passava todo o meu tempo lendo, ninguém podia sair porque poderia ser baleado”. Foi assim que ele cresceu e se formou: entre os livros de Alexandre Dumas, Victor Hugo e toda obra que caísse em suas mãos.

Na realidade, Rulfo não era um autor que gostava de falar sobre a sua vida. Às vezes, caía em ambiguidades ou dava dados incertos. Por muito tempo, ele afirmou ter nascido em 1918, mas de acordo com os documentos mais confiáveis, nasceu em 1917. Certamente, ele mudou a sua data de nascimento para se aproximar cronologicamente dos autores mais jovens e do ‘boom literário’ que se vivia no continente.

Juan Rulfo: um viajante e um criador

Juan Rulfo pertence ao grupo de escritores que nunca obteve um diploma universitário; ele era um autor autodidata. Ele tentou iniciar os seus estudos na Universidade de Guadalajara, mas uma longa greve o impediu. Ele queria revalidar as suas credenciais acadêmicas, mas foi impedido de fazê-lo. Então, em 1934, decidiu que não entraria na vida acadêmica, optando por um novo caminho. A partir deste momento, a sua alma de viajante se apoderou dele.

Em 1937, começou a trabalhar como classificador de arquivos na Secretaria do Governo de Guadalajara. Naquela época, ele também iniciou uma amizade decisiva com Efrén Hernández, a primeira pessoa que acreditou em seus escritos e o encorajou a torná-los públicos. Em 1941, ocupou o cargo de agente migratório e lá conheceu o escritor Juan José Arreola, que exerceu forte influência sobre ele.

Naqueles tempos, ele já havia desenvolvido as outras paixões que sempre o acompanharam: fotografia, história e antropologia. Juan Rulfo, que mais tarde se tornou conhecido através de grandes obras, já estava formado.

Juan Rulfo: um escritor universal

No ano de 1948, Juan Rulfo se casou com Clara Aparício, com quem teve vários filhos. Pouco a pouco a sua fama como escritor e intelectual cresceu e ele foi premiado com várias bolsas de estudo que foram conferidas pelo Centro de Escritores do México. Isso lhe permitiu dedicar-se totalmente à escrita.

Em 1953 publicou ‘A planície em chamas’ e em 1955, ‘Pedro Páramo’. Este último é considerado um dos grandes romances da literatura universal.

Estas duas grandes obras deram fama nacional e internacional a Juan Rulfo. Na época, ele foi o escritor mais reconhecido de todo o México. Recebeu elogios de grandes escritores como Jorge Luís Borges, Susan Sontag, Gabriel García Márquez e muitos outros.

Os últimos vinte anos de sua vida foram dedicados ao Instituto Nacional Indígena do México, onde realizou a edição de uma das mais importantes coleções de antropologia. Ele também fez várias exposições fotográficas e publicou novas obras literárias nos anos 80.

Rulfo foi um dos primeiros autores que conseguiu incorporar a linguagem popular e local em seus romances sem a necessidade de incluir um glossário. Ou seja, sem a necessidade de um manual que permitisse a sua decodificação. O próprio texto já servia para interpretar o significado e compreender os aspectos mais populares da sua linguagem. Na América Latina, há uma tendência crescente em direção ao regionalismo e à cultura local.

Herminio Martínez e Juan Rulfo
Herminio Martínez e Juan Rulfo

Conclusão

Rulfo marcou um antes e um depois. Sem a sua obra, não poderíamos entender a literatura posterior. O mundo de Rulfo não é tanto regionalista, mas sim rural. Isto o tornou um autor mítico que foi referenciado e elogiado por inúmeros autores.

A lenda de Rulfo foi construída como uma espécie de mito; marca uma espécie de distância irônica entre o leitor e ele. Esta lenda foi reforçada pelo seu silêncio. Rulfo parou de publicar a partir de 1955, mas as razões são incertas. Alguns estudiosos queriam ver nelas pouco de ansiedade, mas também não conseguiram esclarecer os motivos. O paradoxo desse autor é que, à medida que a sua fama como escritor aumentava, a sua produção diminuía.

A sua fama o consagrou como um dos autores mais reconhecidos do México e os prêmios foram imediatos. Em 1983, recebeu o Prêmio Príncipe das Astúrias, embora tenha morrido alguns anos depois, em 1986.

Não é fácil descrever com palavras o que a obra de Juan Rulfo provoca. Basta dizer que não se parece com nada conhecido e, ao mesmo tempo, é familiar a tudo.

  • Rulfo, J., & Roffé, R. (1992). Juan Rulfo: autobiografía armada (Vol. 1). Barcelona, Montesinos.