LATE, um novo tipo de demência

20 Abril, 2020
Todos sabemos a complexidade que está por trás da demência em todas as suas manifestações. Como se isso não fosse o suficiente, um novo tipo de demência, LATE, foi descoberto recentemente e pode estar por trás de muitos casos de Alzheimer mal diagnosticados. Falamos mais sobre o tema a seguir.
 

A doença de Alzheimer é, atualmente, uma das mais prevalentes no mundo, com mais de 46 milhões de pessoas afetadas. Dessa forma, o estudo das demências é um dos maiores desafios que a ciência enfrenta. Apesar de já termos evoluído muito, ainda há muito para entender e, por isso, é inevitável que ocorram novas descobertas. Um exemplo é a aparição de um novo tipo de demência, LATE.

Ainda que vários tipos de demência já sejam conhecidos e que já se tenha assumido a possibilidade de que elas podem coexistir entre si, existem certas incoerências que chamam a atenção dos cientistas. Por exemplo, em pacientes com Alzheimer severo que são maiores de 80 anos, o declínio cognitivo pode exceder o esperado. Aparentemente, esse novo tipo de demência poderia explicar esses casos fora da curva.

Idoso preocupado

LATE, um novo tipo de demência

A sigla LATE se refere à Encefalopatia TDP-43 predominantemente Límbica associada com a Idade. A LATE está relacionada com a proteína TDP-43, que já foi vista e relacionada com outras doenças degenerativas anteriormente, como a esclerose lateral amiotrófica (ELA) e a degeneração do lobo frontotemporal (FTLD).

 

A TDP-43 é uma proteína que se liga ao DNA e RNA e realiza múltiplas funções na regulação da expressão genética.

A nova demência proposta, LATE, acontece em uma idade avançada, especialmente em maiores de 80 anos. Dessa forma, grupos de trabalho para o diagnóstico do Alzheimer propuseram esse termo com a intenção de incluir outras proteinopatias gerais da TDP-43 que também se associam ao declínio cognitivo, incluindo, por exemplo, a esclerose hipocampal e seus subtipos.

A proteinopatia da TDP-43 foi associada a uma síndrome amnésica progressiva que tem características parecidas com a doença de Alzheimer. Isso, unido ao desconhecimento e à inexistência de exames que permitam diagnosticar a proteinopatia, levou alguns cientistas a afirmar que uma alta porcentagem das pessoas diagnosticadas com Alzheimer poderiam, na verdade, sofrer de LATE.

A proteinopatia TDP-43 supõe a perda da imunorreatividade normal da mesma, com a mudança do citoplasma celular e um acúmulo anormal de proteína.

Como detectá-la

Atualmente, as alterações da TDP-43 só podem ser vistas realizando uma autópsia no cérebro após a morte. Com base nesse tipo de estudo e suas descobertas, os especialistas propuseram uma evolução da doença em três fases:

  • Proteinopatia na amígdala. Foi observado que o volume e a forma da amígdala são afetados na LATE, e que essas mudanças estruturais são um indicativo de declínio cognitivo. De fato, a relação entre essas observações na amígdala e a mudança devido à LATE é muito mais forte que entre a atrofia hipocampal e o Alzheimer.
 
  • Proteinopatia no hipocampo. Foi observado que a atrofia do hipocampo é maior nos pacientes que tiveram LATE do que nos que sofreram um Alzheimer puro. Essa atrofia do hipocampo se mostra assimétrica e, pelo que parece, segue um trajeto de frente para trás.
  • Proteinopatia no giro médio frontal. Essa área está localizada no lobo frontal, e por isso a demência já afetaria os processos cognitivos superiores de atenção e aprendizagem.

Características neuropsicológicas

Assim como outras demências, a demência LATE também é acompanhada por uma síndrome amnésica que pode evoluir e afetar outros domínios cognitivos, além de afetar as atividades da vida diária. No entanto, há certo aspectos que fazem com que essa condição apresente um padrão um pouco diferente.

As poucas evidências que temos até o momento indicam que os pacientes com LATE puro mostram um declínio mais gradual do que aqueles que enfrentam a doença de Alzheimer. Como se esperava, aqueles que apresentam em comorbidade a LATE e o Alzheimer têm um declínio mais grave e rápido.

Os que padecem de LATE têm um declínio mais notável na memória episódica, mas também mostram sintomas graves em outras funções, especialmente em fases mais avançadas. Por exemplo, parece que pacientes com uma boa fluidez verbal, apesar de uma capacidade deficiente para recordar uma lista de palavras, têm mais risco de desenvolver LATE.

Idosa olhando para cima
 

Direções futuras no estudo da demência LATE

Ainda é cedo para estabelecer perfis neuropsicológicos, e não contamos com os instrumentos de neuroimagem necessários para observar a alteração das proteínas ao vivo. Desse modo, não nos resta outra opção além de esperar que pesquisas futuras tragam novos biomarcadores e indicadores, além de características motoras, autonômicas ou neuropsiquiátricas.

  • Nelson, P.T. et al. (2019). Limbic-predominant age-related TDP-43 encephalopathy (LATE): consensus working report. Brain, 142, 1503-1527.